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terça-feira, maio 06, 2008

2008 JÁ COMEÇOU…

…e só o Kalunga aqui é que demorou para acordar. Talvez seja o efeito de um verão que nunca acaba, esse calor dos infernos. Enfim, mãos à obra!

Hype que cumpre expectativa... ou não?



O Does It Offend You, Yeah? lançou o melhor disco de electro-indie-rock (ou new rave, se preferir) de 2008. Ponto. Não há o que se discutir sobre esta afirmação acerca do excelente álbum de estréia destes ingleses amalucados. Portanto, que venha toda a aura hype em torno deles, muita babação de “a melhor banda de todos os tempos da semana passada”, para depois virarem pó, iguais a vampiros que se arriscam sair à luz do dia? Vamos com calma, ouçam o disquinho bacana que é “You Have No Idea What You’re...” e se deleitem com o que muitos grupos novos prometeram e não cumpriram. As três primeiras faixas, “Battle Royale”, “With a Heavy Heart (I Regret To Inform You)” e “We Are Rockstars” são tudo aquilo que se espera de uma boa safra musical atual, com sintetizadores rascantes fazendo-se de guitarras, som de baixo matador, vocais, letras e título das músicas, hum..., provocadores. Estas três faixas, isoladas, compõem um panorama electro-rock de primeira, e que finalmente promovem uma mistura musical dançante e com um peso de verdade e sem frescuras. Logo a seguir, os caras querem mostrar que sabem produzir boas melodias, com “Dawn of Dead”, um belo indie rock de traços oitentistas. A dança volta com “Doomed”, com linha de baixo post-punk, batida new wave e um vocoder ao melhor estilo Daft Punk. “Attack of The 60 ft Lesbian Octopus” é uma faixa divertida, curta e engraçadinha, que parece ter jogado The B-52’s e Devo num liquidificador lotado de anfetaminas. A aura Daft Punk volta em “Weird Science”, um filhote bastardo da já clássica “Robot Rock”. Delírios pós-adolescentes encarnados em doces melodias farão a alegria daqueles indies de franja na cara (e estacionados na tênue linha que os separa dos emos...) nas belas “Being Bad Feels Pretty Good” (algo como um Cure fase “Head on The Door” com mixagem decente) e “Epic Last Song” (um caldeirão com todas as bandas alternativas levemente tristonhas dos anos 2000). Mas ficou faltando uma faixa, justamente a melhor! Pois é aí que reside o problema, e o péla-saco aqui não deixaria de expor. “Let’s Make Out” foi a música que me fez correr atrás deste disco, tendo em vista que ela saíra antes numa das coletâneas da Kitsuné. É ali que os meninos entraram numa saia justa danada, e sabem o porquê? Pelo simples fato dela jogar boa parte deste disco de estréia no ralo (com exceção das citadas três primeiras músicas). E a dita cuja ainda conta com os vocais ensandecidos de um convidado (Sebastien Grainger, do Death From Above 1979 – por sinal, influência notória no som do Does It Offend You, Yeah?)! É o famoso caso de single fantástico que cria tamanha expectativa que, quando o disco inteiro sai, a frustração fica latente. Tive de ouvir “You Have No Idea...” umas oito vezes para sacar que, sim, a banda é boa. Mas, no mundo rarefeito dos hypes pós-modernistas, ao invés de lascar um 10 com louvor, vou da uma nota 8 porque está mais do que justo.

Aquilo de sempre



O bendito blogg que hospedou (não me pergunte qual, pois não guardei o link) o passe-livre para baixar “Velocifero” o categorizou com uma simples frase: “aquilo de sempre”. Pois bem, tenho de concordar com nosso parceiro bloggueiro, pois o disco novo do Ladytron não vai muito além do que eles - e elas - produziram até agora. Trata-se de um electro-rock (nada de new rave, apesar do rótulo comum) de tintas sombrias com vocais femininos doces e etéreos. Algo como o que seria um Cocteau Twins produzido pelo DJ Hell. Passado o furacão do electro-clash, de onde o Ladytron surgiu, permaneceu um grupo de boas canções e mais voltado para pistas góticas do que às luzes de néon piscando. Dito isso, é sempre bom ouvir músicas de boa qualidade, como “Black Car” (algo como um electro-rock denso e de ritmo tribal), “Ghosts” (uma espécie de blues eletrônico épico a lá Depeche Mode), “I’m Not Scared” (a melhor do disco, na minha opinião: com ritmo mais acelerado, lembra as faixas mais eletrônicas de “Automatic”, clássico do Jesus and Mary Chain), “Runaway” (batida oitentista e uma belíssima melodia), “Predict The Day” (a brutalidade do Laibach encontrando-se com garotas delicadas - ou um Kraftwerk versão Hello Kitty…) e “Deep Blue” (lembra os momentos mais atmosféricos do New Order). Tudo muito bem produzido e perfeitamente audível. Porém, nada que vá mudar sua vida ou que promova arroubos emocionais. Aquilo de sempre…


Vampiros desencarnados



Seres das trevas, louvai! Direto das tumbas, ressurge o vampiro-mor: o Bauhaus está de volta! Trata-se do retorno às músicas inéditas do maior ícone do rock gótico de todos os tempos - tem o Sisters of Mercy também, mas o Andrew Eldritch insiste em enganar otários promovendo turnês com versões irreconhecíveis de seus clássicos sem lançar nada de novo há quase 20 anos… Não é pouca coisa, mas alguns fãs mais ardorosos (e que parecem presos numa tumba empoeirada dos anos 80) poderão levar alguns sustos com o recém lançado “Go Away White”. Os calafrios da turma fantasmagórica de Peter Murphy não serão provocados pelas belezuras góticas - até certo ponto, previsíveis - de “Endless Summer of the Damned”, “Mirror Remains” (as clássicas guitarras climáticas de Daniel Ash e o baixo dub de David J fazendo a cama para a interpretação expressionista de Murphy), “Saved” (bela – ou seria horrenda? – balada de letra supostamente inspirada nas viagens islâmicas do vocalista), e também nas gélidas e cadavéricas “The Dog’s a Vapour” e “Zikir”. Os fãs congelados nas catacumbas pós-punks vão mesmo pedir uma água-benta por causa do rockão a lá Stooges de “Adrenalin”, o pique hard/glam rock de “International Bulletproof Talent” – lembrem-se de que os caras sempre curtiram a fase purpurina do rock and roll, vide covers de Bowie e T-Rex - ou mesmo a faixa de abertura, “Too Much 21st Century” que, ao meu ver, possui uma clara inspiração Beatle! Sendo sincero, trata-se de um bom disco que honra o glorioso passado destes ingleses de características únicas. Dada a esmagadora maioria dos comebacks em ritmo de cover de si próprios, o espectro soturno do Bauhaus está mais (morto)vivo do que nunca.


