sexta-feira, junho 02, 2006

Pra pista!

Na falta de lugar, de ocasião pra tocar, às voltas com trairagens e marasmos afins, só posso mesmo – por enquanto – escrever sobre estas maravilhas que foram feitas para movimentar corpos em transe hipnótico sob luzes coloridas e sub-graves gordos.


Existem aqueles que produzem verdadeiras bombas atômicas para as pistas de dança, sempre sintonizados com o que há de mais atual e apontando o dedo para o futuro. Certo! Só que o Element citado aqui manda pras cucuias qualquer tipo de convenção para manter-se na vanguarda ao mesmo tempo em que praticam um tipo de som tão próprio e personalizado que só nos resta louvar esta nova maravilha que atende pelo nome de “Alteration”. Proveniente da Alemanha, eles chegam ao seu terceiro disco quase três anos após o fantástico “Blue Moon”, e apenas reforçam o estado de arte em que se encontra o seu trance de tons únicos. Os BPMs variam de 130 a 140, mas pouco importa a velocidade em si de cada faixa, e sim para onde esta pode levar o corpo e a mente. Aqui as melodias não são meras rajadas de synth prontas para alucinar mentes lesionadas – as viagens sempre vão para algum lugar, modificando-se ao longo dos minutos, construindo paisagens diferentes a todo momento, provocando êxtase mental e físico, pois tudo é muito dançante e nem um pouco óbvio. Vez ou outra aparece um vocal e/ou uma guitarra que remetem (pasme!) a um Pink Floyd remixado. Vejam bem: não há as guitarras e vocais heavy metal que tanto reforçam os clichês do psy trance, mas sim melodias de verdade – vocais graves e dedilhados de pura finesse. As batidas são minimalistas mas certeiras, sem maiores arroubos percussivo-nervosos. E o rótulo progressive trance até pode abraçar em parte o som do Element. Mas “Alteration” carrega em seu DNA a sabedoria de quem vivencia os ares do país de onde surgiu o trance (o psy só apareceu dez anos depois!) em meio à euforia da queda do Muro de Berlim. É Música Eletrônica com autoridade!


Bomba Atômica mesmo atende pelo nome de “Zero Six After”, mais recente lançamento do projeto sueco Ticon. O negócio aqui é um meio caminho entre o progressive trance e o psy trance, passando por tendências atuais infiltradas em meio a tais petardos dançantes. “Aero” (2003) já apontava, em duas faixas, os rumos de uma excelente fusão com o electro, e contando até mesmo com um legítimo breakbeat em outra faixa. Pois bem, no disco lançado no final do ano passado, o Ticon abraçou descaradamente o electro, criando faixas de altíssimo poder de fogo tanto em pistas de psy/progressive trance, quanto de electro. Há ainda uns dois psy trances um tanto quanto dispensáveis, ainda mais se compararmos com o restante do disco, com excelentes soluções melódicas e riffs de synth que nada têm a ver com o universo psicodélico em si, chegando perto de um rock eletrônico! Satisfação garantida para mentes abertas.


A dance music é um balaio de gatos tão abrangente que fica difícil de categorizar um disco inteiro em um termo específico como techno, trance, house, etc., pois cada um destes rótulos possui tantas sub-divisões (ex: acid house, minimal techno, progressive trance...) que certos álbuns receberam a categoria de electronica - simples assim! Esta categoria, aparentemente simplória, na verdade surgiu para definir discos lançados por produtores que saíram das pistas underground para invadir o mainstream com suas idéias originais. Muita coisa boa vem sendo produzida desde meados da década passada, e gente como Leftfield, Orbital, Future Sound of London, Daft Punk ou mesmo Prodigy e Chemical Brothers desafiam categorizações homogêneas – são os famosos discos de dance que dão pra ouvir em casa, e não somente sob efeito de estimulantes cerebrais diversos. O alemão Timo Maassurgiu da cena original de trance de seu país natal, e aos poucos foi garantindo status de pop star até ao ponto de poder chamar quem quisesse para participar de seus álbuns, fossem eles artistas de rock, pop, soul, rap, etc. A série de discos de electronica de Maas iniciou-se com “Music For The Maases” (2002), chegou à perfeição com “Loud” (2003), e agora atinge a maturidade com “Pictures” (2006). O trance tradicional ainda está lá, como na épica “4 UR Ears”, com participação da cantora Kelis. Porém, é na diversidade das demais faixas que a veia criativa do DJ/produtor alemão se sobressai, assumindo formatos diversos como breakbeat, techno, lounge, e demais variações, que contam com outros ilustres convidados como Brian Molko (do Placebo) e Neneh Cherry. Se dá para ouvir em casa? Não só em casa, mas no trabalho, no carro... e na pista de dança também!

sexta-feira, maio 19, 2006

Easy Fuckin’ Rider!



Era o clichê dos clichês! Para ir a Matilde (espécie de "São Tomé das Letras capixaba", á época) pela primeira vez, tinha que passar pelo ritual de iniciação para ser aceito pela galera quando chegasse lá. E tome Led Zeppelin, Raul Seixas, Janis Joplin (não virei fã de nenhum deles, por sinal), e exibições de "Hair" (deste eu consegui fugir na época!), "Woodstock", "The Doors" e "Easy Rider". Não! Não vou forjar aqui neste texto uma história envolvendo a minha pessoa como que se eu fosse mais velho do que sou, que tivesse vivido os anos 70 e curtido um barato legal. Este episódio se passou em 1995! Eu tinha apenas 19 anos, e vivia aquela fase típica de pós-adolescente, quando você tem idade pra dirigir, pra aprontar todas e ainda assim de viver na aba dos pais. É a época de fazer muita merda, de bancar o rebelde e também de correr para baixo da cama da mamãe quando o bicho pegava de verdade. Enfim, lá estava eu, aquele cara que gostava/gosta mesmo era de technopop, de Cure, de Front 242, de sons modernos, que odiava o chiado do vinil, que não suportava hippies e adjascentes... e que também queria se auto-afirmar a qualquer custo, mesmo que fosse preciso vestir uma máscara que não se encaixava na minha face.

Fomos eu, o Qualhada, o Lemmy, o Ganso e o Macaco assistirmos "Easy Rider - Sem Destino" na casa deste último. O ritual estava todo preparado: baseado apertado, vinho vagabundo em mãos, e toda aquela euforia de estarmos prestes a sermos apresentados a um dos ícones da contra-cultura - e também de uma época de acabara bem antes de nascermos, por sinal. Mente entorpecida, apertamos o play para darmos início a algo que, ao final, fugiria completamente de nossas expectativas iniciais. O começo da película já nos deu um impacto meio pesado. Afinal, Dennis Hopper e Peter Fonda de cara já mandaram pra dentro do nariz aquele pó branco vindo da Colômbia, negociado com umas figuras chicanas pra lá de esquema! Ué, a filosofia da parada não era a tal da lisergia, como imaginávamos antes? Cocaína não se encaixava nas nossas pobres e ingênuas mentes metidas a psicodélicas. Enfim, logo depois veio a clássica - e a mais clichê - cena do filme, com os caras pegando a estrada ao som de "Born To Be Wild". Agora sim! E o filme foi se desenvolvendo em suas partes. Do que nós esperávamos, haviam: maconheragem a rodo, assim como doses maciças de LSD e alguma putaria; trilha sonora fantástica (ainda que só rolassem, na maioria, faixas menos óbvias de artistas famosos); comunidades hippies; paisagens magníficas desbravadas pelo ronco das Harley Davidsons; um Jack Nicholson impagável; confrontos diversos com sociedades conservadoras - yeah! Teve tudo isso sim! Mas o filme nos jogou na cara também uma série de informações bem pesadas, enterrando vários chavões que achávamos que poderíamos viver iguais naqueles dias também. Ao final, todos saíram calados, ninguém se arriscou a dizer um pio. Estarrecidos como ficamos, deixamos para trás qualquer tipo de conclusão sobre o filme. Era mais cômodo picar a mula para Matilde e esquecer de "Easy Rider".

