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terça-feira, setembro 23, 2008

ALGUNS SONS...

E não estranhe se este blogg for atualizado por dez dias seguidos ou só no ano que vem.

Covenant – “In Transit”


A sofisticação do figurino dos caras combina com sua música

Uma das melhores bandas eletrônicas da atualidade, o trio sueco Covenant - não confundir com o black metal industrial The Kovenant – lançou outro disco ao vivo em 2007 (o primeiro, “Synergy – Live In Europe ”, é de 2000). “In Transit ” contém mais uma leva de belíssimas canções sobre bases digitais modernas e dançantes. O rótulo futurepop, do qual o trio é comumente associado à sua concepção, não comporta mais a excepcional música destes caras – eles estão mais para um Depeche Mode dos novos tempos. Ouça, por exemplo, a magistral versão ao vivo de “Bullet” ou a melodia singela de “Happy Man” cantada perfeitamente pelo vocalista Eskil Simmonsson, e constate que a famigerada mistura de synthpop com EBM e melodias trance – a grosso modo, o que consiste o futurepop – não é mais suficiente para resumir o que é o Covenant. Este disco ao vivo é uma boa coletânea de algumas de suas melhores faixas, mas o barato mesmo é ver o DVD do show, com uma excelente produção de palco (ligeiramente alusiva ao Kraftwerk), a qualidade sonora perfeita, o figurino finesse dos caras e o público tão elegante quanto. Eu ralei para achar isso no Torrent, e o link que baixei já expirou. Qualquer coisa, eu gravo para quem interessar...

Front 242 – “Moments”




De volta ao passado! A onda dos revivals ainda age como uma praga sem data para acabar. Sinal dos tempos, de que os velhinhos (adjetivo para qualquer um que tenha nascido antes dos 90’s, segundo os tempos atuais) têm pouco ou nada a dizer a não ser relançarem clássicos e deixarem as novidades para a garotada? É bem provável, e isso pode se aplicar aos belgas criadores da EBM (electronic body music): o Front 242 . Ao que tudo indica, ele preferem o conforto de andar sobre este tipo de terreno mais seguro e garantido contra críticas vorazes. O último disco inédito deles foi lançado em 2003 (“Pulse”), era apenas ok e demorou 10 anos para sair! Fora isso, o quarteto vinha desagradando os fãs ortodoxos (como eu!) ao insistir em tocar ao vivo suas faixas no mesmo formato registrado desde “Reboot: 98 ”. Os clássicos de outrora foram repaginados radicalmente para uma espécie de hardcore techno barulhento e repetitivo, que depunha contra o passado de glórias do grupo. Todos os detalhes dos arranjos e timbres foram aplacados por uma sonoridade acid, linear e chata pra burro em todas as músicas! Acho que a chiadeira foi tanta no ouvido deles, que agora os caras resolvem dar um mimo aos fãs com o recém lançado box “Moments”. Da primordial “U-Men” (1981) à recente “Together” (2003), são mais de 20 clássicos tocados ao vivo, próximos à maneira original, tal qual sugere o título da turnê que gerou este lançamento (“Vintage Tour”). É pra fã nenhum reclamar, ainda que a versão 2008 do mega-clássico “Headhunter” não chegue aos pés da energia contida no registro de “Live Code” (1995), que pra mim é ainda o disco ao vivo definitivo do Front 242 (em que se pesem as ausências homéricas daquele disco, devidamente resgatadas em “Moments”).

ELETRÔNICA HYPE

The Presets – Apocalypso


Posso jurar que o som do The Presets não tem nada a ver com o visú destes caras...

Tudo o que você ler nesta resenha pode resvalar em mofo. Afinal de contas, o último disco do duo australiano de synthpop The Presets , “Apocalypso ”, foi lançado há distantes três meses, e a cena eletrônica do país dos cangurus pode já ter sido deixada de ser hype há muito tempo - talvez algumas horas atrás – para dar espaço às novidades vinda de/da/do ... (preencha o espaço você mesmo, pois eu perdi o bonde da história). Agora, se você não se deixa levar por qualquer marola passageira divulgada por aí pela internet, eu ponho a mão no fogo por estes caras aqui. Não tem pra Pnau, Midnight Juggernauts, Cut Copy ou Bag Raiders nenhum não: entre os nomes mais hypados do tal synthpop australiano, o The Presets põe fogo nas pistas de dança de verdade, sem pudores indies (tais quais seus conterrâneos de cena), pois não tem medo de pesar o som quando lhe convém (como em "Kicking and Screaming" e em "My People"), fazendo o disco descer bem por inteiro. Em alguns momentos, os vocais e as melodias dos arranjos (principalmente em “This Boy In Love e “New Sky”) lembram um Depeche Mode classudo ou mesmo um Information Society quando estes resolviam mandar bem de verdade (tipo “What’s On Your Mind”, injustamente relegada à condição de trash hit 80’s). E synthpop por synthpop da cena do país do caçador de crocodilos que morreu com uma ferroada de uma arraia no meio do coração, o The Presets é o grupo que mais se aproxima do verdadeiro sentido deste gênero musical, ao mesmo tempo que o atualiza e o transforma em algo moderno e original.

Por falar em synthpop...


O cara aí da esquerda não é o Patrick Dempsey!

Outro dia eu estava ouvindo o duo norte-americano Chromeo , super hypado projeto de electro-retrô que rola atualmente. Ao mesmo tempo em que me divertia à beça com o som deles, me incomodava constatar que os caras emulavam 100% um tipo de tecnopop caricato que era datado já nos anos 80! Enquanto baluartes do primeiro escalão deste gênero como Depeche Mode, New Order e o pai/avô/Deus-Criador Kraftwerk inovavam a cada lançamento, uma turma da segunda divisão daquela época suava em baterias hexagonais vagabundas e sintetizadores baratos para tentar correr atrás dos mestres, gerando faixas tão divertidas quanto constrangedoras. Pegue aí o exemplo de gente como Spandau Ballet e Flock of a Seagulls. Esta leva de artistas ficou eternizada por carregar os nomes, as roupas e os penteados mais ridículos de todos os tempos, assim como tiveram pelo menos uma música registrada nos anais do tecnopop e que hoje são motivo de risadas em festas retrô. Pois é este tipo de som que o Chromeo quer reproduzir sem o menor pudor. Tirando a qualidade da gravação (com graves e médios prontos para tremer o chão das pistas de dança de hoje), esta dupla cara-de-pau e seus discos poderiam se equiparar ao som que o Ministry fez em seu primeiro disco, de 1983.