Remix caô



Os terroristas alemães do KMFDM lançam o mesmo disco todo ano. É incrível a constância suas produções, assim como também é notável que, ao repetirem uma fórmula já consagrada há vinte anos, mantêm a qualidade de sua divertidíssima mistura de thrash metal com industrial, temperados com vocais femininos ultrapop e as mesmíssimas capas dos discos com temática HQ. “Tohuvabohu”, lançado ano passado, cumpre muitíssimo bem as expectativas de quem gosta da banda, porém sem grandes inovações. Eis que surge o disco de remixes do dito cujo, “Brimborium”. Eis também que paira uma nuvem de caô no céu da banda: pra quê gastar um álbum inteiro para promover remixagens que, obviamente, não são melhores que as versões originais? E o pior: qual seria a razão de lançar um disco com remixes tão idênticos à proposta original da banda? O início, com a versão arrasadora do Combichrist (a melhor banda de EBM da atualidade, disparado!) para “Tohuvabohu”, traz boas expectativas. Mas o restante do disco é auto-referente e, por isso, redundante. O mesmo problema que inferiu o Ministry, em “Rio Grand Blood” (e o mesmo para “Cocktail Mixxx”, do Revolting Cocks) que lançou versões com batidas e guitarras em ordem alterada que pouco diferiam das originais, sendo que a maioria foi produzida pelo próprio líder e membro-único da banda! O KMFDM cai nesta roubada, pois chamar remixadores de propostas musicais semelhantes não iria acrescentar em nada na discografia da banda. Acabaram chafurdando no clássico mais do mesmo. E, ainda por cima, não se deram ao trabalho ao menos de remixarem a hilária “Los Niños Del Parque”, melhor faixa de “Tohuvabohu”.


Remix inovador



Um bom caso contrário à situação do lançamento recente do KMFDM foi promovido pelo Nine Inch Nails no excepcional “Y34RZ3R0R3M1X3D”, o disco de remixes de “Year Zero”, de 2007. Ouçam as versões, por exemplo, de Ladytron (fez de “The Begining of the End” um synthpop alucinante), o casal do New Order Stephen Morris & Gillian Gilbert (“God Given” – EBM em versão moderna, e “Zero Sum”, um electro ambient viajante), The Faint (trouxe “Meet Your Master” de volta à época de “Pretty Hate Machine – primeiro disco do NIN – porém com timbres electro atuais) e Pirate Robot Midget (um electro travadão e pesado em “My Violent Heart”). Fora que o mesmo disco de remixes possui versões que vão do rap ao dub, passando até pelo minimal techno! E o Trent Reznor ainda teve a manha de lançar um DVD com todas as faixas de áudio separadas para que qualquer um produzisse seus remixes (tudo bem que o Public Enemy já havia feito coisa parecida cinco anos antes, no que resultou em “Revolverlution”). Remix pra mim é isso: re-interpretações de algo já eternizado, goste-se ou não do resultado final do que fora modificado.


O bom e velho novo rock



Ainda há mais espaço neste post para uma descoberta tardia: os canadenses do We Are Wolves. Êita bandinha divertida, essa, hein? O disquinho de duração curta (nem meia hora) “Total Magique”, lançado ano passado, desce bem igual a um bom wisky single malt. Jogado no saco de gatos em que se misturam bandas electro-rock diversas, o We Are Wolves vai além deste rótulo. É como se o White Stripes encontrasse com sons eletrônicos provindos de um sintetizador estragado. É divertido pacas, algo como uma trilha sonora perfeita para jogar Enduro, do Atari. Sim, o clima é retrô, mas citando diferentes décadas.O sintetizador dos caras ora emula um acid house barulhento, ora incorpora um Jon Lord (Deep Purple) básico. E ainda tem um baixão sujo e pesado e uma bateria nervosa, que se revesa com beats programados de maneira discreta. Enfim, diversão garantida ou o seu dinheiro de volta. Como se alguém ainda comprasse discos que não sejam em sebos…

quarta-feira, dezembro 13, 2006

ROCK HORROR SHOW


Rob Zombie sem maquiagem é mais feio que o zumbi ao seu lado...

Lembram do Rob Zombie? É aquele mesmo, que parecia um misto de Beato Salú/Pedro de Lara com morto-vivo saído da série “Evil Dead”, e que promovia um mix bacana de rock industrial, cine trash e heavy metal. Pois é, o tempo, as cenas e o gosto-comum dos norte-americanos (sua terra-natal) transformaram-no em fumaça de despacho na encruzilhada, e o cara meio que foi esquecido nos pesadelos neófitos da garotada em prol de emossexualismos e bandas gótico-farofa de quinta. Meus caros amigos, mas a carreira do cara não era assim tão desprezível, a começar por sua antiga banda, o White Zombie. Tenho em casa quatro discos dele: “La Sexorcisto”, 1992 - metalzão dos bons, com influências sutis de industrial e hard rock (notadamente o Kiss); “Astrocreep 2000”, 1995 – radicalização eletrônica do som original da banda, mas pegando pesado em refrões poderosos e climas de horror B (também tenho o disco de remixes “Supersexy Swingin’ Sounds”, 1996, muito bom!); e sua primeira investida solo, “Hellbilly Deluxe” - uma continuação natural do último disco de sua ex-banda. Depois disso, deu no saco – pra mim e para o mundo. Parecia que o som dele não tinha mais pra onde correr. Mas, em pleno ano de 2006, resolvi baixar seu petardo mais recente, “Educated Horses” (2006), e chapei o coco!