Todo aquele romantismo acerca de comunidades alternativas, de uso de drogas lisérgicas, de afrontas às sociedades conservadoras foi, ao meu ver, jogado água abaixo por "Easy Rider". Quando a dupla protagonista da história baixa numa comunidade hippie, se depara com problemas de saúde, de fome, e de individualismos que podem corroer qualquer ideal. Quando vai dar suas voltinhas e tirar uma onda com as gatinhas de uma cidadezinha qualquer, acaba pegando cana. Quando resolve finalmente tomar aquele ácido poderoso ao final do filme, já tendo alcançado o destino final previsto, rola uma bad trip absurdamente pesada, daquelas de desestimular qualquer empolgadinho imaturo (como éramos todos ali naquela sala, por sinal) a experimentar aquele tipo de coisa. Mas o pior mesmo ficou para o final. Tratava-se de um fim abrupto, seco, rápido e cruel. Era o término de um sonho, que mais parecia uma ilusão mesmo, e que acabara se tornando um pesadelo. E foi mesmo uma espécie de pesadelo que vivi, ao tentar me encaixar nos moldes de uma época que já foi há tempos. Era um martírio ter de participar de rodinhas de violão em volta da fogueira. Tinha vontade de vomitar quando sentia cheiro de insenso. E, ao mesmo tempo, me sentia pressionado a ter de encaixar naquele circo todo para não me sentir excluído. E sempre me voltavam à mente as cenas mais pesadas de "Easy Rider". E sabem porque? Porque simplesmente eu não aceitava viver algo que significou alguma coisa num passado do qual eu nem estava previsto a fazer parte deste mundo. Porque eu não suportava ter de ouvir conceitos tribalistas de gente que pregava a entrega a um ideal, mas que na prática só durava enquanto ia enrolando a formatura na faculdade - bancado pelos pais, é lógico! Hoje eu olho para aquela época com um certo alívio. Alívio este de hoje saber o que eu realmente quero para a minha vida, e também para descartar ideologias que não me servem e nunca me serviram. Vivi minha adolescência e início da fase adulta entre os anos 80 e 90. Se eu tivesse que tirar alguma conclusão sobre algo que veio antes de "minha época", que fosse verdadeira, e não imersa numa bolha nostálgica de outra era. Sendo assim, "Easy Rider – Sem Destino" é o filme mais anti-hippie que já assisti.

sexta-feira, maio 12, 2006

Novidades na Indústria – parte II

Dando continuidade sobre as tranqueiras que fazem a minha cabeça, agora vou escrever sobre lançamentos recentes dos gêneros synthpop, electro e future pop.

Apoptygma Berzerk, Covenant e Icon of Coil formam a tríade maxima do future pop, gênero musical que surgiu para revitalizar os estilos industrial, gothic e EBM na segunda metade da década de 90. Enquanto a EBM, que um dia já reinou nas pistas de dança mais underground – e influenciou toda uma geração da dance music - chafurdava em BPMs lentos e defasados, este trio acelerou a batida, incorporou os trejeitos do techno e do trance (principalmente) e limpou os excessos (leia-se: distorções) do som industrial, ao mesmo tempo em que adotou as melodias vocais e de arranjos das novas gerações de bandas góticas que invadiram o mainstream. Trata-se de um gênero musical novíssimo, onde o futuro (future) aponta para a fusão de gêneros underground em torno de um resultado bem acessível (pop). Dito isso, é com enorme prazer que me deparo com o mais recente trabalho dos holandeses do Covenant, lançado mês passado, e que reafirma sua liderança nesta nova ordem musical.

“Skyshaper” tem uma das capas mais horríveis que já vi, mas o seu conteúdo sonoro é de primeira. O Covenant conseguiu dar um passo adiante naquilo que ajudou a criar. Uma das minhas grandes queixas para com o future pop era justamente o apreço que as bandas deste gênero tinham com melodias bregas e melosas de sintetizador do eurotrance (tipo as faixas mais babas de Tiesto e Paul Van Dynk). Pois bem, o Covenant limou o excesso de sacarose e cometeu um discaço. “Ritual Noise” abre o álbum com o balanço típico do future pop - batida trance e clima gótico. Porém, percebe-se um apuro cuidadoso com as melodias e os arranjos (rola até um vocoder). A faixa seguinte, “Pulse”, surpreende: trata-se de um electro de primeira! A balada “Happy Man” é curta e com clima totalmente synthpop, ao melhor estilo de Gary Numan. “Brave New World” segue na fusão do estilo consagrado com timbres do electro atual, enquanto que “The Men” aposta novamente no pop de sintetizadores 80’s, agora de uma forma bem dançante. “Sweet & Sally”, “Greater Than Sun” e “20 hz” fundem EBM antiga com o future pop de forma magistral, com perfeitas soluções dançantes e melódicas. Os DJs vão gostar de “Spindrift”, com sua batida puramente techno servindo de base para uma melodia tensa. “The World Is Growing Loud” fecha o álbum na forma de uma balada bela e tocante. Ao procurar alternativas para enriquecer o som que os consagrou (e que vem sendo amplamente copiado e desgastado nos últimos anos), o Covenant assumiu a ponta de lança no future pop, aliando o passado com o presente e novamente apontando para o que vem por aí. Ouça sem contra-indicações.


Na primeira metade dos anos 90 houve uma discreta retomada do pop eletrônico que tanto marcou a década anterior – o technopop, ou synthpop para os íntimos – antes do revival avassalador promovido pelo pessoal do electroclash por volta de 2001. Gente como Beborn Beton, Second Decay, Mesh, Wolfsheim e De/Vision mexeram num passado ainda não tão distante e considerado totalmente de mal gosto pela (cri)crítica especializada da época. O mais interessante é que as bandas citadas foram evoluindo em suas investidas musicais, soando provavelmente como gente tipo Ultravox, Human League e Soft Cell estaria se comportando em dias atuais, sem apelar para nostalgias baratas e apontando suas trajetórias sempre em curso evolutivo, como o Depeche Mode sempre fez. O grupo alemão De/Vision lançou seu primeiro álbum na linha synthpop em 1993, remando contra todas as marés possíveis. Produziu um pequeno clássico deste gênero em 1996 (“Fairyland”), e agora está lançando o excelente “Subkutan”. Neste álbum de 2006, a banda investe em batidas modernas estilo breakbeat para soltar bases e linhas melódicas de sintetizadores, todas elas com tibres atuais, deixando a veia oitentista correr nas melodias vocais – acessíveis e um tanto quanto românticas. São baladas e petardos dançantes de uma banda que faz você pensar sobre como o synthpop soaria se tivesse sido criado nos anos 00 e não nos anos 80.

*Extras: Em termos de synthpop atual, nada melhor do que recorrer ao trabalho solo de John Fox, multi-instrumentista e ex-vocalista de um dos maiores ícones do gênero nos anos 80 – o Ultravox. Entre investidas bem cabeçudas na ambient/world music, o cara lançou um discaço para as pistas, de nome de “Crash & Burn” (2003). Ali ele produziu bases retas e de arranjos geniais, mesclando o retrô com o electro atual, tendo como o diferencial seu vocal estiloso e suas melodias perfeitas, que são o sonho de consumo do pessoal da Giogolo Records. A experiência faz a diferença.