Este cowboy do inferno apocalíptico atual um dia foi vítima da moda...



O que esta pessoa viu na sua frente nos anos 80 para se transformar no cara da foto anterior?!?

Se hoje o grupo de Al Jourgensen é lembrado por ter criado a incendiária mistura de thrash metal com industrial e segue atualmente provocando abalos sonoros pesadíssimos, em 1983 o Ministry gravou um vexame, parecendo querer ser desesperadamente uma banda para tocar na trilha sonora de “A Garota de Rosa Shocking” (ou em qualquer filme adolescente genérico da época). Postas lado a lado, até que as três primeiras músicas de “With Sympathy” não fariam feio aos sons do Chromeo (ué, não deveria ser o contrário?). “Effigy”, com bons arranjos de synth e guitarras, “Revenge” e seu clima quase gótico, e o groove irresistível de “I Want To Tell Her”, que faria bonito na onda new disco atual, formam uma bela trinca inicial neste disco de estréia do Ministry. Mas o que se segue no resto das faixas é de constranger até mesmo ao Chromeo! Confie na opinião do próprio Al Jourgensen sobre este álbum: “Não valeria à pena nem ser roubado!”.

O TECNOPOP SANGUE BOM


O grupo belga Telex

Por conta de irresponsáveis como o Chromeo e também por causa do já longínquo hype do electroclash (foi em 2001, lembra?), o tecnopop tem sido sinônimo de uma época em que o bom gosto fora esquecido. Tamanho foi o estrago promovido por aquela gente esquisita e exagerada, que logo no início dos anos 90 o gênero musical movido à base de sintetizadores apareceu já de rótulo novo, o synthpop. Esta nova alcunha nada mais era do que a mesma coisa que o tecnopop, porém sob um estofo mais chique e menos espalhafatoso. Contudo, músicos de boas bandas do ressurgido pop de sintetizadores como De/Vision, Wolfsheim e Mesh - que, diga-se de passagem, passam batidas do hype do synthpop australiano de hoje - faziam referência não aos trash hits dos 80’s citados no parágrafo acima, mas sim a um pessoal do tecnopop que deixou algum legado respeitável a ser seguido. É por isso que lembrei com carinho de duas bandas ótimas dos anos 80: Telex e Moskwa TV (OBS: eu poderia citar também o excelente Ultravox, mas este e a carreira solo do ex-integrante John Foxx merecem posts à parte). Estes dois nomes participaram ativamente de minha pré-adolescência, ao lado dos óbvios Depeche Mode, New Order e Kraftwerk. Posso afirmar tranquilamente que faixas como “So Sad” e “Second Hand”, dos belgas do Telex (vale atentar que eles voltaram á ativa!), quando tocadas numa pista de dança de electro/synthpop de hoje (eu já fiz isso!), gerariam interrogações nos antenados de plantão, ávidos para saberem que banda nova estaria tocando. Já músicas como “Tell Me, Tell Me” e “Brave New World”, dos alemães do Moskwa TV (uma das crias do geniozinho Talla 2XLC), talvez agradem em cheio aos fãs de grupos que promovem o eterno revival do post-punk (como fizeram os noruegueses do Monomen em “Oscilate”) e que não resistem em soltar uma ou outra faixa lotada de sintetizadores oitentistas.

LOUNGES E GROOVES INSUSPEITOS

A música lounge/chill out virou rótulo suspeito para a trilha sonora de qualquer ambiente metido a besta. Há tempos que este tipo de som tem sido banalizado por cítaras indianas de araque, BPMs baixos e safados programados em cima de discos de música étnica de procedência duvidosa, e vez ou outra com alguma cantora brasileira de vocais neo bossa nova de sobrenome exótico, normalmente citando alguma cidade baiana ou carioca, cuja fama só engana a gringos sebosos sempre dispostos a chacoalhar os esqueletos com alguma world music devidamente europeizada para não agredir aos seus paladares. Separar o trigo do joio em meio a tanto curry e dendê falsificados requer um trabalhinho! E não vou negar o clichezão de assumir que curto sons mais light para embalar meu dia-a-dia com mais calma.

The Orb – “The Dream”


Este simpático senhor é responsável por alguns dos sons mais alucinógenos e originais que se tem notícia

Quando as primeiras raves surgiram na Inglaterra, na segunda metade dos anos 80, um sagaz indivíduo chamado Alex Paterson resolveu criar a trilha sonora para aqueles momentos onde a bombação já havia passado, mas as drogas ainda continuavam a fazer efeito. Era a hora de diminuir gradativamente o BPM, como que um espírito pilhado fosse expurgado aos poucos de seu corpo, sem acabar com a festa abruptamente. Reza a lenda que o hoje mega DJ Paul Oakenfold cedeu um espaço em uma festa sua ao tal do Paterson, que acabou concebendo o The Orb como o primeiro projeto musical dedicado exclusivamente aos chill outs. Tomando lições dos experimentos com música ambient promovidos por Brian Eno, das viagens mais progressivas e psicodélicas do Pink Floyd (David Gilmour declarou em 1993 que era fã do Orb!) e das chapações dub jamaicanas, Alex Patterson criou um som único. A música flutua pelos canais de som, mas também treme o chão e faz dançar. Nunca em qualquer de seus discos Patterson apelou para climinhas pseudo-trancendentais. A única certeza ao ouvir o som deste inglês doidão é que a viagem estaria garantida, mas o destino seria sempre para algum lugar diferente. Dito isso, é bom frisar que “The Dream”, seu lançamento mais recente, é o seu melhor disco desde “ Orblivion” (1997). Alguns climas iniciais nas faixas deste disco novo do The Orb podem sugerir alguma aula de meditação ou tai chi chuan. Mas os grooves e programações que entram a seguir podem fazer de um incenso um incêndio! De fato, a sonoridade de “The Dream” é mais dançante, vide as ótimas batidas de “Vuja De” e “The Truth Is...”. Contudo, os momentos espaciais estão sempre presentes, como em “The Dream” e “DDD”, como reza a cartilha psicodélica de estilo único nas produções de Alex Paterson. Aperte os cintos, senão teu corpo e tua mente vão loooooonge....