A vinheta de abertura, “Sandwist In The Blood”, parece ter saído de algum dos filmes que Rob Zombie dirigiu – pra quem não sabe, o cara inclusive está mais envolvido com produção e direção de filmes de terror B atualmente do que com sua própria banda. “American Witch” vem a seguir com uma pegada hard rock/heavy metal que só poderia vir da mente de alguém que sabe que o metal não surgiu com Korn e Linkin’ Park. “Foxy Foxy”, com sua levada dançante, efeitos eletrônicos e refrão pop pode indicar que nada mudou desde “Hellbilly Deluxe”. Ledo engano: Zombie está cantando com voz mais fina e menos agressiva, totalmente glam, e a viagem a seguir vai fundo na highway to hell. “17 Year Locust” tem aquela pegada stoner-metal estilo Corrosion of Conformity. “The Scorpion Sleeps” parece Gary Glitter numa dança de cadáveres. A vinheta “100 Ways” abre caminho para o heavy-rock acelerado de “Let All Bleed Now” elevar os picos de adrenalina. “Death Of It All”, com seu começo dedilhado no violão, engana e parece apelar para aquelas baladas neo-góticas atuais, mas o clima aqui é outro. Aliás, Rob Zombie se destaca de toda esta praga de hoje disseminada por Evanesence e Nightwish (destes dois eu fiz questão de não colocar seus respexctivos links!) pelo simples fato de possuir um senso de humor negro e ao mesmo tempo auto-irônico. Que banda pseudo-depressiva dessas teria coragem de gravar um blues em clima de horror sanguinário (“The Devil’s Reject”) e enfiar cacetadas sem medo de soarem malvadonas e envenenadas por todos os lados? – vide “Ride” e “Lords of Salem”, que encerram o disco, além de todas as outras citadas. Esse Zombie aí agora só comete seus assassinatos em série para platéias selecionadas, pois seu som – graças aos diabos! – não se resvala nas cenas que estão em evidência.

ROCK CITY MORGUE


Banda de funerais?!?

O White Zombie tinha em suas fileiras uma bandaça, pois o talento de Jay (guitarra), Joe Tempesta (bateria) e Sean Yseault (baixo) não poderia ser menosprezado. Com o fim da banda, cada um foi tomando seu rumo. E a baixista Sean resolveu botar pra fora o que estava entalado na sua garganta dentro do WZ – a “eletronização” do som”, e montou um grupo de acordo com suas necessidades. Ou seja: rock and roll puro e com muito sangue, vísceras e putaria juntos. Rock City Morgue, a banda, e “Dead Man’s Song” (2005), o disco, parecem ter pego o lado mais rock and roll que existia dentro do White Zombie e enfiaram punk e gótico na mistura. “Disconnected”, “No Complains” e “I Did It For You” abrem o disco naquele clima rockão básico estilo Hellacopters e Backyard Babies. Só que o negócio aqui é mais sujo, underground mesmo. Eis que na faixa-título, “Hearts”, “People Are Wrong”, “A Time And a Place”, “Dakness As Fallen”, “Never Tell Lies” e em “Don’t Leave Me Haunted” o clima muda, entra um piano mezzo fantasmagórico, mezzo blues e cabaré decadentes, e fluem influências meio góticas até. Surpreendente! “Never Ending”, “Trouble” e “Waste Away” põem o Rock City Morgue novamente a serviço do bom e velho rock and roll, com o vocalista Rick Slave soltando sua voz ao melhor estilo de um Paul Stanley (olha o Kiss aí novamente!) bêbado num boteco de beira de estrada de um deserto qualquer - o vocal do cara é algo entre o punk, o poser e o fantasmagórico. O Rock Horror Show não vai acabar se depender da loirinha Sean Yseault e sua trupe de malucos-mórbidos do Rock City Morgue.


Este zumbi habitou os pesadelos góticos dos anos 80

*Esta estranha e divertida relação de terror + rock and roll, ela vem de longa data, vide o bluesman malucão Screamin’ Jay Hawks, que foi pioneiro nesta temática (nas letras e nas suas apresentações), e que, segundo o recente livro “Goth Chic”, se trata do inventor do rock gótico lá pelos idos dos anos 50. Bom, os góticos sempre curtiram um terror B e Expressionismo Alemão, vide o Bauhaus e os tresloucados do Alien Sex Fiend (foto acima, do vocalista Nick Fiend), que assombraram as catacumbas dos anos 80. Influências nem tanto para góticos e mais para punks, psychobillies e rock and rollers, The Cramps e Misfits povoam os pesadelos de gerações que se renovam e sempre cultuam estes dois ícones surgidos na segunda metade dos anos 70. Pegando um pouco de tudo o que foi citado até aqui, o My Life With The Thrill Kill Kult produziu, no final dos anos 80, um som industrial com pitadas também de noir e easy listening, e que acabou por se tornar uma das maiores fontes de inspiração do traveco-do-mal Marylin Manson. Este último, por sinal, tratou logo de, no início de sua carreira, mostrar a origem de tudo ao gravar o cover “I Put I Spell On You” (no álbum “Smells Like Chidren”, 1995), do pai-da-matéria Screamin’ Jay Hawkins. O mundo dá suas voltas e os zumbis sempre acabam se encontrando em cemitérios e rabecões em comum.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

SONS!!! - electro

Trabalhando pra cacete, mas não deixando de ouvir música! Acredito veemente de que seja muito melhor consultar páginas de amigos para colher dicas de sons do que confiar em colunas “oficiais” que divulgam informação processada pelos motivos de hype de sempre. Você conhece a pessoa, seus gostos e sua forma de expressar seus pontos de vista. Faço aqui minha colaboração.

THE KNIFE


Gente esquisita essa...