Por falar na Gigolo Records, um dos artistas de seu cast, Terence Fixmer, sempre procurou se espelhar no lado mais anárquico e radical da música eletrônica produzida para as pistas de dança dos anos 80 – especialmente o duo britânico Nitzer Ebb. Eis que o tal acabou por chamar metade daquela emblemática banda para participar de seu último álbum, “Between The Devil” (2004). Douglas McArthy, vocalista do NE, registrou seus inconfundíveis vocais – entre o rock and roll/pós-punk e o gótico – nas bases eletrônicas beeem pesadas de Fixmer. O resultado é uma atualização da fase “That Total Age/Belief” (1987/88), do NE, que nada mais era do que uma fusão de electro, punk e EBM, tudo produzido com sintetizadores e drum machines. Em alguns momentos surge um hard techno radical, com sintetizadores rascantes e a voz de McArthy dando um molho rocker na coisa toda. Noutros, parece que o NE voltou à ativa, tamanha a semelhança – ou seria descaramento? - com o som de um dos ícones underground dos 80’s.
*Extras: Particularmente eu gosto mais da fase anos 90 do Nitzer Ebb, quando do lançamento de “Ebbhead” e “Big Hit”. Saíram as bases radicais eletrônicas e os vocais gritando slogans em tom de palavra-de-ordem dos anos 80 (que foi como conheci a banda) e entraram canções fortes e um cuidado extremo nos arranjos.
**Vale lembrar que o Nitzer Ebb voltou à ativa agora em 2006. Tanto revival em torno da banda por conta da geração electroclash atual (com remixes dos bambas de hoje, tributos, etc.) fez a dupla (Bon Harris e Douglas McArthy) esquecer suas diferenças e tomar o que lhes é $eu por direito.

quarta-feira, maio 10, 2006

O Poder dos Downloads e dos Camisas-Pretas



A Revista Bizz tem influência fundamental na minha vida com esse negócio de música, desde que comecei a comprá-la mensalmente lá pelo final de 1989. Acompanhei-a desde então, passando pela “fase Forastieri” (a melhor), me decepcionando profundamente quando esta se transformou em “Showbizz” (popularesca ao extremo), e olhando com frieza seu triste fim após tentar voltar às boas eras em 2001. Pois bem, um dos meus maiores prezeres de ler a Bizz nesta sua fase “atual” é justamente poder presenciar uma troca de guarda radical nos dias, minutos, segundos e downloads que correm em velociade absurda hoje. Chega a ser engraçado ver seus editores e jornalistas sambando para agradar ao público das antigas ao mesmo tempo em que tentam seduzir os mais novos – aqueles que não nasceram com o costume de comprar CDs, de ler revistas/noticiários em papel, sacam? A redação atual da revista conta com as bases sólidas também de antigamente – a Editora Abril – e imagino o tamanho da lábia que eles tiveram que gastar para convencer um dos maiores grupos empresariais do Brasil a voltar a apoiá-los numa era tão desfavorável às “mídias não-virtuais” como hoje. O maior reflexo da citada “troca de guarda” é sua seção de cartas. Quem já nasceu baixando música não quer saber de esperar um mês para ler sobre algo que eles mesmos já puderam conferir horas - minutos até! – depois em trocentos web sites. Mas é justamente neste paradoxo que a Bizz tenta se sustentar, afirmando que a informação que eles produzem é diferenciada, que se trata de algo que você literalmente guarda numa estante como um livro. O difícil é convencer as novas gerações desta “importância”. Ao apontar sua linha editorial dividido-se entre semear o conhecimento sobre os “clássicos” e dar importância ao que de novíssimo está saindo agora, a Bizz parece se encontrar numa encruzilhada.

Não tenho acesso a dados sobre as contas da Abril em relação a Bizz para tirar qualquer conclusão mercadológica. Apenas concluo sobre o que venho lendo desde que a revista voltou, no ano passado. Disponibilizar todas suas edições num pacotão de primeira em CD-Rom foi uma jogada fantástica para trazer de volta seus antigos leitores, todos na faixa dos trinta anos pra cima, com poder aquisitivo e mentalidade maduros o suficiente para selecionar melhor o que vão gastar com seu dinheiro. Mas a atual geração não está nem aí para isso, e a Bizz tenta a todo custo agradá-los, dispondo seus textos como numa página da web, escrevendo pequenos editoriais sobre “as maravilhas de ouvir música num mp3 player”, ou de pegar mais leve com os hypes que, aposto, a maioria dos jornalistas ali não engole tão facilmente. Mas o fato mais perigoso, na minha opinião, a ser apontado é justamente a manutenção da postura antiga, de serem meio “alternativos numa grande corporação” – atualizando em termos: eles (a Bizz) ainda adoram espezinhar em cima de Figurões do Pop, Tubarões da Indústria Fonográfica e Promotores Vampirescos de Mega-eventos, mesmo dependendo drasticamente destes para sobreviver. Ou seja, a “caça às bruxas da Bizz” sempre existirá. Só que o mercado atual está mudando radicalmente. Gravadoras estão perdidas com essas “novas tecnologias”, e os tais “anunciantes corporativos” são os que botam (e sempre botaram) dinheiro nas suas páginas. Particularmente acho do caralho este conflito de “nobres ideais” vs. “preciso-pagar-minhas-contas-com-seu-dinheiro-sujo” que a Bizz faz desde sempre e que acaba produzindo o certo e o questionável lado a lado. Mas o mundo de hoje não é mais o mesmo de antes do surgimento da internet em massa. Tentar agradar à Geração Download, aos Antigos Leitores e também às Grandes Corporações me parece uma tarefa praticamente impossível. Essa garotada de hoje vai ler a Discoteca Básica e talvez se interessará em baixar (comprar, nunca!) tais sons, enquanto se fartam de adquirir informação nova sem ter muita (nenhuma...) paciência de olhar para o que veio antes. Enquanto isso, as tais Grandes Corporações se viram em travas contra cópias de CDs, mega-eventos com armações pop e por aí vai. O conflito de interesses de gente que não fala a mesma língua, ao meu ver, está tão grave como nunca antes. Meu medo é de que a Bizz, aquela que ainda me dá tanto prazer, possa sumir novamente, comendo a poeira dos arrastões que o Mundo Pop promove periodicamente.




Já disseram que “metaleiro é tudo burro”. Bem, este não é o caso dos headbangers que tocam a Ferro e Fogo a revista Rock Brigade desde o longínquo ano de 1983 – dois anos antes de a Bizz surgir. Adentrando nos Portões de Vahalla, decepando cabeças de dragões com Espadas Sagradas e combatendo os Traidores do Metal sem dó nem piedade, os Senhores de Aço que tocam pra frente este Bastião Sagrado do Heavy Metal há 23 anos são muito, mas muito mesmo inteligentes! Toda sua fidelidade para com a paixão pelo heavy metal - e contra as modinhas passageiras - gerou um mercado sólido, aparentemente muito lucrativo, ainda que bem setorizado. Ao ignorar as mudanças de mercado promovidas por fenômenos como o grunge, o techno e o novo rock pós-Strokes, os senhores da Brigada do Metal pavimentaram um terreno fértil de acordo com os interesses de seu selo/gravadora homônimo, lançando como febre (no underground, é claro) gêneros considerados até mesmo pela grande mídia metálica estrangeira (como a inglesa Kerrang, que eles execram) como demodés, tais quais o metal melódico, power metal e thrash metal 80’s. Só não conseguiram pôr a mão na fatia no bolo do black metal porque Nuclear Blast e Century Media - seus maiores concorrentes e ao mesmo tempo aliados! – eram donos dos passes dos maiores nomes daquele estilo musical. Para uma revista direcionada aos camisas-pretas, é impressionante o número e o nível alto dos anunciantes na Brigade – fenômenos pop (e com nada a ver com o metal) das grandes majors já constam em suas páginas. Mas o maior fato é justamente a conseqüência disso tudo. Enquanto que a Bizz samba para agradar leitores downloaders e balzaquianos/quarentões, a Rock Brigade criou verdadeiros exércitos de fãs radicais de heavy metal - radicais sim, mas também apaixonados. E os anúncios atuais da revista contam com discos em versões digipack luxuosas e preços até justos (entre R$ 25 e 30) se comparados com um Franz Ferdinand numa Laser da Vida (45 paus!). Os tais Barões da Indústria (Rock Brigade Records inclusa) encontraram ali um filão imutável, que ainda compra CDs, que cola pôster no quarto (a Brigade ainda os traz encartados no meio da revista até hoje!), e que vão em massa nos shows dos seus ídolos, trazidos pelos Produtores Vampirescos de Mega-Eventos. E o corpo editorial da Brigade – sabiamente – ignora por completo termos como “novas tecnologias”, “mp3”, “My Space” e tal, no máximo citando-os numa entrevista e nunca explicando-os. E ainda aproveitam esta omissão para enfatizar fortemente campanhas anti-pirataria. A busca pela “atualidade” dos leitores jovens de Bizz pode levá-la a uma nova falência. E o conservadorismo dos leitores da Rock Brigade garante uma sobrevida cega e inerte à revolução em plenos pulmões que ocorre atualmente na indústria fonográfica. Nesta briga de foice em meio ao tiroteio de donwloads e tentativas de travar o curso da história, os alternativos no comando de uma revista soam desnorteados face à liderança dos camisas-pretas da revista-do-metal em seu meio de combate.

segunda-feira, maio 08, 2006

Novidades na Indústria – parte I

Eis aqui algumas resenhas sobre lançamentos recentes de alguns dos ícones da música industrial/ebm/future pop que curto como um louco.