Nightmares on Wax – “Thought So”


O cabeça do Nightmares on Wax

Seguramente você pode baixar qualquer disco do projeto encabeçado pelo produtor inglês George Evelyn, mais conhecido como DJ EASE, que a tua viagem em busca de beats ora calmos, ora grooveados e sofisticados será recompensada. Que bom constatar que o Nightmares On Wax ainda tem gás pra acender e cozinhar bons climas e grooves sem apelar para os chavões que eles próprios involuntariamente ajudaram a reforçar. O estofo sonoro do recém lançado “ Tought So” possui uma batida ligeiramente hip-hop, com grooves graves e pesados. Contudo, a melancolia trip-hop e os climas sofisticados continuam presentes, como que se o DJ EASE quisesse sempre reafirmar que o seu Nightmares On Wax pertence – ainda que não seja um dos pioneiros – a uma rara estirpe de projetos fenomenais de down beats como Massive Attack, Portshead, Thievery Corporation e Moorcheeba.


Medeski, Martin & Wood – “Combustication remix EP”


Este trio arregaça com grooves animais e intricados

Um dos primeiros downloads que fiz em minha vida foi deste disco do trio Medeski, Martin & Wood. O meu interesse sobre eles veio após ler em algum lugar que existia uma banda que praticava exatamente o mesmo tipo de som que o Beastie Boys fez nas faixas instrumentais dos mega-clássicos “Check Your Head” (1993) e “Ill Communication” (1995). E que ” Combustication” era um EP de remixes que estreitavam a relação do som do trio com o hip-hop e os grooves eletrônicos. Tendo à frente um Napster instalado no PC de um amigo meu, me vi num momento de mudança de hábitos irresistível e irreversível gritando à minha frente: “eu não vou mais gastar os tubos para encomendar discos importados? Agora eu só dou um clique e o disco vem pra mim, fácil assim?!?”, perguntei-me naquele dia. Pois eu baixei o disco. Um novo vício instalou-se em mim sem data para acabar. E o mesmo vício eliminou outro sem dó nem piedade. Nunca mais comprei ou encomendei um disco novo desde então, à exceção de uma ou outra ida a sebos de CDs usados.

Tenho guardado um dos primeiros CDs-R que queimei de um download que fiz. O disquinho está todo podre, com as beiradas descascando e fungos abrindo buracos pelo meio. Com a velocidade de resposta de uma busca no Google, não tive nem tempo de sofrer pelo disco em decomposição: baixei-o novamente e pronto. O sentimento de nostalgia sobre “Combustication” provinha de um clique no mouse, de um CD-R de qualidade ruim. Meus discos originais, que muitas vezes foram adquiridos com suor e espera por encomendas que pareciam demorar uma eternidade, hoje repousam em caixas e encartes que não são manuseados há anos, tais quais peças de um museu abandonado. Não tenho nem tempo de sentir saudades de algumas épocas em que a música existia fisicamente. Carrego sons no meu celular e me mando pra rua. Às vezes me bate uma sensação esquisita, de que se eu tivesse trocado a mulher que sempre amei por outra alardeada por aí como mais perfeita: sem reclamações no ouvido, sem cobranças, sem oscilações de humor... e também sem emoções marcantes e duradouras.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Me indicaram!


Este cara morreu produzindo música boa até o fim

Me indicaram!

Pessoas e fatos passam pela sua vida a todo instante, e alguns poucos são dignos de nota no seu cérebro. Penso o mesmo sobre música. Indicações ocorrem aos montes, e muitas vezes um som que mudou a vida de um amigo próximo seu pode lhe despertar a mais profunda indiferença. Porém, é sempre bom dar ouvidos às indicações, mesmo que exista a suspeita de que o negócio não vá provocar impacto algum – o que não foi o caso aqui. Estes três sons a seguir mexeram comigo, cutucaram no meu cérebro, e estão devidamente guardados na minha lista.

O punk rock, quando do seu surgimento, era a coisa mais urgente e “tapa na cara” que existia. O que poderia acontecer quando os ícones desta facção sonora envelhecessem? Afinal de contas, eles – os punks – vieram também para varrer as gerações anteriores junto de seus vícios. Era o futuro - ou no future, como cuspia Johnny Rotten. Mas como esta geração se comportaria fazendo parte de um passado já distante? Muitos deles acomodaram-se em carreiras e barriguinhas salientes de formas tão idênticas quanto os próprios dinossauros que eles clamavam por extinção. Tornaram-se aquilo tudo que criticavam. Vejo o mesmo acontecendo com alguns ícones da música eletrônica que vieram nos anos 90 arrombando as portas e empurrando o que havia de estabelecido na época para o parque jurássico dos acomodados em geral. Porém, do meu parco conhecimento no terreno do punk rock, sempre que a palavra "The Clash" era citada, surgiam na minha mente músicos que desafiaram seu tempo e que sempre apontavam suas carreiras para a evolução. O que meu amigo Paulinho Ramone já me mostrou destes caras não era brincadeira: em meio ao minimalismo sonoro propagado pelos punks, o Clash estreitava as relações com a Jamaica, fuçava o rockabilly e, de vez em quando, concatenava com até com o jazz e o ska. Seria uma banda à frente do seu tempo ainda hoje!

Eis que, na quebradeira ocorrida sábado retrasado, quando da ocasião do aniversário do Mentor, rolou por intermédio de Caio o disco-solo do ex-Clash Joe Strummer e sua banda The Mescaleros. Em meio a bebidas destiladas em doses fartas, cerveja em copos de 500 ml e muita fumaça, o dub incrivelmente maravilhoso de “Get Down Moses” penetrou na minha mente sem pedir licença, bagunçou meus neurônios e me deixou hipnotizado naquele divertidíssimo caos do momento. Baladas ao violão e punks de veia country também me deixaram embasbacado com aquele disco. Naquele momento meu cérebro não tinha muitas condições de tecer considerações mais profundas, mas fiquei com aquela pulguinha atrás da orelha. Eis que, fuçando um cd de mp3 presenteado pelo Mr. Lips (made in Colatina/Hell’s Kitchen) em 2003, estava lá o tal álbum do Strummer. Definitivamente o falecido tiozinho do punk rock cometeu ali um disco para marcar época e deixar o seu legado para futuras gerações. Faixas como “Coma Girl”, “Arms Aloft” e “All In a Day” jorram adrenalina e suas melodias e soluções harmônicas (que porra de banda é o The Mescaleros?!?) estabelecem marcas definitivas no seu cérebro. A voz de punk envelhecido de Strummer parece reverenciar Johnny Cash nas belíssimas baladas “Long Shadow”, “Silver and Gold” e “Ramshackle Day Parade”. Rocks que parecem ter saído de botecos de beira de estradas poeirentas perfazem também um tanto de melancolia em “Midnight Jam” e “Burnin’ Street”. E ainda há uma linda versão de “Redemption Song”, do Mestre Bob Marley. Enfim, trata-se de um clássico contemporâneo. Joe Strummer produziu este último suspiro de consistência e profundidade antes de falecer.