E meio às novas ondas propagadas pela mídia imediatista, é sempre bom atentar justamente para aqueles nomes que ficaram lá no fundo destas reportagens, meio que perdidos ou condenados por serem um tanto quanto “diferentes” mesmo. É o caso da famigerada “Cena de Estocolmo – Suécia”, atualmente o centro nervoso dos caçadores de novidades com prazo de validade curto, e que pouco deu destaque ao electro esquisito da dupla de irmãos - Olof e Karin Dreijer - The Knife. Na verdade eu só dei a devida atenção por conta de uma matéria apresentada pela minha namorada e que depois fui ligar com os toques dados anteriormente pelos meus amigos Led e Taylor. Pois bem, o tal The Knife é uma agradável e instigante surpresa! Numa primeira audição dos álbuns “Silent Shout” e “Deep Cuts” identifiquei rastros de electro-clash (aquele revival anos 00 do techno-pop/electro-funk 80’s em ritmo tosqueira e desbocado), boas doses de dark wave (sobretons góticos em formas gélidas e eletrônicas) e até mesmo um tanto de “keyboard music” (não me perguntem o que seja isso...). Olha, na verdade as interrogações piscaram aos montes no meu cérebro, pois é tudo isso que falei e bulhufas disso também! Arrisco a afirmar: trata-se de um som original, onde os vocais ambíguos (são melancólicos? São debochados? São infantis? São demoníacos?!?) de Karin dão um aspecto absolutamente único na proposta musical da dupla – isso quando Olof resolve soltar sua voz de urso pimpão sintetizado (também não me perguntem o que diabos venha a ser isso!) para bagunçar tudo de uma vez. Consegui ainda verificar batidas dançantes “normais” (na faixa dos 130 bpms), outras bem rapidinhas (160 bpms!), subgraves e cliques (nervosos!) no melhor estilo minimal, e vislumbrei o agrado numa pista de dança tanto para clubbers, rockers e góticos que queiram sacudir o esqueleto com sons nem um pouco óbvios. Ah, e ainda sobram baladas que evocam emoções ainda mais estranhas! Fora que eles já têm um DVD (imagem acima) que, pelos visuais apresentados no show, deve ser alucinógeno. Troço bom, esquisito e original este The Knife!

THE NEON JUDGEMENT




Electro por electro, é sempre bom ver os caminhos das novas gerações se cruzando com tiozinhos que andavam um tanto quanto esquecidos. É o caso do duo (Dirk Da Davo e T.B. Frank) belga The Neon Judgement, que despontou na segunda metade da década de 80 praticando um mix de cold wave, electro, gothic rock e EBM, e que parecia ter perdido o rumo totalmente nos anos 90. Eis que a turba do electro-clash anos 00 resolveu tirá-los da sombra do ostracismo e deram uma forcinha na coletânea “Box”, lançada em 2005, ao comporem os remixes do disco-bônus. Obviamente tanto a coletânea em si quanto os remixes, foi privilegiado um repertório mais voltado para bases eletrônicas toscas e programações oitentistas totalmente caricatas. Particularmente curto mais as faixas melhores trabalhadas – e que não constam na coletânea – como “Kid Shyleen” e “Chinese Black”, aquelas que justamente expõem uma face mais rica, sonoramente falando, do Neon Judgement. Sobre o disco de remixagens, sobressaem-se as versões produzidas por Tiga (“TV Treated”), Vive La Fête (“Too Cold To Breath”), The Hacker (“Factory Walk”) e Terence Fixmer (“Nion”) – todos estes apontando novos rumos e sem se apregoarem a tosqueiras propositais, pois nos outros remixes parece que tentaram ridicularizar os supostos “homenageados”. Por via das dúvidas, consulte os originais da banda, particularmente “General Pain and Major Disease” e “”Horny as Hell”.

*Saí da lerdeza de posts! Ainda tem muita coisa por vir!

segunda-feira, outubro 09, 2006

Me indicaram!


Este cara morreu produzindo música boa até o fim

Me indicaram!

Pessoas e fatos passam pela sua vida a todo instante, e alguns poucos são dignos de nota no seu cérebro. Penso o mesmo sobre música. Indicações ocorrem aos montes, e muitas vezes um som que mudou a vida de um amigo próximo seu pode lhe despertar a mais profunda indiferença. Porém, é sempre bom dar ouvidos às indicações, mesmo que exista a suspeita de que o negócio não vá provocar impacto algum – o que não foi o caso aqui. Estes três sons a seguir mexeram comigo, cutucaram no meu cérebro, e estão devidamente guardados na minha lista.

O punk rock, quando do seu surgimento, era a coisa mais urgente e “tapa na cara” que existia. O que poderia acontecer quando os ícones desta facção sonora envelhecessem? Afinal de contas, eles – os punks – vieram também para varrer as gerações anteriores junto de seus vícios. Era o futuro - ou no future, como cuspia Johnny Rotten. Mas como esta geração se comportaria fazendo parte de um passado já distante? Muitos deles acomodaram-se em carreiras e barriguinhas salientes de formas tão idênticas quanto os próprios dinossauros que eles clamavam por extinção. Tornaram-se aquilo tudo que criticavam. Vejo o mesmo acontecendo com alguns ícones da música eletrônica que vieram nos anos 90 arrombando as portas e empurrando o que havia de estabelecido na época para o parque jurássico dos acomodados em geral. Porém, do meu parco conhecimento no terreno do punk rock, sempre que a palavra "The Clash" era citada, surgiam na minha mente músicos que desafiaram seu tempo e que sempre apontavam suas carreiras para a evolução. O que meu amigo Paulinho Ramone já me mostrou destes caras não era brincadeira: em meio ao minimalismo sonoro propagado pelos punks, o Clash estreitava as relações com a Jamaica, fuçava o rockabilly e, de vez em quando, concatenava com até com o jazz e o ska. Seria uma banda à frente do seu tempo ainda hoje!

Eis que, na quebradeira ocorrida sábado retrasado, quando da ocasião do aniversário do Mentor, rolou por intermédio de Caio o disco-solo do ex-Clash Joe Strummer e sua banda The Mescaleros. Em meio a bebidas destiladas em doses fartas, cerveja em copos de 500 ml e muita fumaça, o dub incrivelmente maravilhoso de “Get Down Moses” penetrou na minha mente sem pedir licença, bagunçou meus neurônios e me deixou hipnotizado naquele divertidíssimo caos do momento. Baladas ao violão e punks de veia country também me deixaram embasbacado com aquele disco. Naquele momento meu cérebro não tinha muitas condições de tecer considerações mais profundas, mas fiquei com aquela pulguinha atrás da orelha. Eis que, fuçando um cd de mp3 presenteado pelo Mr. Lips (made in Colatina/Hell’s Kitchen) em 2003, estava lá o tal álbum do Strummer. Definitivamente o falecido tiozinho do punk rock cometeu ali um disco para marcar época e deixar o seu legado para futuras gerações. Faixas como “Coma Girl”, “Arms Aloft” e “All In a Day” jorram adrenalina e suas melodias e soluções harmônicas (que porra de banda é o The Mescaleros?!?) estabelecem marcas definitivas no seu cérebro. A voz de punk envelhecido de Strummer parece reverenciar Johnny Cash nas belíssimas baladas “Long Shadow”, “Silver and Gold” e “Ramshackle Day Parade”. Rocks que parecem ter saído de botecos de beira de estradas poeirentas perfazem também um tanto de melancolia em “Midnight Jam” e “Burnin’ Street”. E ainda há uma linda versão de “Redemption Song”, do Mestre Bob Marley. Enfim, trata-se de um clássico contemporâneo. Joe Strummer produziu este último suspiro de consistência e profundidade antes de falecer.