“The Greater Wrong of Right Live – DVD”, dos gods canadenses do Skinny Puppy, foi um presente de aniversário que tive que dar para mim mesmo! Sou fã desta banda única e maravilhosa há mais de 15 anos, e este lançamento (na verdade, é do final do ano passado) preenche absolutamente todas as expectativas que eu tinha. Trata-se do registro da fase atual da banda, que voltou oito anos depois da morte por overdose de heroína do tecladista/programador Dwayne Goethel, e que provocou seu fim em 1996. “The Greater Wrong of the Right” foi o álbum da volta, um disco à altura da carreira da banda, sem nostalgias baratas e mantendo seu curso evolutivo. Pois bem, vamos à vaca-fria! Este DVD (com luxuosa produção em digipack), como é de praxe nas produções atuais, conta com som e imagem de altíssimo padrão de qualidade, e fico só babando de ver/ouví-lo num home theater. Ao vivo, a dupla original Nivek Ogre (vocais) e Cevin Key (programador/multi-instrumentista) recebe a nobre ajuda de William Morrison (guitarra/baixo, além de ser o editor deste DVD) e Justin Bennet (bateria/percussão), o que acrescenta em muito ao som da banda. O show (gravado em Montreal e Toronto – Canadá) é em si um espetáculo de alta tecnologia sonora, pois Cevin Key se farta em seu vasto equipamento (synths, percussões, theremim digital, lap-tops, etc.), Justin Bennet utiliza-se de todo o poderio de sua bateria/percussão acústica e eletrônica (o cara é um monstro!), William Morrison simplesmente toca baixo e guitarra na mesma música, além de fazer linhas de synth nas quatro cordas e, por fim, Nivek Ogre destila seus vocais com efeitos de distorção e delay idênticos aos de estúdio. Visualmente, metade da banda (Key e Bennet) soa meio nu metal, com roupas modernas e dreadlocks na cabeça, enquanto que Morrison encarna o visual gótico sem a menor cerimônia. Já Ogre... bem, o cara não mudou nada, pois começa o show com um visual pra lá de estranho (com chifres e roupa toda rasgada) e vai se transformando no decorrer da apresentação, terminando totalmente imundo, parecendo ter saído do inferno. Seus vocais (únicos, diga-se) estão muito mais afinados e poderosos do que no registro em vídeo anterior (“Ain’t Dead Yet”), colocando mais melodia e preocupando-se bastante em “dar conta do recado”. O repertório do DVD privilegia o disco mais recente, com nada menos do que quatro faixas no começo, e também mais quatro de “Vivisect VI” (1988). Além de versões magistrais de seus hits underground (“Testure”, “Worlock”, “Deep Down Trauma Hounds”, “Smothered Hope”, etc.), eles supreendem ao tocar faixas pouco usuais ao vivo como “VX Gas Attack”, “Hexonexon” e “Cruscible”. O visual do palco, com iluminação futurista, telão e diversos monitores de TV despejando imagens, é um espetáculo aos olhos vistos. Aos fãs, a satisfação atinge os níveis máximos!
*Extras: Há um segundo disco só com extras, que são:
- “Information Warfare”: a grande mancada deste DVD, pois se os caras do SP são contra a política Bush pai/filho, tudo bem, é o direito deles. Porém, gastar o nobre espaço de mais de 30 minutos num DVD musical com um documentário sobre ex-combatentes da Guerra do Golfo (1991) e suas respectivas visões negativas sobre o episódio é demais! Não há nada neste segmento que haja qualquer referência musical, tornando-o totalmente dispensável!
- “Eurotrauma Tour”: são 35 minutos de filmagens caseiras produzidas pelos próprios membros da banda durante sua passagem pela Europa em 1988. Tem cenas de backstage, maconherismos explícitos (lá pelas tantas, eles visitam uma coffee shop em Amsterdã), trechos de shows e demais encheções de linguiça que só interessam aos fãs mais ardidos. Vale como registro histórico, ainda mais por mostrar a personalidade doce e tranquila de Dwayne Goethel, o que não nos faz acreditar que foi justamente este cara que se matou por overdose de heroína!
- “Too Dark Park” – Archive Footage”: o mel, o filé dos extras! Aqui eles puseram a faixa “Spasmolitic” como pano de fundo para uma colagem de imagens da tour de 1990. O visual do palco é simplesmente fantástico, conseguindo imprimir toda a intensidade sombria de sua música ao vivo. Key (na bateria e nos synths) e Goethel (muitos - uns cinco ou mais – synths) ficam em plataformas elevadas nos cantos do palco, com iluminação azul/verde bem sombria e com galhos de árvores mortas envolvendo-os, enquanto que Ogre sobe numa espécie de perna-de-pau mecânica, e também num troço meio ciborgue com monitores de TV e garras. É um negócio muito louco, esquisito, original!
- “Last Rights – Archive Footage”: no mesmo esquema anterior, desta vez com a faixa “Love in Vain” sonorizando as imagens da tour de 1992. O palco, ainda mais sombrio, parece um açougue futurista do inferno, com luzes deixando tudo na penumbra, um grande telão de fora a fora destilando imagens horríves, e várias carcaças e cabeças deformadas (de silicone, óbvio...) penduradas e dispostas de forma giratória ao bel prazer de Ogre, que veste várias ao longo da apresentação. Sem sacanagem, mas tem banda de black metal metida a satânica por aí que não consegue chegar nem a um décimo do espetáculo de horror que o Skinny Puppy produziu nesta turnê de 1992!