Outro dia rolou uma discussão muito bacana com meu amigo Taylor, sobre o fato da geração atual de auto-proclamados indies não buscar referências musicais que tenham vindo antes dos anos 2000, de simplesmente ignorar a existência de, pelo menos, duas ou três gerações de bandas do dito rock alternativo, da frustração de tocar (na verdade, fui eu que fiz isso) um hit manjado de 1996 do Suede e o público simplesmente não saber (e nem querer saber) o que era aquilo, e que tudo isso acabou por fazê-lo perder o tesão de batalhar por pistas de dança menos óbvias e mais informativas. Na mesma discussão eu pude, de certa forma, comemorar o fato de que boa parte do público mais novo que freqüenta a minha festa gótica-industrial The Dark Street Project caça as novidades ao mesmo tempo em que se mantém informado sobre o que veio antes. Pelo menos a galera que curte EBM/industrial é assim, enquanto que os “góticos” em sua maioria só dão trela para coisas tipo gothic metal e adjacentes. Pois foi de uma galerinha bem nova (não deviam ter pouco mais do que dezoito anos) que conheci a pedrada sonora chamada Combichrist. Esta mesma turma veio olhar meus CDs e pirou com o fato de eu ter todos os discos do Nitzer Ebb originais, e acabaram por pedir para tocar o clássico “Join in the Chant”. No mesmo ato eles me indicaram a ouvir o tal Combichrist. Não conhecia e fui correr atrás. Trata-se de um projeto paralelo de Andy Laplegue, do cultuado grupo de future pop Icon of Coil, e foi criado para resgatar as bandas na linha powerfull-industrial-ebm de gente como 1.000 Homo DJs e o citado Nitzer Ebb, com batidas eletrônicas estilo bigorna, sintetizadores rascantes e muita distorção digital. O primeiro álbum, “Joy of Gunz” vai bem nesta linha distorcida até o talo. Porém, os caras poliram o som e, pelo menos nos EPs “Get Your Body Beat” e “Sex, Drogen & Industrial”, cometeram atos de EBM e industrialismos dignos de clássicos como “Headhunter” Front 242) e “Let Your Body Learn” (Nitzer Ebb). O Combichrist reverencia o passado de forma respeitosa e ainda atualiza o som com pegadas de techno e hard trance. Batidão pesado, travado e com palavras de ordem para gritar na pista de dança!

Quando fiz um post sobre o She Wants Revenge, o colega virtual Doggma comentou sobre o som, afirmando que lembrava um pouco o Bella Morte. Fiquei instigado. Sabe aquele som que você acha que conhece, mas nunca deu a devida atenção? Pois é, eu só tinha uma música desta banda e fui atrás para ver conhece-la melhor. O link com o hypado SWR é real, pois há uma semelhança entre a bateria eletrônica minimalista e os sobretons góticos de ambos. Mas o Bella Morte é mais atual, não se prende rigorosamente a um passado específico como o SWR faz com Joy Division (principalmente) e Depeche Mode dos primórdios. As guitarras são mais sujas, as melodias vocais são mais rasgadas e há uma conjugação pertinente com sons góticos atuais. “The Quiet” é o meu álbum preferido do Bella Morte, principalmente pelas faixas “Logic”, “Whispers” e “Always” (mais eletrônicas), “Living Dead”, “Echoes” e “Chistina” (mais heavy metal, guitarras apitando, refrãos cantaroláveis), e “Ember” e “Wires” (boas baladas neo-góticas).

*A quem interessar, existe um novo projeto semanal de música eletrônica aqui em Vitória: Projeto Makina

Estamos remando contra todas as marés possíveis, mas o negócio está engrenando!

Valeu!

quarta-feira, setembro 13, 2006

Sem contra-indicações... e sem qualquer indicação


As referências eram equivocadas. Eles eram estranhos no ninho podreirão da Earache

Tudo é mais fácil quando você lê algo numa revista ou jornal com aquele selo discutível de qualidade, normalmente adotado por críticos musicais que soltam pérolas como: “banda essencial”, “discoteca básica”, “compre, roube, mas não deixe de ter este disco”. Você vai lá, confiando nas palavras de alguém que, supostamente, sabe bem o que está falando e o óbvio acontece pois, afinal de contas, quando um senso comum compra a idéia de que determinado disco/banda é de qualidade, foi realizado todo um processo de análise coletiva para se chegar a tal conclusão. Bom, eu sempre procuro minhas próprias fontes – ou seja, meu gosto pessoal! - para poder comprar a idéia de que tal disco ou banda sejam mesmo imperdíveis. Normalmente este tipo de categorização envolve álbuns que possuem, no mínimo, 20 anos de idade – tempo seguro para que sua importância seja esmiuçada até que se chegue num consenso – apostas assim em fatos recentes são deveras arriscadas, certo?

Mas será que você só compra um disco de acordo com determinados certificados de qualidade, ou acaba apostando num som seguindo seus próprios instintos, sabendo pouco ou nada sobre o referido artista, correndo o risco de querer jogar a bolachinha na privada posteriormente? Eu acredito que certos riscos na vida são de grande valor pessoal, mesmo que você dê com a cara no muro. No caso de um cd, o risco é financeiro e de alguns neurônios gastos com mau humor momentâneo. Porém, quando você acerta o alvo sem qualquer tipo de orientação, o sabor da vitória infla teu ego maravilhosamente bem. Existem alguns disquinhos aí que eu simplesmente atirei no escuro, alguns de bandas das quais eu nunca havia lido ou ouvido nada a respeito, tendo comprado o disco pela capinha, pelas indicações equivocadas ou simplesmente por engano.

*Este texto, obviamente, não se enquadra na Era da Internet. Quase ninguém mais compra discos novos (sebos são outra história), e uma curiosidade momentânea é saciada com um clique no mouse. Ou seja, esta prática descrita neste post pode se considerar extinta.