Outro dia rolou uma discussão muito bacana com meu amigo Taylor, sobre o fato da geração atual de auto-proclamados indies não buscar referências musicais que tenham vindo antes dos anos 2000, de simplesmente ignorar a existência de, pelo menos, duas ou três gerações de bandas do dito rock alternativo, da frustração de tocar (na verdade, fui eu que fiz isso) um hit manjado de 1996 do Suede e o público simplesmente não saber (e nem querer saber) o que era aquilo, e que tudo isso acabou por fazê-lo perder o tesão de batalhar por pistas de dança menos óbvias e mais informativas. Na mesma discussão eu pude, de certa forma, comemorar o fato de que boa parte do público mais novo que freqüenta a minha festa gótica-industrial The Dark Street Project caça as novidades ao mesmo tempo em que se mantém informado sobre o que veio antes. Pelo menos a galera que curte EBM/industrial é assim, enquanto que os “góticos” em sua maioria só dão trela para coisas tipo gothic metal e adjacentes. Pois foi de uma galerinha bem nova (não deviam ter pouco mais do que dezoito anos) que conheci a pedrada sonora chamada Combichrist. Esta mesma turma veio olhar meus CDs e pirou com o fato de eu ter todos os discos do Nitzer Ebb originais, e acabaram por pedir para tocar o clássico “Join in the Chant”. No mesmo ato eles me indicaram a ouvir o tal Combichrist. Não conhecia e fui correr atrás. Trata-se de um projeto paralelo de Andy Laplegue, do cultuado grupo de future pop Icon of Coil, e foi criado para resgatar as bandas na linha powerfull-industrial-ebm de gente como 1.000 Homo DJs e o citado Nitzer Ebb, com batidas eletrônicas estilo bigorna, sintetizadores rascantes e muita distorção digital. O primeiro álbum, “Joy of Gunz” vai bem nesta linha distorcida até o talo. Porém, os caras poliram o som e, pelo menos nos EPs “Get Your Body Beat” e “Sex, Drogen & Industrial”, cometeram atos de EBM e industrialismos dignos de clássicos como “Headhunter” Front 242) e “Let Your Body Learn” (Nitzer Ebb). O Combichrist reverencia o passado de forma respeitosa e ainda atualiza o som com pegadas de techno e hard trance. Batidão pesado, travado e com palavras de ordem para gritar na pista de dança!

Quando fiz um post sobre o She Wants Revenge, o colega virtual Doggma comentou sobre o som, afirmando que lembrava um pouco o Bella Morte. Fiquei instigado. Sabe aquele som que você acha que conhece, mas nunca deu a devida atenção? Pois é, eu só tinha uma música desta banda e fui atrás para ver conhece-la melhor. O link com o hypado SWR é real, pois há uma semelhança entre a bateria eletrônica minimalista e os sobretons góticos de ambos. Mas o Bella Morte é mais atual, não se prende rigorosamente a um passado específico como o SWR faz com Joy Division (principalmente) e Depeche Mode dos primórdios. As guitarras são mais sujas, as melodias vocais são mais rasgadas e há uma conjugação pertinente com sons góticos atuais. “The Quiet” é o meu álbum preferido do Bella Morte, principalmente pelas faixas “Logic”, “Whispers” e “Always” (mais eletrônicas), “Living Dead”, “Echoes” e “Chistina” (mais heavy metal, guitarras apitando, refrãos cantaroláveis), e “Ember” e “Wires” (boas baladas neo-góticas).

*A quem interessar, existe um novo projeto semanal de música eletrônica aqui em Vitória: Projeto Makina

Estamos remando contra todas as marés possíveis, mas o negócio está engrenando!

Valeu!

sexta-feira, junho 30, 2006

Novidades, velharias, náuseas...

Enfim alguma banda nova atraiu minha atenção! Bom, na verdade, eu caí a armadilha de ser seduzido pelo velho embalado no novo. O duo californiano She Wants Revenge adora Joy Division. Mas o Interpol também adora a banda do finado Ian Curtis, e nos dias atuais de informação à velocidade da conexão de internet que o seu bolso pode bancar, o quarteto de NY já é veterano, pois conquistou a incrível marca de dois álbuns lançados! Pois bem, a proposta do She Wants Revenge é mais divertida, vertendo o som do Joy Division paras as batidas digitais das pistas de dança, sem se esquecer de baixo-guitarra bem marcadinhos e uns cacoetes oitentistas (Human League e Depeche Mode, basicamente) aqui e acolá. Tudo bem, mais um coelho surge desta cartola exigindo seus direitos, pois o próprio New Order seguiu sua carreira após o fim do JD justamente apostando na eletrônica. Olha, está difícil falar de alguém que tenha uma idéia original nestes dias atuais... Bom, o que importa é que esta bandinha de nome bacaninha aí é bem divertida e fará a cabeça tanto de góticos cheirando a naftalina quanto de neófitos fãs da nova-salvação-do-rock-que-baixei-hoje-à-tarde. E a tal da “I Don’t Want to Fall In Love” é o meu hit atual que fará minha glória no comando de uma pista de dança, ha-ha!

Rudy Ratzinger não é parente do Papa Bento XVI, e se tivesse vivido na época da Inquisição, iria pra fogueira sem dó. A verdade é que a mente deste alemão vive povoada dos mais sinistros sentimentos humanos, revestidos na forma de uma espécie de EBM (electronic body music) com peso e intensidade jamais vistos. Ao contrário de muitos de seus pares nesta vertente do som industrial, o dono do Wumpscut não apela para guitarras distorcidas nem para os ritmos ultra rápidos e apelativos do gabba. Em “Cannibal Athem”, seu mais recente lançamento (2006), os sintetizadores e as drum machines continuam com o peso de uma bigorna, mantendo a tradição dos vocais distorcidos e (a partir de “Wreath of Barbs”, 2001) belas intervenções femininas. As letras são delicados tratados sobre toda a sorte de assassinatos, mutilações e exorcismos. Ouvir Wumpscut é uma experiência marcante – para o bem ou para o mal, dependendo de sua visão de vida.
*Esta espécie de “EBM do Mal” tem como percussor o duo belga Vomito Negro, e como seguidores – além do próprio Wumpscut – grupos como Allied Vision e Velvet Acid Christ.