Al Jourgensen não parece dar sinais de cansaço! Num curto espaço de tempo, o pai da fusão de metal+industrial do Ministry lançou um disco (“Houses of The Molé” – excelente!), uma coletânea de 25 anos de carreira (“Ranthology”, com versões ao vivo e alternativas de hits seus), o disco do projeto paralelo Revolting Cocks (“Cooked & Loaded” – imperdível!), e agora mais um disco novo, “Rio Grand Blood” (um torcadilho com o ábum “Rio Grand Mud”, do ZZ Top, que por sinal participou de "Cooked & ..."). Eu já havia feito antes neste blogg a comparação entre Ministry e Motorhead, tanto por causa do ritmo frenético de lançamentos, quanto por conta do peso cada vez maior de sua música, apesar da idade mais avançada. Pois bem, reitero a comparação. “Rio...” é sem dúvida alguma o álbum mais pesado, brutal e heavy metal moderno do Ministry, que parecia ter perdido o entrosamento com as gerações atuais e só produzia música para seus fãs mais ardorosos. A grande novidade aqui fica por conta dos convidados especialíssimos como Tommy Victor (guitarra/vocal do Prong), Paul Raven (baixista do Killing Joke) e Nº 7 (baterista do Slipknot) que, além do velho colaborador Mike Saccia (guitarrista do Mindfunk), imprimem suas marcas pessoais neste monolito - praticamente um dinossaurodo do rock/metal industrial. A faixa-título abre o disco da forma tradicional, com batida veloz, riffs minimalistas e refrão palavra-de-ordem. Já na segunda faixa, “Señor Peligro”, a massa sonora lembra Slayer e Megadeth, com uma quebrada totalmente Sepultura (Chaos AD) e vocais monstro. O ritmo travado e quebrado de “Gangree” nos levam aos momentos mais pesados de “Filth Pig” (1995), tendo como convidado o velho chapa Jello Biafra (ex-Dead Kennedys tendo lançado dois álbuns e dois EPs c/ o Ministry no projeto hadrcore-industrial Lard) destilando sua ironia no começo. “Fear (Is Big Business)” tem riff fantasmagórico e termina totalmente speed metal. “Lies, Lies, Lies!” é a melhor faixa do disco, com uma troca de riffs impressionante, além de um refrão espetacular. A partir daí a porção melódica do Ministry começa a aparecer com mais intensidade e o álbum ganha força com isso. “The Great Satan” é Motorhead puro, com levada de dois bumbos o tempo inteiro e refrão totalmente punk rock. Tommy Victor faz das bases de “Yellow Cake” algo totalmente Prong, enquanto que Jourgensen produz um refrão psicodélico, lembrando até mesmo Jane’s Addiction. “Palestina” também segue na mesma linha Prong, com refrão totalmente melancólico. “Ass Clown” tem climas mântricos (a cargo da vocalista convidada Liz Constantine), bateria tribal e vocais sombrios ao estilo de “Scarecrow” (1991), dando um toque de pesadelo apocalíptico à faixa. O disco termina com uma música escondida, com Jello Biafra aprontando das suas. Ao final, o único porém é a respeito da temática das letras, pois Jourgensen destila pela enésima vez sua raiva e ironia contra George W. Bush, o que denota uma repetição já cansativa desta abordagem - lembrem-se que o disco anterior foi todo dedicado ao presidente norte-americano. Voltando ao som, se este é o álbum mais pesado do Ministry, não restam dúvidas. Tommy Victor mostra suas garras em riffs animalescos, enquanto que o batera do Slipknot imprime velocidade nos bumbos e modernidade nas viradas sem deixar de parecer industrial. E Paul Raven simplesmente co-assina metade das faixas (as melhores, por sinal). Al Jourgensen pode estar ficando velho, mas mostra que ainda sabe das coisas e se fez valer de ótimas parcerias. Um dos discos do ano, com certeza!
*Apesar de ser “o mais pesado” em termos de brutalidade na bateria e nas guitarras, “Rio Grand Blood” não consegue superar o ápice apocalíptico de “Psalm 69” (1991), o melhor ábum do Ministry na minha humilde opinião.

quinta-feira, abril 27, 2006

Balanço bom, balanço torto, balanço esquisito…



Não adianta! Quando o negócio é botar o povo pra suar na pista, nada melhor do que o balanço black vindo direto da origem. Produtores de música eletrônica suam seus dedinhos nos softwares de produção, mas só conseguem um resultado sacolejantemente bom quando bebem (sampleiam!) diretamente da fonte negra. E tome James Brown, George Clinto/Funkadelic, Earth, Wind & Fire, Cameo, Chic, Isaac Hayes… e também Tim Maia e Jorge Ben! O grande lance de ouvir um som contemporâneo é sacar de onde veio aquele sampler, aquela batida, aquele vocal. E saber também que tem gente maluca o suficiente para juntar este monte de referência e dar cria a uns troços estranhos e bem legais!

Tim Maia Disco Club! Presentão de aniversário de meu amigo Caio, que minha mãe, meu tio, o cachorro da vizinha e este que vos escreve não páram de ouvir, pirar e se contagiar. Eu conheci o som do tio do Ed Motta nos anos 80, aqueles baladões estilo final-de-noite-num-piano-bar-decadente, e só fui descobrir os potes de ouro do cara na década passada. E pensar que tinha vinil original da fase anos 70 dele dando mole na minha antiga casa... Enfim, vamos ao presente-passado-futuro: “A fim de voltar”, “Ascenda o farol” e “Sossego” são de rachar qualquer assoalho por aí, de igual para igual com papas da música black sacolejante norte-americana – as duas primeiras são disco music incandescentes, e a terceira, bem, é “Sossego”, porra! A híper dançante e instrumental “Vitória Régia, Estou contigo e não abro” faz a ponte para os baladões soul de “All I Want” (se mostrar este som p/ jovem pesquisador de som black por aí, o cara vai achar que se trata de algum clássico da Motown), “Murmúrio”, “Pais e Filhos” e “Se me lembro faz doer”. “Juras” recoloca o trem nos trilhos da disco - infernal!, e “Jhony” quebra tudo no final, com muito funk percussivo e fantásticos arranjos de metais e orquestra – presentes (e de autoria de Tim) por toda a parte do disco, diga-se. Quem sou eu de indicar algo tão bom e clássico assim! Neste caso aqui, é só para curtição das melhores!
*Este disco ganhou uma remasterização excelente, pois o som está muito nítido e forte, sem aquele ranço “magrinho” típico das produções brasileiras da época.

Jazz pra mim soa chato demais, na maiora das vezes que me dispus a ouvir. Aqueles troços tipo fusion e tal não entram na minha mente. Mas os balanços mortais da Blue Note são outros quinhentos! Órgão Hammond, baixo acústico, bateria suingada... tomei conhecimento daquela cepa através de discos de jazz-rap de gente como US3 e Digable Planets. Qual não foi a minha surpresa de saber da existência de um trio que reverencia aquele tipo de groove nos dias atuais? Medeski, Martin & Wood praticam uma espécie de acid-jazz-funk muitíssimo bem tocado (como é de praxe em formações do tipo), ora pendendo para o groove puro, ora caindo para a punhetagem instrumental. Os caras lançam disco quase que anualmente, e a maioria é muito boa, sendo que eu prefiro o lado mais balançado de, por exemplo, “Shack Man”. Encontrei esta belezura perdida num sebo no Centro de Vitória há alguns anos atrás, em versão nacional! Procure que você acha!
*Vez ou outra o M,M&W dá as caras em terras tupiniquins. Mês passado eles tocaram em Sampa com apresentações esgotadas semanas antes dos shows. Na próxima eu vou!

Pegue a Blue Note e o M, M&W, jogue tudo num tanque lotado de haxixe, fluído de bateria e cerveja, misture e bote pra dentro sem respirar! Vai dar uma congestão estomacal, mas também vai dar uma onda louca! Só esqueceram de chamar (samplear!) o Síndico Tim Maia! “At The Center”, disco mais recente da dupla de loucos de pedra vanguardistas do Meat Beat Manifesto (Jack Dangers e Jonny Stephens) é jazz-funk-breakbeat-dub-ambient alucinadamente dançante e, ãh, cabeçudo. Da mistura de hip-hop com industrial do começo (chegaram a gravar pela Wax Trax, conceituada gravadora de industrial de Chicago), passando pelo big beat antenado com o melhor produzido no final dos anos 90 (“Prime Audio Soup”, do álbum “Actual Sound & Voices”, fez parte da trilha de Matrix), ao jazz-electro-funk de “RUOK” (2003), o Meat Beat Manifesto sempre se mostrou inquieto a cada disco. Este álbum mais recente é capaz de provocar alucinações tanto balançadas quanto espasmos em ritmo de bad trip. É uma droga esquisita, de efeito dançante e conseqüências por vezes indigestas. Estou me arriscando a experimentá-la e até agora gostei!

quarta-feira, abril 05, 2006

Beco sem saída?