Sempre ia à loja de discos Tarkus com uma listinha básica de cinco a dez discos para encomendar na gringa. O dólar baixo (R$ 1,20!!) me fazia torrar o salário com sons e mais sons que nunca teriam chance de serem lançados aqui no Brasil. Com o tempo fui sabendo que certos selos eram casa garantida de bandas de estilos musicais que curtia ( Wax Trax!, TVT, Metropolis, Alternative Tentacles, Antler-Subway, Play It Again Sam à frente), e dali partia para novas investidas em seus catálogos. Porém, uma resenha pequenina na Rock Brigade me deixou intrigado: “Uma sensacional mistura de Prong, Living Colour e Biohazard" - sendo que a gravadora em questão era a famigerada Earache, pródiga no lançamento de podreiras death metal e adjacentes, o que me fez estranhar totalmente, apesar das boas indicações. Deixei lá pro fim da lista, e numa determinada encomenda lembrei-me do tal disco e fiz o pedido, mais para tapar buraco, junto de outras três bandas das quais já conhecia e completava suas coleções (Lard, Butthole Surfers e Skinny Puppy). O tal grupo se chamava Dub War – nome bastante sugestivo! Quando finalmente dei a devida atenção à bolachinha, meu cérebro travou: CARALHO!!! O que eu ouvia ali era como se o Bad Brains fosse transposto aos anos 90 (o ano era 1997), carregando no raggamuffin e em vocalizações de deixar Mestre Bob Marley orgulhoso, tudo isso sobre uma base instrumental moderníssima que ía do reggae ao metal sem frescuras, com o dub invadindo todos os poros do cd de forma achapante. Simplesmente todas as músicas de "Pain" – o referido disco – grudaram na cabeça instantaneamente, me fazendo imaginar o som desta banda maravilhosa invadindo o dial da extinta Maldita FM capixaba e virando hit local (que viagem a minha...). O tal disco virou mania entre diversos grupos diferentes de amigos meus, incluindo aí uma zaga de Guarapari e de BH. Tratei logo de encomendar as maravilhas de "Enemy Maker" (a faixa título é maravilhosa!) e "Wrong Side of Beautiful", mas os mesmos haviam saído de catálogo. Veio a internet e acabei por completar sua discografia. E pensar que a resenha da Brigade não deu pista alguma (talvez o Living Colour fosse uma referência acertada), o histórico de sua gravadora depunha contra, e o acaso – o mais puro acaso! – me fez adqüirir o som de uma das minhas bandas preferidas de todos os tempos.

*Max Cavallera também pirou nesta banda, e por isso convidou o vocalista do Dub War, Benji, para participar de duas músicas do disco de estréia do Soulfly – que, por sinal, são as melhores do álbum...
**O Dub War acabou e voltou reformulado (trocou o baixista) sob o nome de Skindred. Baixaram as afinações e entraram de cabeça no nu metal. Mantiveram os dubs, raggas, e refrãos grudentos, enfiaram um peso absurdo e ainda mandam no pedaço – ainda que continuem injustamente semi-desconhecidos. Possuem apenas um disco homônimo, e aguardo como a vinda de Jah por um novo lançamento.

Numa enésima visita à mesma Tarkus, eu sempre perguntava ao Beto (dono da loja) se tinha alguma coisa nova ali que fosse do meu gosto. ”Ah!, Tem um disco lá em cima que veio por engano e acho que de repente você poderia gostar” – e veio ele com uma banda de nome meio impactante e com uma credencial de peso: a produção em conjunto de Trent Reznor (Nine Inch Nails) e David Oglive (Skinny Puppy). O visual sugeria algo entre o glam rock e o gótico, e levei pra casa sem nem ouvir direito – pela primeira impressão, parecia bom. Pois bem, “Portrait of an American Family”, primeiro disco do, até então, semi-desconhecido Marilyn Manson até que me surpreendeu, com sua consistente mescla de glam/hard rock com industrial e reminiscências góticas. Passados alguns meses, o cara virou astro da MTV com o disco “Antichrist Superstar” – discaço!, mas eu até hoje curto mais o primeirão dele. Coisa de ego mesmo, sabe como é, descobri primeiro, hehehehe... e quase ninguém conhece este disco até hoje! Ouçam, pois vale à pena.

*Acompanhei o Marylin Manson até o “Mechanical Animals”, e depois perdi o interesse por achar que sua fórmula havia se esgotado, além de ter se transformado em terror norte-americano pós-adolescente ao estilo Wes Craven. Pois é, outro dia me mostraram umas três músicas de seu último disco e caí pra trás. Este lambisgóia horroroso – digam o que for dele – sabe compor boas músicas!

Pois é, este post poderia se chamar “A Tarkus e a Minha Vida”, pois lá vou eu citar esta loja novamente. No caso, foi quando saí de lá de um sábado à tarde com o disco "Aenima", recém-lançado, do Tool. Já conhecia o disco anterior deles, “Undertow”, tinha uma fita gravada e tal, sendo que a mesma ficara encostada em algum canto – resumindo: não dei a devida atenção. Pois bem, fui à loja com o cérebro lotado de THC (chegar lá assim só me deu prejuízos...) e quando vi a capinha holográfica de “Aenima” na loja, falei: “isso aqui parece ser bom!”, e na hora nem tive a capacidade mental de fazer a ligação de que se tratava da mesma banda da fita K7 esquecida. Cheguei em casa, ainda chapadão, e botei pra rodar o negócio. Os primeiros abalos sismicos de “Stinkfist” foram me afundando na cama, e o dia foi anoitecendo, as músicas ficando mais longas e intrincadas, a onda não passava e... fiquei viciado em Tool para sempre! Só que esta banda não colou com ninguém que mostrei (isso foi há quase dez anos atrás), e acabei por me recolher naquele maravilhoso universo sozinho. Depois fui encontrando gente que era tão maluca nesta banda quanto eu, e até amizades surgiram disso!

*Vale lembrar que no Brasil as poucas resenhas que saíram do Tool até o “Aenima” detonaram a banda. As indicações eram as piores possíveis.
**Não venho levantar bandeira alguma aqui sobre este assunto, mas enfatizo o uso do THC apenas para uma coisa: ouvir música! Sua percepção aumenta e suas emoções afloram – e isso eu endosso. Sobre os demais usos desta substância, acho tudo um grande caô, queima neurônio mesmo, te deixa lento e bobão... use e assuma suas conseqüências.

Na mesma Tarkus (novidade...), apontei um disco (“Supernaut”, do 1.000 Homo DJs) no catálogo da loja, com as devidas referências garantidas de que era bom (uma resenha em algum lugar que agora não me recordo), e na hora de fazer o pedido acabei indicando outro por engano. Veio a encomenda, tinha que arcar com seus custos e resolvi levar a bolachinha errada, da banda 16 Volt, assim mesmo, sendo que não tinha referência alguma sobre eles. Até que me surpreendi, pois o estilo do álbum "Wisdom" era o mesmo industrial que estava buscando na encomenda, e o som revelara ali uma saudável mistura de Front 242 com a sonoridade do álbum "The Land of Rape and Honey", do Ministry. O diferencial residia nas guitarras sujas (estilo grunge) e vocais nem sempre distorcidos, muitas vezes em empostação suave e limpa. Me empolguei e encomendei "Let Down Crush" e ali sim vi algo de altíssima qualidade: uma interessante mistura de NIN com Die Warzau (ver post abaixo), bons refrãos e produção de uma perfeição ímpar. Alguns amigos meus curtiram o som, mas foi com "Super Cool Nothing" mesmo que a maioria chapou, pois os caras injetaram guitarras envenenadas de afinação baixíssima, e entremeadas por vocalizes doces e singelas, quase que canções de ninar – imagine o King Kong, com toda a sua truculência, cantando com voz suave para sua amada, e você terá uma boa visualização do som do 16 Volt neste disco.