A palavra “Tributo” no meio musical adqüire sinônimos como “Assassinato”, “Insulto”, “Indulgência” e “Heresia”, tal qual a enorme quantidade das terríveis coleções em homenagem que assolam nossos ouvidos constantemente. É um verdadeiro desfile de gente sem talento em busca de um lugar ao sol às custas de parasitismo falcatrua que nem vale mais à pena ouvir estes monstrengos, nem mesmo por curiosidade. E o pior de tudo é que a vertente industrial é pródiga neste tipo de lançamento. O primeiro que ouvi foi o do Metallica, cujas melhores versões (a saber: Hellsau, Apoptygma Berzerk, Die Krupps e In Strict Confidence) são aquelas que não têm absolutamente nada a ver com o original, nem mesmo riffs ou melodias – totalmente desnecessárias, então. Depois me aparece um tributo ao Tool, que até conta com bandas promissoras (Haujobb, Electric Hellfire Club e Razed in Black), mas que mesmo estas conseguem provocar náuseas, fazendo valer à pena somente pela correta versão de “Stinkfist” cometida por Maya Hiena, com vocal feminino e pouca (nenhuma?) mudança em relação ao original. Pior mesmo é o tributo ao Skinny Puppy, que conta com praticamente a mesma escalação de perdedores e promissores que queimam o filme igualmente, sendo que não há para onde correr, pois bandas de industrial fazendo cover de outra banda de industrial soa sem sentido. Tem também uns dois discos em homenagem ao Ministry, sendo que muitas das faixas escolhidas são justamente da fase technopop da qual Al Jourgensen (o suposto homenageado) renega até a morte. Pelo menos tem uma versão folk e com vocal feminino de “Scarecrow” que é bem engraçada. No final das contas, “disco-tributo” define uma máxima: a de que todas as bandas participantes não chegam aos pés do homenageado. E se o homenageado tiver sua importância questionada ao ponto de realmente merecer um tributo, é porque os envolvidos em tal empreitada não possuem futuro algum na música!
*Tributo por tributo, eu só ouvi um até hoje que me passou algo positivo: o primeiro volume dedicado ao Black Sabbath. Homenagem com reverência, respeito e (na maioria dos casos) inovação.

sexta-feira, junho 16, 2006

Sons!

Olha, é difícil achar alguém que diga: Eu odeio Ramones!. A não ser que o indivíduo ligue a música do quarteto de Nova York com algum acontecimento ruim em sua vida, ainda não topei com tal sujeito na minha frente até hoje! Mesmo mergulhado em techno-pop e afins em meados dos anos 80, eu tinha minha fitinha K-7 (dupla!) com o “Ramonesmania” e ouvia direto. Naquela época o pau comia entre punks e metaleiros, mas os Ramones tinham o dom de fazer todo mundo gostar deles – inclusive quem não era muito afeito ao rock and roll em si. Pois é, o tempo foi passando, o quarteto da jaqueta de couro e do jeans rasgado foi ficando guardado no coração de seus fãs e na memória afetiva dos não-tão-fãs-assim, e sua música já não era nem de longe a referência para os hypes de então quando da morte de seu vocalista. A revista Bizz, por exemplo, dedicou apenas uma página em “homenagem” ao falecido, ainda assim pondo em questão a sua real importância para a história da música popular mundial. Em plenos anos 2000, na Era do Download, Nova York voltou a ser a bola da vez e os Ramones, como que num passe de mágica, voltaram a povoar a mídia, com homenagens e quetais. A verdade é que ficou inevitável demais não homenageá-los, tendo em vista o triste fato de que três dos quatro membros originais estarem se encontrando six feet under. Podem dizer que eles se repetiam, que exaltavam a rebeldia jovem tendo idade para serem pais – avós, até! – do seu público-alvo, ou que só povoavam os corações de fãs do Terceiro Mundo. Beleza! Mas, ao ouvir um discão como “Too Tought To Die” em pleno ano de 1984, no auge do exagero plastificado dos anos oitenta, é uma tarefa gratificante. Numa era de teclados baratos, baterias eletrônicas quadradas e cabelos de mullets, os quatro Ramones mantiveram seu visual (aliás, carregando ainda mais no preto e no couro) e gravaram um disco pesadão, cru e na cara. Além de seu velho e irresistível som punk/bubblegum, haviam ecos de psychobilly e hardcore dos bons (com Dee Dee nos vocais). Doces melodias embaladas por guitarras bem pesadas para o padrão da época. Não seguiam moda, seus planos de conquistar o mundo fracassaram (quem viu o documentário “End of Century” sabe da história), e só restava fazer o que gostavam, remando contra todas as marés possíveis. Um disco que não faria feio numa pista de festinha rock, e que daria um tapa na cara dessa galerinha nova aí que parece só conhecer “I Wanna Be Sedated”.
*É fácil eu cair no lugar-comum e sair por aí descendo o pau nas gerações mais novas que a minha. Porra, tô sentindo na pele esta tentação me cutucando! Quarta passada (14/06) botei pra rolar sons tipo Suede e Blur numa festa e ninguém conhecia. De 2000 pra trás, tudo deve ser muto velho, os Strokes já são veteraníssimos, e eu estou virando um dinossauro???
**Paulinho, eu ouço esta porra de disco maravilhoso o dia inteiro! Só faltam agora o “Animal Boy” e o “Halfway to Sanity” pra você me dar de presente e completar a trilogia metal dos Ramones, hehehehehehe...