É produzir e mandar pra fora!
Foto by: Kalunga


É irônico notar que, aqui no Espírito Santo, não há uma cultura em si relacionada à música eletrônica. Num país sem memória, viver num Estado de população pouco numerosa é afundar de vez nos círculos provincianos que cultivamos desde sempre. O que era a ponta de lança de uma súbita e promissora novidade em meados de 2002, acabou por cair no esquecimento e por ser sugada quase que na sua totalidade por uma vertente solitária e totalitária. Até 2002, vá lá, 2003 também, Vitória tinha eventos que disputavam entre si a preferência do público que bancava a novidade, contando com ecletismo e muita boa vontade de quem os produzia e também de quem apenas queria se divertir. Techno, house, drum’n’bass e trance pareciam viver uma disputa saudável naquela época. Porém, a novidade passou. Sobreviveram aqueles que souberam canalizar os anseios de gerações específicas ainda mais novas em torno do que dá grana no bolso (não vejo nenhum demérito nisso, pois qualquer trabalho tem que ser recompensado), enquanto que todos os outros parecem viver de sobras, ilusões, ou de nada mesmo. O jovem de hoje (entre 18 e 25 anos) quer se divertir onde está bombando, seja numa boate badalada, seja numa micareta baiana. É um sintoma típico de gente normal de classe média e sempre vai ser assim em qualquer lugar. Este mesmo jovem agora se diverte - novidade! - também nas festas de psy trance. Os que optam por trilhar caminhos alternativos curtem o último hype do mês, de compratilhar arquivos novíssimos de Block Party e Arcade Fire, e de dançar em festas nostálgicas de uma época em que nem eram nascidos – os anos 80. E a música eletrônica, coitada, ficou perdida no tempo, virou som, acreditem, de gente velha?!?

Seria muito cômodo culpar o psy trance por este ostracimo para com as demais vertentes da música eletrônica no ES. A cena psy brasileira é idêntica em todo o território nacional, tanto em termos de público quanto de estrutura – uns maiores, outros menores, mas a postura em si é igual em todo o lugar. É uma cena independente com público de alto poder aquisitivo – um fenômeno sociológico a ser estudado! A forma com a qual as pessoas se aproximam do psy pode ser altamente questionável. Porém, o que não se questiona é o grau de profissionalismo acerca do que realmente interessa aos amantes de música em si: som bom e alto, decoração estupenda, e as maiores atrações mundiais do estilo batendo cartão nos festivais. É preciso botar e ganhar muita grana para sustentar algo deste nível. E o psy brasileiro (capixaba incluso) vive de uma forma totalmente independente a qualquer outro gênero musical. Talvez sua solidez fosse abalada se o suprimento de drogas lisérgicas fosse cortado de vez (eu tinha que soltar essa, hehehehehe...), mas o fato é que trata-se de, repito, um fenômeno sociológico entre jovens de classe média-alta brasileiros. A música eletrônica como um todo (techno, drum’n’bass, house, etc.) também já foi assim no Brasil, e aqui no Estado apenas ensaiou algo parecido. O que nos restou, capixabas, é trance, trance e trance.

Partindo daí, há aqueles que cairam na real e abriram as pernas para o mainstream, e embutiram seus anseios em noites típicas de boates badaladas regadas a drinks e azarações. Quem opta por viver disso aqui no Estado tem mais é que se adaptar ao sistema. Quem um dia sonhou em viver disso e manter algum tipo de integridade, ou passou a tocar psy trance ou largou dessa vida. Quem quer tocar sons diferentes da seara psy, tem que ralar! E quem somente curte estes outros sons diferentes parece que sumiu! Cadê aquela galera que freqüentava o Sala 11 e o Pub 455?!? O pessoal com mais de 25 anos que ia a estas baladas parece não ter tomado partido. Eu sei, parece papo de militante da Une falar em “tomar partido”. Mas, porra, estamos (eu, você que estiver lendo meu blogg, e o resto eu nem sei se existe mais...) ilhados (ops!) em parcas opções de se ouvir música eletrônica que não seja psy trance! E olha que quem escreve isso é um cara que poderia estar faturando bons trocos por DJ set de psy, na condição de veterano daquela cena.

Não toco mais psy por mera questão de gosto e por não me identificar mais com aquele público, e não por querer ser alternativo (algo que não enche o bolso de ninguém) ou qualquer coisa que o valha. Você, que gosta de techno, house, drum’n’bass ou o caralho-a-quatro-eletrônico - se é que você existe mesmo, saiba que tem gente tocando coisas diferentes na Serra (a galera de Ádamo e Anderson) e em bairros da Grande Vitória que saem do espectro de Praia do Canto-Jardim da Penha (DJs Cristiano e Mazzo). Fora os músicos veteranos e novatos daqui que vez ou outra fazem algum barulho bom produzindo sua própria música. É um exercício de paciência e, principalmente, persistência apostar em algo que parece estar caindo no esquecimento. Essa tal de música eletrônica deixou de ser moda por aqui, e virou demodé gostar disso entre os “jovens”. Tudo bem, o negócio é reunir quem gosta, partir para locais menores e com público realmente interessado. É pescar alguns dinossauros aqui e ali, e correr atrás daqueles “novatos” que gostam de algo que já não é mais sinônimo de “novidade”. Partir praticamente do zero.


Há opções, porém sem hype e para públicos mais seletos – Piscina Lounge Orchestra, Café Touché, 31/03/2006.


A banda Control Z, formada pessoas de idades entre 16 e 19 anos, está produzindo o som deles de maneira instintiva, sem seguir modas por aí. Teacher's Pub, 04/04/2006.
Fotos by: Kalunga

terça-feira, abril 04, 2006

A Lei

Em 1997 uma bomba suja e eletrônica tomou de assalto o Mundo Pop. Eram quatro malucos com pose (cyber) punk e batidas irresistíveis esfregando na cara dos incautos sobre o “futuro da música” e a “morte do rock and roll”. Besteira! O maior erro dos leigos foi tentar enxergar no Prodigy o futuro de alguma coisa, e o fim de outra. Após o lançamento de “The Fat of The Land”, tinha jornalista comparando-os até com os Beatles (é sério)! Logicamente, tamanho hype criou um retrocesso que gerou antipatia em roqueiros radicais, e uma mega-expectativa em torno do próximo trabalho da “banda” (aspas são necessárias). Meus amiguinhos, o Prodigy é um projeto tão única e exclusivamente encabeçado pelo seu fundador, o produtor Liam Howlett, direcionado às pistas de dança desde o início, que data de 1990. O poder de fogo de bombas atômicas como “Breathe” e “Firestarter” foi potencializado na época certa, da massificação mundial da música eletrônica que o próprio Prodigy ajudou a arquitetar. Guitarrista e baterista ao vivo eram artifícios para enquadrar o grupo no esquemão pop. Mas Liam Howlett fez questão de afirmar o propósito de sua criação, ao lançar logo após o seu estouro o mix-set “Dirty Chamber Sessions – Vol1”, um sensacional compêndio contendo a discotecagem de tudo o que influenciou a mente deste talentoso DJ/Produtor – de Beastie Boys a Sex Pistols, passando por Bom The Bass e Chemical Brothers. A demora em lançar material novo fez a poeira baixar e, mesmo assim, “Always Outnumbered , Never Outgunned” (2003) foi malhado de cima embaixo. Porra nenhuma! É um puta disco para as pistas, com breakbeats (sua marca mais famosa) convivendo harmoniosamente com timbres electro/disco punk matadores. Para quem já foi dono do mundo, uma volta às melhores pistas de dança não era considerada digna pelo panteão pop. Não sabiam o que estavam perdendo...

Porque estou escrevendo sobre o Prodigy?!? Simples: trata-se do lançamento da coletânea em CD e DVD “Their Law: Singles 1990-2005”. Está tudo lá. Da zoeira breakbeat/techno hardcore do primeiro álbum “The Prodigy Experience”, aos petardos de “The Fat...”, passando pelo combustível devastador de “Music For Gilted Generation” e o (ainda) pop e atual “Always...”. No meio da dance music, dois ou três anos possuem efeito devastador do tempo sobre a música. E a produção do Prodigy às vezes sucumbe ao datado. É fato que DJs conceituados tenham receio de tocar o som de Liam Howlett, pela exposição popular de sua música, e que por isso mesmo esta tenha sido execrada pelos circuitos undeground, deixando de se tornar referência neste segmento. Mas um título ninguém discute: Prodigy é discoteca básica em música eletrônica. Que, por sinal, um dia puxou o pé do Mundo Pop em algumas madrugadas da década de noventa, jogando-o no meio de gente esquisita que, de uma hora para outra, viu-se como modelos a serem seguidos. Ame-os ou odeie-os, mas Prodigy nas caixas de som tem o poder de ser A Lei nas pistas de dança!

sexta-feira, março 31, 2006

Aparecendo para o mundo

Enfim, tanta batalha pelo que gosto e acredito rendeu resultados sólidos. Por conta de um contato que os ilustres e queridos Jana e Marcel, foi que eu tive a oportunidade de participar do primeiro, maior e mais conceituado web site de música eletrônica do Brasil, o Rraurl. Já foi postada a primeira matéria, onde contei um histórico da "cena eletrônica capixaba", apontando erros e acertos. Logicamente o texto está lá para ser discutido e em hipótese alguma assumo a postura de "dono da verdade" ou coisa parecida. O texto pode ser acessado aqui.