Enfim um som deste post que não preciso citar a Tarkus! Na verdade, se trata de um disco de vinil que comprei na Laser Discos (e lá só vendia CD...) há 16 anos. Fui na loja do Boulevard da Praia atrás de um bolachão do Ned’s Atomic Dustbin, ("God Fodder"), do qual havia tido ótimas referências. Achei o dito cujo, botei pra escutar e não curti tanto assim não. De qualquer forma, pedi para o vendedor embalar que eu levaria assim mesmo. Eis que o cara deve ter visto duas capas com símbolos atômicos lado a lado, pegou o disco errado, e eu levei para casa sem saber da cagada cometida. Há males que vão para o bem, pois o primeiro acesso de raiva deu lugar à curiosidade de ouvir o som daquela banda de nome tão irônico quanto esquisito: Pop Will Eat Itself – o título do disco também ia nesta onda, “This Is The Day, This Is The Hour, This Is… This!". Eu estava mais antenado do que nunca com acid house, dance music e novidades dançantes do tipo, e caí pra trás ao ouvir o som de uma banda que misturava tudo – eu disse tudo! - o que rolava de moderno e atual na época (1990). O PWEI, como é conhecido, é um bando de malucos britânicos entupidos de ecstasy e cultura pop, que pareciam curtir tanto uma fritação numa rave, quanto um headbanging num show de heavy metal. Mas eu não sabia nada disso em 1990, e fui me supreendendo com cada riff de guitarra (sampleados ou tocados à vera), samples/referências de todo o tipo (Alan Moore, Twilight Zone, AC/DC, Marargaret Tatcher...), scratches, batuques (rola até um sambão!) e refrãos tão grudentos quanto geniais. Algum tempo depois fui ler uma resenha altamente elogiosa (by André Forastieri) na Revista Bizz sobre o disco posterior, "Cure For Sanity", e procurei o bicho sem conseguir achá-lo em loja alguma daqui do ES. Pode-se dizer que, inicialmente, paguei gato por lebre na loja de discos. Mas, ao chegar em casa, fiquei feliz por ter comprado o ítem errado, pois o tal do Ned’s Atomic Dustbin não era nada daquilo que haviam cantado no meu ouvido e considero a banda frouxa até hoje!

*Este disco do PWEI eu simplesmente não consegui fazer ninguém gostar dele na época. Também, pudera: era dance music de um lado e roqueiros de outro, aquela divisão besta e mais radical do que nunca. Bandas de indie dance como Happy Mondays, Soup Dragons e The Charlatans – muito em voga naqueles anos – pareciam fazer parte da Congregação das Senhoras de Nazaré comparadas à loucura do PWEI. Por isso mesmo que permaneceram sempre no semi-anonimato e cultuados por poucos e bons famosos (Trent Reznor é um fã declarado).
**Em que se pese o único hit da história do PWEI, “Def Con One” (do álbum citado no post), ter tocado horrores nas rádios brasileiras em sua versão remix e tendo saído em coletânea de dance barata da Som Livre faça com que, de repente, alguém aí se lembre deles...

quinta-feira, abril 27, 2006

Balanço bom, balanço torto, balanço esquisito…



Não adianta! Quando o negócio é botar o povo pra suar na pista, nada melhor do que o balanço black vindo direto da origem. Produtores de música eletrônica suam seus dedinhos nos softwares de produção, mas só conseguem um resultado sacolejantemente bom quando bebem (sampleiam!) diretamente da fonte negra. E tome James Brown, George Clinto/Funkadelic, Earth, Wind & Fire, Cameo, Chic, Isaac Hayes… e também Tim Maia e Jorge Ben! O grande lance de ouvir um som contemporâneo é sacar de onde veio aquele sampler, aquela batida, aquele vocal. E saber também que tem gente maluca o suficiente para juntar este monte de referência e dar cria a uns troços estranhos e bem legais!

Tim Maia Disco Club! Presentão de aniversário de meu amigo Caio, que minha mãe, meu tio, o cachorro da vizinha e este que vos escreve não páram de ouvir, pirar e se contagiar. Eu conheci o som do tio do Ed Motta nos anos 80, aqueles baladões estilo final-de-noite-num-piano-bar-decadente, e só fui descobrir os potes de ouro do cara na década passada. E pensar que tinha vinil original da fase anos 70 dele dando mole na minha antiga casa... Enfim, vamos ao presente-passado-futuro: “A fim de voltar”, “Ascenda o farol” e “Sossego” são de rachar qualquer assoalho por aí, de igual para igual com papas da música black sacolejante norte-americana – as duas primeiras são disco music incandescentes, e a terceira, bem, é “Sossego”, porra! A híper dançante e instrumental “Vitória Régia, Estou contigo e não abro” faz a ponte para os baladões soul de “All I Want” (se mostrar este som p/ jovem pesquisador de som black por aí, o cara vai achar que se trata de algum clássico da Motown), “Murmúrio”, “Pais e Filhos” e “Se me lembro faz doer”. “Juras” recoloca o trem nos trilhos da disco - infernal!, e “Jhony” quebra tudo no final, com muito funk percussivo e fantásticos arranjos de metais e orquestra – presentes (e de autoria de Tim) por toda a parte do disco, diga-se. Quem sou eu de indicar algo tão bom e clássico assim! Neste caso aqui, é só para curtição das melhores!
*Este disco ganhou uma remasterização excelente, pois o som está muito nítido e forte, sem aquele ranço “magrinho” típico das produções brasileiras da época.