Amantes dos sons das catacumbas têm o Cassandra Complex entre seus mimos preferidos. Eu tinha um exemplar em vinil do álbum “Cyberpunx” (1990), adqüirido junto da leva de bandas de industrial/ebm que fizeram a cabeça de toda uma geração tupiniquim. O bolachão me foi roubado junto de mais ums 50, e acabei por deixar a banda esquecida no espaço-tempo. Quanta injustiça! Resolvi clicar no Soulseek o seu nome e agora estou completando sua discografia. Uma definição bem objetiva do som destes ingleses: gorhic rock a lá Sisters of Mercy carregado com muita eletrônica e guitarras invariavelmente distorcidas. Amantes do maravilhoso som dos anos 80 (o que realmente de bom foi produzido) vão gostar do sabor synthpop + gothic rock de “Grenade” (1986) e “Feel The Width” (1988). Àqueles que gostam de EBM e industrial vão pirar no já citado “Cyberpunx” e, principalmente, em “Sex & Death” (1998 – que tem toques estilo NIN e de eletrônica bem pesada). E os fãs de última hora da banda de Andrew Eldtricth – patrono dos Sisters of Mercy e maior referência de som gótico de todos os tempos – vão gostar de “Wetware” (2000). A banda continua na ativa, seus álbuns só se encontram em versões européias (com exceção de “Wetware”), e não é tão fácil assim de baixar na internet. Resumindo: é som para iniciados – se as referências citadas aqui não lhe agradam, nem tente!

Escrever sobre o Tool é tarefas das mais complicadas. Trata-se de uma das bandas mais íntegras em sua proposta musical que apareceram nos últimos 15 anos. O que mais me impressiona em sua música é que seus (poucos) álbuns possuem uma clara ligação entre si, cada qual representando um passo maior em direção de seu próprio universo. Seus videos são simplesmente os mais fantásticos que se têm notícia, ao conseguir fazer com que imagens que não economizam em tecnologia sejam a visualização perfeita de sua experiência sonora única. É fato que não se trata de uma banda de fácil digestão, com faixas longas, mudanças de andamento constantes, álbuns que não possuem letras das músicas, e quatro caras que tocam pra caralho – e isso incomoda muita gente. Há uma ligação sim com o terrível rock progressivo, mais por conta da estrutura de sua música do que com a sonoridade final em si. O Tool é fruto da geração grunge, seus riffs e melodias vocais evocam àquela era, e não aos dinossauros progressivos dos anos 70 – e isso faz torcer o nariz também dos coroas fãs daquele período musical específico. Com tantos contras, porque que os caras possuem um séquito fiel e muito numeroso? Em 15 anos de banda, possuem apenas quatro álbuns oficiais (fora Eps e tal) e a vinda de um novo lançamento é aguardada com uma comoção inexplicável para uma banda tão, digamos, inacessível. Seu disco mais recente, “10.000 Days” (2006), apenas reforça o culto, pois a alma de sua música continua intacta. Se cabe uma crítica, posso afirmar que o Tool muda muito pouco a cada disco, ainda que este lançamento tenha uma pegada mais stoner e que seu som esteja ainda mais intrincado instrumentalmente. Quanto ao vocalista Maynard Keenan, posso afirmar que este já ocupa o posto de uma das principais vozes nos anais do rock and roll, pois seu estilo único e sua capacidade de criar melodias marcantes e originais encontram poucos paralelos hoje em dia. Entrar no universo do Tool não é fácil – ainda que este que vos escreve tenha pirado logo de cara. Se na primeira faixa – de qualquer álbum – você não sintonizar na dos caras, vou logo avisando: o que virá pela frente será bem pior!
*Supondo que os discos do projeto paralelo A Perfect Circle poderiam amenizar a agonia pela demora nos lançamentos da banda principal, eu assumo a postura daquele fã chato e pentelho. Vou logo escrevendo: A Perfect Circle é um Tool de muletas! Ótimos discos, mas a aura da banda titular está ali, esfregando na cara e avisando sobre quem realmente manda!

sexta-feira, novembro 18, 2005

A Indústria não pára – Parte IV: O Future Pop


Este é um dos ícones desta vertente musical conteporânea.
Imagem by: Icon of Coil Official Website


Future Pop? ‘Que merda é essa?’, me perguntei há alguns anos atrás, quando li sobre numa (excelente, diga-se) reportagem em O Globo, num período em que a internet ainda não fazia parte ativamente da minha vida. Eu já não podia mais comprar discos importados como antes (o dólar disparara novamente, além de minhas prioridades serem outras), o selo/loja Cri Du Chat (que fez história no Brasil lançando bandas brazucas e gringas neste segmento com uma regularidade impressionante) havia falido, e tudo acabou por fazer com que minhas fontes de informação no universo da música industrial simplesmente secassem. Tal reportagem retratou um novo estilo que havia tomado forma e cara próprias entre o final dos anos 90 e o início desta década. Já tinha ouvido falar de alguns nomes ali citados, mas nunca havia de fato entrado em contato com aquilo tudo. Deixei o tempo passar.

Quando caí nas graças dos downloads via internet, fui procurar pelos principais nomes do tal do future pop: Apoptygma Berzerk e Covenant. Disparadamente estes dois grupos são a melhor e a principal porta de entrada neste segmento. A tal reportagem atentava para uma drástica atualização da música industrial e da electronic body music por meio de batidas dançantes mais em dia com as tendências das pistas, e de vocais limpos, sem distorção e totalmente pop, com algumas quedas para as melodias de bandas góticas contemporâneas. E o future pop é isso mesmo, pois se trata da vertente do universo industrial/ebm com claras tendências populares, passível de ser ouvida em rádio e de ser tocada sem o menor pudor em festas de techno e trance. Mas é aí que o caldo pode entornar.

É notória a predileção dos europeus por melodias um tanto quanto bregas empregadas em trance e afins. São aquelas notas de sintetizador jogadas em cascatas melódicas em excesso, que podem tanto ser utilizadas em faixas techno radicais quanto em babas como aqueles dances de aeróbica. O future pop é um gênero europeu por natureza, e mesmo as bandas mais conceituadas insistem algumas vezes neste tipo de melodia. Pelo visto o público de lá gosta muito disso pois, em alguns casos, surgem até faixas grotescas onde melodias bregas de sintetizador são colocadas junto a vocais guturais estilo death metal - cruz-credo! É preciso separar o joio do trigo e é isto que tentarei fazer a seguir.