No mais, vou produzir material com a galera daqui que produz música, festas,e que faz algo acontecer por aqui efetivamente. Acredito no que faço, estou aberto a críticas e discussões, e clamo apenas por respeito por meu trabalho. No mais, vou levando a vida, um tanto mais realizado nas minhas convicções. Abraço a todos!

quarta-feira, março 29, 2006

Uma tonelada de maracatu atômico


Inexplicavelmente o disco novo da banda não está à venda no Estado. No show, o mesmo estava disponível por R$ 15,00. Material de primeira a preço barato! Quem não comprou lá, só na internet

Cara, esperei dez anos por este show! Chegaram a anunciar na programação do verão da Prefeitura de Vitória em plena Praia de Camburi, com o Chico Science ainda vivo. Pois é, rolou uma patuscada (in)digna de nossa panela de barro provinciana e acabou que não teve é nada. Desde então, só foram boatos e mais shows adiados (um deles foi aquele em que prenderam o cara da organização do show do Planet Hemp, e que desencadeou uma inquisição nacional em cima da banda de D2). Pois é, chega de ressentimentos, pois moramos numa cidade maravilhosa, com tudo perto, acessível e barato. R$ 20 paus para ver Nação Zumbi e Cachorro Grande (dia 24/03/2006) numa casa noturna espaçosa e arejada, na beira do mar e com um sistema de som de primeira?!? Quem reclamou de preço, do local ou da cerveja Schincariol (se bem que dessa a reclamção procede, mas nem tudo pode ser perfeito...), é porque não merecia estar lá.

A Nação Zumbi pós-Chico Science é outra banda. Mais psicodélica, mais introspectiva, menos acessível. Mas ainda genial, inclusive ao vivo. A produção da Birne (que trouxe ao ES gente do porte de Scorpions, Millencolin e Motorhead) provou ser a melhor do Estado para eventos deste tipo, e garantiu uma sonoridade impecável, pesada e nítida para pincelar o psicodelismo “preto no granco” atual da banda pernambucana. Os (sub) graves dos tambores, bateria e do contra-baixo batiam forte no peito e balançavam os órgãos internos. O vocal de Jorge Du Peixe parecia estar imerso em delays lisérgicos, ressonando por todos os canais auditivos dos presentes e mandando sua mensagem de forma clara, grave e flutuante. E a guitarra de Lúcio Maia sobressaía-se na melodia, destilando suíngue a todo momento, pesando quando preciso, alucinando quando lhe dava na cabeça. A platéia, pelo menos a que se postava mais próxima do palco, parecia estar em transe hipnótico. Bêbado igual uma porca, este que vos escreve pulou até não aguentar mais. Mas tive a capcidade de tecer outras considerações menos passionais.

Nitidamente o vocalista Jorge Du Peixe revela uma postura tímida, quase que inexprtessiva no palco. Também, pudera: imagine o tamanho do rojão que deve ter sido substituir a presença (de palco e de cérebro) gigantesca de Chico Science. Aliás, a própria Nação Zumbi teve peito e talento para ressurgir de um baque daqueles para se recriar, e assim tomar forma em sua sonoridade, transformando-a num baluarte de originalidade e personalidade que independe de paradas de sucesso da MTV e congêneres. E o vocal de Jorge Du Peixe tem, sim, grande peso nesta “nova banda” (que já é veterana,, diga-se), casando perfeitamente com sua proposta. Ainda tecendo considerações sobre “performance de palco”, Lúcio Maia provou ser o elo de ligação direta com o público. Agitando a massa e tocando como um demônio, aquela figura quietona das entrevistas solta os bichos no palco. Faz com que a Nação não aposte no apelo fácil de tocar seus hits de “Da Lama ao Caos” e “Afrociberdelia”, e sim acrescentando-os à sua usina sonora junto de faixas que, ora parecem trilha de thriller movie do sertão, ora chapam os ouvintes num dub dos infernos, além de destilar groove e peso thrash metal (o final do show, com “Da Lama ao Caos”, por exemplo) tão característicos de sua música. Ver a Nação Zumbi ao vivo requer entrega total. Entrando em sua viagem, sua satisfação é garantida e inesquecível.

+ Considerações:

• Tamanho apartheid cultural que nós, moradores do Espírito Santo, vivemos, somente valoriza ainda mais momentos tão bons como estes que descrevi acima. Não vou cair no velho papo de detonar o capixabismo e blá blá blá. Vou caçando alternativas, abosrvendo com prazer o que tem de bom por aqui, e apontando defeitos mas procurando por soluções. Dona Aparecida e sua Birne estão de parabéns, e que venham mais eventos do tipo sempre!
• Não resenhei o show do Cachorro Grande pelo simples fato de que, após tanto pular no show da Nação, vomitei tudo o que havia bebido, caí doente de gripe logo depois. Mas quem viu garante que foi muito bom. Também não tirei fotos porque simplesmente não quis levar minha câmera. Tava querendo simplesmente curtir e nada mais!
• Aliás, estou postando somente agora justamente por ter estado de cama até ontem.

quarta-feira, março 22, 2006

Eu acredito


Foto by: Kalunga

O prazer vem de graça. E o seu preço – por ser de graça – é caro! Dá o direito de alguém (muita gente!) reclamar, esculhambar, apontar o dedo polegar para baixo, exigir mais do mesmo, de (tentar) roubar até! Mendigos, bêbados, traficantes, malas-sem-alça, pilhados fluorescentes (são os piores...), putas, baratas, marimbondos (noite dessas um deles picou um de nós), polícia (sua presença ou a falta dela), cerveja quente, WO, WC (sujo, imundo, sem papel higiênico!), dor de barriga, nariz empinado, nariz fungando, névoas de Bob Marley, chuvas, pregos (que te furam, que te enchem o saco), caixas-cofre (decibéis altos = peso na moleira!), enfim... dá de tudo! E querem tudo! A maioria não quer te dar nada. Se cobrar, ofende! Cara, dá uma canseira!

Este prazer é de graça, e pisam no teu pé de graça. Mas tem suas compensações. Aliás, o que seria de nós se o que fizéssemos não tivesse um propósito, um benefício próprio? O prejuízo, às vezes, pode parecer maior que o benefício, eu sei. Mas, cacete, existem pequenos prazeres que nos fazem persistir em alguns, digamos, erros (para você, seu mané!). Muitos destes erros eu deixei pra trás, ficaram perdidos no espaço-tempo do aprendizado com a vida. O preço de alguns destes erros os tornaram ainda mais erráticos. Deixo estes para os que estão chegando. Praticar certos erros prazerosos dá - repito - uma canseira! Das brabas!

Só sei que, num quesito, ninguém que venha botar banca, cantar de galo no meu terreiro! Não ganho nada (para vocês, este nada significa tudo - $$$$ - entenderam?). Bom... se bem que rende um troquinho para curtir com a namorada, me divertir com os amigos, aproveitar os momentos com aqueles de boa alma. Ah, meu amigo! Estes erros a que me refiro me fizeram aprender a fazer muito com pouco, bem pouco, quase nada. Vou reclamar? Olha, eu reclamo pra caralho - eu sei! Mas continuo a me enfiar em buracos, bater boca com cérebros de minhoca, mas acreditando apenas em mim mesmo. Porra! Se não der crédito a mim mesmo, quem dará???