Jazz pra mim soa chato demais, na maiora das vezes que me dispus a ouvir. Aqueles troços tipo fusion e tal não entram na minha mente. Mas os balanços mortais da Blue Note são outros quinhentos! Órgão Hammond, baixo acústico, bateria suingada... tomei conhecimento daquela cepa através de discos de jazz-rap de gente como US3 e Digable Planets. Qual não foi a minha surpresa de saber da existência de um trio que reverencia aquele tipo de groove nos dias atuais? Medeski, Martin & Wood praticam uma espécie de acid-jazz-funk muitíssimo bem tocado (como é de praxe em formações do tipo), ora pendendo para o groove puro, ora caindo para a punhetagem instrumental. Os caras lançam disco quase que anualmente, e a maioria é muito boa, sendo que eu prefiro o lado mais balançado de, por exemplo, “Shack Man”. Encontrei esta belezura perdida num sebo no Centro de Vitória há alguns anos atrás, em versão nacional! Procure que você acha!
*Vez ou outra o M,M&W dá as caras em terras tupiniquins. Mês passado eles tocaram em Sampa com apresentações esgotadas semanas antes dos shows. Na próxima eu vou!

Pegue a Blue Note e o M, M&W, jogue tudo num tanque lotado de haxixe, fluído de bateria e cerveja, misture e bote pra dentro sem respirar! Vai dar uma congestão estomacal, mas também vai dar uma onda louca! Só esqueceram de chamar (samplear!) o Síndico Tim Maia! “At The Center”, disco mais recente da dupla de loucos de pedra vanguardistas do Meat Beat Manifesto (Jack Dangers e Jonny Stephens) é jazz-funk-breakbeat-dub-ambient alucinadamente dançante e, ãh, cabeçudo. Da mistura de hip-hop com industrial do começo (chegaram a gravar pela Wax Trax, conceituada gravadora de industrial de Chicago), passando pelo big beat antenado com o melhor produzido no final dos anos 90 (“Prime Audio Soup”, do álbum “Actual Sound & Voices”, fez parte da trilha de Matrix), ao jazz-electro-funk de “RUOK” (2003), o Meat Beat Manifesto sempre se mostrou inquieto a cada disco. Este álbum mais recente é capaz de provocar alucinações tanto balançadas quanto espasmos em ritmo de bad trip. É uma droga esquisita, de efeito dançante e conseqüências por vezes indigestas. Estou me arriscando a experimentá-la e até agora gostei!

quarta-feira, março 29, 2006

Uma tonelada de maracatu atômico


Inexplicavelmente o disco novo da banda não está à venda no Estado. No show, o mesmo estava disponível por R$ 15,00. Material de primeira a preço barato! Quem não comprou lá, só na internet

Cara, esperei dez anos por este show! Chegaram a anunciar na programação do verão da Prefeitura de Vitória em plena Praia de Camburi, com o Chico Science ainda vivo. Pois é, rolou uma patuscada (in)digna de nossa panela de barro provinciana e acabou que não teve é nada. Desde então, só foram boatos e mais shows adiados (um deles foi aquele em que prenderam o cara da organização do show do Planet Hemp, e que desencadeou uma inquisição nacional em cima da banda de D2). Pois é, chega de ressentimentos, pois moramos numa cidade maravilhosa, com tudo perto, acessível e barato. R$ 20 paus para ver Nação Zumbi e Cachorro Grande (dia 24/03/2006) numa casa noturna espaçosa e arejada, na beira do mar e com um sistema de som de primeira?!? Quem reclamou de preço, do local ou da cerveja Schincariol (se bem que dessa a reclamção procede, mas nem tudo pode ser perfeito...), é porque não merecia estar lá.

A Nação Zumbi pós-Chico Science é outra banda. Mais psicodélica, mais introspectiva, menos acessível. Mas ainda genial, inclusive ao vivo. A produção da Birne (que trouxe ao ES gente do porte de Scorpions, Millencolin e Motorhead) provou ser a melhor do Estado para eventos deste tipo, e garantiu uma sonoridade impecável, pesada e nítida para pincelar o psicodelismo “preto no granco” atual da banda pernambucana. Os (sub) graves dos tambores, bateria e do contra-baixo batiam forte no peito e balançavam os órgãos internos. O vocal de Jorge Du Peixe parecia estar imerso em delays lisérgicos, ressonando por todos os canais auditivos dos presentes e mandando sua mensagem de forma clara, grave e flutuante. E a guitarra de Lúcio Maia sobressaía-se na melodia, destilando suíngue a todo momento, pesando quando preciso, alucinando quando lhe dava na cabeça. A platéia, pelo menos a que se postava mais próxima do palco, parecia estar em transe hipnótico. Bêbado igual uma porca, este que vos escreve pulou até não aguentar mais. Mas tive a capcidade de tecer outras considerações menos passionais.

Nitidamente o vocalista Jorge Du Peixe revela uma postura tímida, quase que inexprtessiva no palco. Também, pudera: imagine o tamanho do rojão que deve ter sido substituir a presença (de palco e de cérebro) gigantesca de Chico Science. Aliás, a própria Nação Zumbi teve peito e talento para ressurgir de um baque daqueles para se recriar, e assim tomar forma em sua sonoridade, transformando-a num baluarte de originalidade e personalidade que independe de paradas de sucesso da MTV e congêneres. E o vocal de Jorge Du Peixe tem, sim, grande peso nesta “nova banda” (que já é veterana,, diga-se), casando perfeitamente com sua proposta. Ainda tecendo considerações sobre “performance de palco”, Lúcio Maia provou ser o elo de ligação direta com o público. Agitando a massa e tocando como um demônio, aquela figura quietona das entrevistas solta os bichos no palco. Faz com que a Nação não aposte no apelo fácil de tocar seus hits de “Da Lama ao Caos” e “Afrociberdelia”, e sim acrescentando-os à sua usina sonora junto de faixas que, ora parecem trilha de thriller movie do sertão, ora chapam os ouvintes num dub dos infernos, além de destilar groove e peso thrash metal (o final do show, com “Da Lama ao Caos”, por exemplo) tão característicos de sua música. Ver a Nação Zumbi ao vivo requer entrega total. Entrando em sua viagem, sua satisfação é garantida e inesquecível.

+ Considerações:

• Tamanho apartheid cultural que nós, moradores do Espírito Santo, vivemos, somente valoriza ainda mais momentos tão bons como estes que descrevi acima. Não vou cair no velho papo de detonar o capixabismo e blá blá blá. Vou caçando alternativas, abosrvendo com prazer o que tem de bom por aqui, e apontando defeitos mas procurando por soluções. Dona Aparecida e sua Birne estão de parabéns, e que venham mais eventos do tipo sempre!
• Não resenhei o show do Cachorro Grande pelo simples fato de que, após tanto pular no show da Nação, vomitei tudo o que havia bebido, caí doente de gripe logo depois. Mas quem viu garante que foi muito bom. Também não tirei fotos porque simplesmente não quis levar minha câmera. Tava querendo simplesmente curtir e nada mais!
• Aliás, estou postando somente agora justamente por ter estado de cama até ontem.

segunda-feira, julho 11, 2005

Alguns Sons...