O Apoptygma Berzerk é o mais melódico de todos, mas sua música é muito bem trabalhada, e sua discografia é impecável, tendo começado praticando uma ebm rápida, gótica e apocalíptica, e que com o tempo acabou por definir o estilo primordial do future pop (também ficaram ainda mais famosos pelo cover de “Nothing Else Matters”, do Metallica). Pioneiro também é o Covenant (não confundir com o black metal Kovenant), que produz bases próximas às do psy trance, mas investindo também em beats mais quebrados estilo breakbeat/electro, além de investir em melodias mais melancólicas. Um nível ligeiramente abaixo vêm: Icon of Coil (perfeita fusão entre o Apoptygma Berzerk e o Covenant), Razed in Black (com beats mais quebrados e guitarras heavy metal) e Assemblage 23 (o mais gótico de todos, fazendo uso eventual de vocais femininos). Logicamente este é apenas um ponto de partida. Selos underground e prolíficos em produções a todo momento como Metropolis Records e Zoth Ommog são uma excelente fonte de pesquisa.

quarta-feira, outubro 19, 2005

A Indústria não pára – Parte III: Os Góticos


Esta é galera que gosta de vestir um pretinho básico!
Imagem by: Diary of Dreams Official Website


O universo da música gótica sempre possuiu relações estreitíssimas com a galera do industrial, ao ponto de seus públicos se misturarem e se confundirem entre si. Vou abordar aqui algumas bandas que trafegam nesta linha estreita, onde os climas lúgubres se encontram com as máquinas pesadas. Como o verão está chegando, nada melhor do que ouvir sons gélidos e darkosos para espantar o suor!

Steve Albini é considerado o Mestre da Sujeira, aquele cara que faz as bandas mais selvagens soarem ainda mais primitivas, ao mesmo tempo em que todos os instrumentos são captados na sua mais pura beleza barulhenta e de forma incrivelmente nítida. Fez parte de combos radicais (nos anos 80) como Big Black e Rapeman, onde baterias eletrônicas toscas serviam de base para verdadeiros estupros sonoros. Como produtor, é sempre requisitadíssimo, tanto por bandas underground que queiram dar um tapa mais profissa na sua sujeira, quanto por bandas pop que queiram garantir uma moral para com a turminha alternativa – exceção honrosa ao Nirvana e o seu maravilhoso “In Utero”. Pois onde estava com a cabeça o Albini quando pegou para produzir uma banda gótica?!? O Userhouse, banda californiana por azar do destino (a californication teria produzido sua cria mais bizarra de todos os tempos?!?), é soturna, triste e sorumbática, querendo fazer nevar nas areias de Venice Beach. Pratica um mix excepcional de rock gótico tradicional (Bauhaus é a sua maior referência) com climas e sintetizadores sombrios (a face industrial), tudo isso misturado a guitarras sujas e pesadas – cortesia do humor de Mr. Albini na mesa de som. Ótimas canções estão registradas neste “Molting” (1994). É para bater a cabeça e se deprimir – e nada a ver com aquela xaropada do tal do gothic metal, por favor!

Existem bandas que são tão influentes em seus segmentos, que geram crias baseadas tão somente em algumas músicas específicas suas. É o caso do Sisters of Mercy, talvez a maior referência em termos de “som gótico” que vemos atualmente. O dinamarqueses do Diary of Dreams, por exemplo, se basearam única e exclusivamente na música “Flood” (ao meu ver, é claro), do clássico álbum “Floodland” (1987), da turma morcegóvia de Andrew Eldritch. A faixa citada criou um mix de electro/EBM/industrial bem pesado, junto ao seu estilo único de gothic rock, com os vocais de Andrew mais graves e fantasmagóricos do que nunca, e recheando tudo ainda com camadas de guitarras assombrando os canais de som. O Diary of Dreams, logicamente, não é uma repetição de uma nota só. Mas deve a sua alma sofrida a esta música. Edward Mãos de Tesoura iria cortar sua própria cabeça de alegria/tristeza com esta banda.

Outra banda mais do que influente ao pessoal das catacumbas é o Depeche Mode, que gera clones a cada esquina escura. Uma destas cópias começa a criar vida própria e a produzir um tipo de música cada vez mais especial: o Mesh. Mais guitarras, mais peso, mais melancolia - a banda adiciona também influências do Nine Inch Nails nesta mistura, tornando-os ídolos entre os guetos mais sombrios da Europa (seus discos nem são lançados nos EUA). Lembrando: eles fazem canções para cantar – e chorar – junto. Chega a ser pop – para os padrões de “O Corvo”, é claro.

A Alemanha é prolífica em matéria de música gótica. A quantidade de bandas apostando no lado negro da força que brotam de lá é absurda, com o termômetro de qualidade sempre batendo lá em cima. O Wolfsheim começa a se tornar grande entre os cemitérios alemães. Eles praticam uma mistura de rock gótico com elementos eletrônicos – peraí! Eu já vi este filme antes! Ok, tudo bem, eles não fazem nada de novo. Mas o som deles é lindo, porra! Percebe-se uma finesse, um bom gosto absurdo em suas melodias e arranjos. É belo, é encantador, é poeticamente triste e contemplativo. “Casting Shadows” (2003), com suas canções em alemão e inglês, é o disco perfeito para ouvir ao lado de sua musa gótica, bebendo vinho com sangue, chorando e sorrindo juntos ao mesmo tempo, observando a chuva cair pela janela.

Vomito Negro dá medo, a começar pelo próprio nome desta banda belga. Há uns oito anos atrás, encomendei o maravilhoso álbum “A New Drug” (1990), através de uma difícil conexão européia (o cd veio escrito “made in Austria”). Paguei caro para me assustar! O estilo desta banda remete diretamente à EBM clássica pois, afinal, este gênero musical partiu dos conterrâneos do Front 242 que, em 1981, criaram uma cena local fortíssima. Pois bem, o Vomito Negro (o nome é esse mesmo!) partiu da citada “EBM clássica” para costurá-la com alguns dos climas mais soturnos que se têm notícia - usei até em trilha de história de terror na faculdade! Já o álbum “Wake Up!” (1992 – tenho em mp3), é mais voltado à EBM, mas igualmente poderoso. Ouça e vomite negro!

*Ainda poderia falar de nomes excelentes nesta linha como Clan of Xymox, Alien Sex Fiend, Kovenant (um ex-black metal) e Mortiis (idem). Muita escuridão acabou por me dar vontade de ir à praia tomar um sol e ouvir ons mais alegres!

**Eu ODEIO esta praga atual chamada de gothic metal. Nesta linha, fico só com os clássicos de Type O’Negative (“Bloddy Kisses” e “October Rust”) e Paradise Lost (todos os discos, inclusive os mais atuais!). Estou ficando velho e resistente a estes modismos dos dias de hoje, hehehehehehe...