Dando continuidade sobre as tranqueiras que fazem a minha cabeça, agora vou escrever sobre lançamentos recentes dos gêneros
synthpop, electro e
future pop.
Apoptygma Berzerk,
Covenant e
Icon of Coil formam a tríade maxima do
future pop, gênero musical que surgiu para revitalizar os estilos
industrial,
gothic e
EBM na segunda metade da década de 90. Enquanto a EBM, que um dia já reinou nas pistas de dança mais underground – e influenciou toda uma geração da
dance music - chafurdava em BPMs lentos e defasados, este trio acelerou a batida, incorporou os trejeitos do
techno e do
trance (principalmente) e limpou os excessos (leia-se: distorções) do som industrial, ao mesmo tempo em que adotou as melodias vocais e de arranjos das novas gerações de bandas góticas que invadiram o mainstream. Trata-se de um gênero musical novíssimo, onde o futuro (
future) aponta para a fusão de gêneros underground em torno de um resultado bem acessível (
pop). Dito isso, é com enorme prazer que me deparo com o mais recente trabalho dos holandeses do
Covenant, lançado mês passado, e que reafirma sua liderança nesta nova ordem musical.

“Skyshaper” tem uma das capas mais horríveis que já vi, mas o seu conteúdo sonoro é de primeira. O Covenant conseguiu dar um passo adiante naquilo que ajudou a criar. Uma das minhas grandes queixas para com o
future pop era justamente o apreço que as bandas deste gênero tinham com melodias bregas e melosas de sintetizador do
eurotrance (tipo as faixas mais babas de
Tiesto e
Paul Van Dynk). Pois bem, o Covenant limou o excesso de sacarose e cometeu um discaço. “Ritual Noise” abre o álbum com o balanço típico do
future pop - batida trance e clima gótico. Porém, percebe-se um apuro cuidadoso com as melodias e os arranjos (rola até um
vocoder). A faixa seguinte, “Pulse”, surpreende: trata-se de um
electro de primeira! A balada “Happy Man” é curta e com clima totalmente
synthpop, ao melhor estilo de
Gary Numan. “Brave New World” segue na fusão do estilo consagrado com timbres do
electro atual, enquanto que “The Men” aposta novamente no pop de sintetizadores 80’s, agora de uma forma bem dançante. “Sweet & Sally”, “Greater Than Sun” e “20 hz” fundem EBM antiga com o
future pop de forma magistral, com perfeitas soluções dançantes e melódicas. Os DJs vão gostar de “Spindrift”, com sua batida puramente
techno servindo de base para uma melodia tensa. “The World Is Growing Loud” fecha o álbum na forma de uma balada bela e tocante. Ao procurar alternativas para enriquecer o som que os consagrou (e que vem sendo amplamente copiado e desgastado nos últimos anos), o Covenant assumiu a ponta de lança no
future pop, aliando o passado com o presente e novamente apontando para o que vem por aí. Ouça sem contra-indicações.

Na primeira metade dos anos 90 houve uma discreta retomada do pop eletrônico que tanto marcou a década anterior – o
technopop, ou
synthpop para os íntimos – antes do revival avassalador promovido pelo pessoal do
electroclash por volta de 2001. Gente como
Beborn Beton,
Second Decay,
Mesh,
Wolfsheim e
De/Vision mexeram num passado ainda não tão distante e considerado totalmente de mal gosto pela (cri)crítica especializada da época. O mais interessante é que as bandas citadas foram evoluindo em suas investidas musicais, soando provavelmente como gente tipo
Ultravox,
Human League e
Soft Cell estaria se comportando em dias atuais, sem apelar para nostalgias baratas e apontando suas trajetórias sempre em curso evolutivo, como o
Depeche Mode sempre fez. O grupo alemão
De/Vision lançou seu primeiro álbum na linha synthpop em 1993, remando contra todas as marés possíveis. Produziu um pequeno clássico deste gênero em 1996 (“Fairyland”), e agora está lançando o excelente “Subkutan”. Neste álbum de 2006, a banda investe em batidas modernas estilo
breakbeat para soltar bases e linhas melódicas de sintetizadores, todas elas com tibres atuais, deixando a veia oitentista correr nas melodias vocais – acessíveis e um tanto quanto românticas. São baladas e petardos dançantes de uma banda que faz você pensar sobre como o
synthpop soaria se tivesse sido criado nos anos 00 e não nos anos 80.
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Extras: Em termos de synthpop atual, nada melhor do que recorrer ao trabalho solo de
John Fox, multi-instrumentista e ex-vocalista de um dos maiores ícones do gênero nos anos 80 – o
Ultravox. Entre investidas bem
cabeçudas na
ambient/world music, o cara lançou um discaço para as pistas, de nome de “Crash & Burn” (2003). Ali ele produziu bases retas e de arranjos geniais, mesclando o retrô com o
electro atual, tendo como o diferencial seu vocal estiloso e suas melodias perfeitas, que são o sonho de consumo do pessoal da
Giogolo Records. A experiência faz a diferença.

Por falar na Gigolo Records, um dos artistas de seu cast,
Terence Fixmer, sempre procurou se espelhar no lado mais anárquico e radical da música eletrônica produzida para as pistas de dança dos anos 80 – especialmente o duo britânico
Nitzer Ebb. Eis que o tal acabou por chamar metade daquela emblemática banda para participar de seu último álbum, “Between The Devil” (2004).
Douglas McArthy, vocalista do NE, registrou seus inconfundíveis vocais – entre o rock and roll/pós-punk e o gótico – nas bases eletrônicas beeem pesadas de Fixmer. O resultado é uma atualização da fase “That Total Age/Belief” (1987/88), do NE, que nada mais era do que uma fusão de electro, punk e EBM, tudo produzido com sintetizadores e drum machines. Em alguns momentos surge um
hard techno radical, com sintetizadores rascantes e a voz de McArthy dando um molho rocker na coisa toda. Noutros, parece que o NE voltou à ativa, tamanha a semelhança – ou seria
descaramento? - com o som de um dos ícones underground dos 80’s.
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Extras: Particularmente eu gosto mais da fase anos 90 do Nitzer Ebb, quando do lançamento de “Ebbhead” e “Big Hit”. Saíram as bases radicais eletrônicas e os vocais gritando slogans em tom de palavra-de-ordem dos anos 80 (que foi como conheci a banda) e entraram canções fortes e um cuidado extremo nos arranjos.
**Vale lembrar que o Nitzer Ebb voltou à ativa agora em 2006. Tanto revival em torno da banda por conta da geração
electroclash atual (com remixes dos bambas de hoje, tributos, etc.) fez a dupla (Bon Harris e Douglas McArthy) esquecer suas diferenças e tomar o que lhes é $eu por direito.