Ouvir música o tempo inteiro: este é um vício pessoal incurável e que não tenho o menor problema de lidar com ele. Qualquer coisa que eu faço é desculpa para botar um disco para rodar. Às vezes eu estou bêbado na balada e vou para casa de repente para aproveitar a alteração de meus neurônios curtindo um som no fone de ouvido. Mas eu não gosto de absorver clichês do tipo “voz-e-violão para namorar” ou “heavy metal quando estou com raiva”, ou então o clássico “sons tristes para dias tristes e chuvosos”. Porra, eu vou ouvir som sombrio e deprê quando estou feliz! Música para mim desperta diversos sentimentos sem necessariamente definir um padrão. Tem coisa que eu ouço e nem sei explicar o porquê. Acho que já estou teorizando demais. Ontem cheguei meio (totalmente...) chapado em casa, fui ouvi alguns sons, digitei algumas coisas que acabaram dando pau no computador me fazendo perder tudo. Cada som estranho...

Dub War - Um som que conheci meio que por acaso (uma pequena e superficial resenha na Rock Brigade) e que se tornou um de meus favoritos de sempre e também o de alguns poucos interessados – seria uma cult band? Dub/ragga jamaicanos com o que havia de mais moderno no rock pesado de sua época (dez anos atrás). O vocalista Benji é um dos melhores de sua geração, uma improvável mistura (acreditem!) de Bob Marley, Michael Jackson e Corey Glover (Living Colour) a serviço de belas melodias e grunhidos raivosos. “Pain” e “Wrong Side of Beautiful” são discografias obrigatórias para quem quer ouvir boa música em forma de algo original. E o disco de remixes dos caras, “Step Ta Dis”, é o que vem me alucinando atualmente. Versões jungle/drum’n’bass/hip-hop/breakbeat (Aphrodite, Mo’ Wax, DJ Rap, entre outros) ferradonas e com particularmente uma obra-prima da reconstrução de uma música: “Silencer”, que se transformou num dub/funk com baixão na frente, órgãos hammond no fundo, uma interpretação vocal de arrepiar, tudo isso realçando a beleza de uma canção numa versão que supera a original!
*A propósito, o Dub War acabou e voltou na forma do Skindred: nu metal à Slipknot liqüidificado numa nuvem de fumaça jamaicana.

Sonic Cube - Música eletrônica para pistas de dança e sem vocais. Tem gente que só consegue gostar estando drogado. Tem gente que gostaria de ver este tipo de música morto e enterrado. Eu gosto tanto quanto qualquer “clássico do rock” que tem por aí. Fazer o quê? Este disquinho alemão é um som fino, bem produzido, trance/house progressivo dos bons, sem piques bombásticos nem melodias óbvias. Eu me emociono ouvindo este som no meu dia-a-dia. E não sou um robô!

Killing Joke - E pensar que eu tenho o “Night Time” há dez anos e só agora fui me dar conta de que se trata de um clássico do disco punk antes mesmo deste rótulo surgir. Fãs de última hora de Franz Ferdinand (banda excelente, diga-se) poderiam escutá-lo junto com outros álbuns de Talking Heads, Psychedelic Fürs e Gang of Four para aprenderem mais sobre suas origens. É aquele sabor oitentista cujas melodias singulares grudam na mente de imediato porém desprovidas daqueles arranjos plastificados típicos do pop da época. A propósito, a faixa que encerra o disco, “Eighties”, é a fonte de um dos maiores plágios da história da música. Kurt Cobain inclusive pagou aos caras do KJ para não ter maiores problemas...

Red Snapper, Thievery Corporation e Nightmares on Wax - Sabe aquelas vertentes de música eletrônica típicas de publicitário metido a bacana que o mané do Luciano Huck divulga no seu programa? Pois é, aqueles rótulos chiques tipo lounge/chill out/nu jazz podem lhe provocar cefaléia se combinados com a inevitável tríade sempre sugerida de canapés/champagne/vernissage que embalam o imaginário deste tipo de gente. Pois fique sabendo que, apesar disso tudo, existe uma turma que faz música que presta neste terreno. Climas de acid jazz, vocais femininos doces e abafados, ruídos de vinil (o velho é moderno, saca?), blips e póings aqui e ali, scratches e um bom gosto absurdo estão contidos no pacote musical que Red Snapper, Thievery Corporation e Nightmares on Wax sabem produzir de forma magistral. Vá para Ibiza com estes discos na mala e mande o Luciano Huck se foder!

Yazoo, Shrieckback, Ultravox, Yello, Human League... – Quer electro? Vá direto à fonte! Este gênero musical surgiu nos anos setenta, tomou sua forma definitiva (o technopop) nos anos oitenta, caiu no ridículo nos anos noventa, e ressurgiu ultracaricato no começo desta década sob o rótulo de electroclash. À primeira ouvida, taxei esta onda atual como uma porcaria apelativa e mal produzida propositalmente. Hoje o electro atingiu maturidade e rosto próprios, pois os climas retrô e modernos se misturam saudavelmente e acabam produzindo resultados arrasadores tanto nas pistas de dança quanto no cd-player de seu quarto. Os bambas atuais do estilo só saem perdendo quando tentam se equiparar à força melódica de seus pais (tios? avós?) dos anos oitenta. Coloque “Emerge” (do Fischerspooner) ao lado de “Situation” (Yazoo) ou “Don’t You Want Me” (Human League) e comprove. É covardia.
*Não preciso nem citar gente como New Order, Depeche Mode e Kraftwerk, pois eles estão acima de qualquer rótulo.


Eu ainda estou ouvindo uns troços esquisitos que são novos para mim ou que ainda estou tentando entender há anos. Umas paradas tipo Laibach, Test Dept., Einsturzende Neubaten, Clock DVA, Cabaret Voltaire, DAF... Quem tiver paciência de monge tibetano lerá algo sobre estas coisas por aqui.

*Não estou com saco para colocar links em todos os sons e referências que citei neste post. Vá direto ao All Music e ao CD Now. Para quem (ainda) não conhece, o primeiro é uma fonte riquíssima e completa (a maior na web, que eu saiba) sobre praticamente todos os gêneros musicais existentes e contém discografias, estilos, resenhas e links. O CD Now eu utilizo para ouvir trechos das músicas dos discos consultados no All Music – eu acho quase tudo lá.