Os juros que me cobram estão lá, no SPC, na minha saúde - física e mental. E, mesmo assim, não canso disso. Sou masoquista, então? Podem julgar, condenar, tacar pedra, detonar, roubar, esbarrar, desligar... Mas, se você curtir o que faço – ou, ao menos respeitar, vai tomar uma cerveja (às vezes quente, lembrem!) comigo! Não. Não estou pagando. Estão me pagando! Ora, alguma coisa tenho que ganhar! Ali, na beira da praia ou num sótão escuro e quente (não pensem besteira, por favor...), apertando botões, enchendo copos, movimentando corpos (muitas vezes consigo!!!), vendo tudo passar, aproveitando cada minuto bom de um lugar e de um momento que podem sim ser maravilhosos. Acredito, enfim, que não esteja errando como um todo. Eu acredito.

sexta-feira, março 17, 2006

Mais discos...

Muito trabalho, pouco tempo para desenvolver temas mais profundos. Portanto, mais alguns disquinhos que andam fazendo minha cabeça hoje:

David Gilmour - "On An Island" - Minha época foi outra, e o Pink Floyd para mim, nos anos oitenta (onde começou a “minha época” propriamente dita), era uma banda de velhuscos, e tudo o que fora produzido dos anos setenta para trás me soava chato anacrônico, mofado. O tempo, implacável, vem me ensinando a respeitar alguns senhores de idade. Como é o caso de David Gilmour, o homem das seis cordas mágicas do PF. Eu ainda vou ter todos os discos desta maravilha da civilização moderna em casa, e sei que o disco-solo mais recente de Gilmour não seria a maneira correta de fazê-lo. Será? A Julgar pela qualidade estupenda deste álbum, posso afirmar sem medo de que se trata de um pequeno clássico, muito melhor que os últimos discos do PF, pelo menos. Belíssimas canções, a indescritível classe nos solos e arranjos deste mestre, e participações mais do que especiais (nas fileiras, Rick Wright, tecladista original do PF) dão a sensação de que este senhor fez a melhor coisa do mundo para si mesmo: se livrou da responsabilidade de levar à frente um dinossauro jurássico e lançou mão de sons sem compromisso, que perfazem uma musicalidade absurdamente maravilhosa e inigualável.

Bigod 20 – “Steel Works” - Foi no incrível programa de rádio “Novas Tendências”, transmitido via satélite aqui no ES pela Rádio Cidade há uns dez ou mais anos atrás, que conheci muito som alternativo bom. Sob a batuta do pioneiro DJ José Roberto Mahr, o tal programa tocou uma vez a faixa “The Bog”, do grupo Bigod 20 (nome esquisitinho, hein?), que contava com os vocais de Richard 23, do Front 242 – influência explicita dos caras, aliás. Gravei a dita cuja numa fita K-7 e ouvi até a mesma literalmente gastar. O tempo passou e outro dia fui procurar no SoulSeek este som. “Steelworks” é EBM (electronic body music) clássica, com todos os elementos (ou clichês, se preferir) típicos deste gênero musical: maquinário electro-industrial pesado, rajadas de synths cortantes, vocais graves e, o melhor, uma boa dose de competência em melodias e arranjos – ainda que minimalistas ao extremo. A ironia é que “The Bog” acaba sendo a melhor faixa deste CD. Outro fator curioso é que o grupo participou da trilha do filme “Invasão de Privacidade”, aquele com a Sharon Stone.

Freq Nasty & Skillz - Eu sempre achei que breakbeat e hip-hop dariam um bom caldo juntos. Afinal, a origem de um parte do outro, e as poucas tentativas de se colocar raps em beats quebrados e suingados rederam bons frutos. Mas parece que, se algo está acontecendo nesta mistura, não é tão divulgado. É uma pena, pois sempre fico pensando sobre como seria bom ouvir batidões eletrônicos pesados com MCs cantando em cima – o disco do Freestylers resenhado no post anterior é bem assim, diga-se. Pois bem, o DJ britânico Freq Nasty sempre destacou nesta mistura, e por um acaso desses eu baixei um álbum dele gravado em parceria com o rapper Skillz. Não achei o dito cujo na net para averiguar maiores informações técnicas (tive pouco tempo p/ pesquisar), mas tenho-o em mãos e posso afirmar: é destruidor! Um puta groove, vocais muito bem sacados, e aquela eletrônica produzida da maneira mais certeira possível. Definitivamente não tem nada a ver com gangsta rap e afins!
*A capa aí em cima é de outro disco do cara.

segunda-feira, março 06, 2006

Discos da Semana

tNão saem do meu cd-player!

Revolting Cocks – “Cooked & Loaded”: Al Jourgensen (Ministry) revive seu mais célebre projeto paralelo, que reunia quem estivesse passando perto do estúdio na hora, fosse um roadie ou o cão vira-lata que mijara no pé de alguém na rua. Da mistura de industrialismos bate-estaca com baixo funky-disco e letras absurdas perpetradas deste o primeiro disco (“Big Sexy Land” – 1985), somente duas faixas do novo álbum lembram esta fase: “Fire Engine” (um rockabilly alucinado, com Billy Gibbons, do ZZ Top, arrasando no solo) e “Ten Millions Way To Die” (clima de cabaré, metais safados, zoeira no refrão). O resto do material soa como uma fusão de todos os outros projetos paralelos de Jourgensen (Pailhead, Lard, PTP, etc.). Jello Biafra (Dead Kennedys) e Phil Owen (Skatenigs), sumidos, dão as caras em faixas que lembram demais suas antigas bandas. Em alguns momentos, parece que foi reunida uma turma que não tem vez mais no cenário musical. Se isso resultou em música ruim? Nem pensar! O RevCo ficou mais pesado e perdeu aquele pique dançante-sacana de antes, mas existem algumas faixas matadoras(climas pós-punk e de rock de arena pipocam por todos os lados), fazendo deste disco uma salada musical mais original do que o Ministry atual.


Antix – “Twin Coast Discovery”: Enquanto o psytrance chafurda na auto-indulgência popularesca, com suas synth lines estilo chacota, o tal do progressive trance segue firme, forte e inovador, fundindo-se com outros gêneros (house, tribal, ambient, electro) e renovando o trance como um todo. O nível de qualidade do material do Antix é impressionante! Se “Lull” (2003) poderia ser considerada uma obra-prima, com seu som gélido, minimalista e original, este “Twin Coast Discovery” é um passo adiante na autofagia. Sim, porque sua música se tornou ainda mais intimista, com climas e batidas retas sugerindo um universo tão particular, que fica difícil incluir suas faixas num set “normal” de progressive trance. Seria melhor tocar o disco inteiro ou esperar que mais gente siga os passos do Antix e crie um novo sub-gênero no progressive trance!


The Freestylers – Raw As Fuck!: Este trio britânico surgiu na segunda metade da década de noventa revivendo o electro oitentista (Grandmaster Flash, Kraftwerk, etc.), com suas batidas gordas (que foram a matriz do funk carioca) e climas robóticos, atualizando-o com breakbeats modernos, ragga, dub e o que mais estivesse na crista da onda. Sem sacanagem, o clima da música destes caras faz neguinho abrir rodas de break no meio da pista, ao mesmo tempo em que alucina a mente no transe hipnótico. Com “Raw As Fuck”, eles assumem a linha de frente do breakbeat mundial, fazendo a alegria de b-boys e clubbers (tribos que, aparentemente não têm nada a ver entre si) que gostam de boa música.
*Eu já conhecia este som, mas estava por fora do que havia de novo. Quem me deu esta dica foi o Marcel, do Zémaria. Cara, discão, viu? Valeu!

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Comunicado

Estou com o PC bichado.

Estou sem ter como postar nada, pois posto agora do trabalho.

Agradeço a presença daqueles que passam por aqui e o quanto antes vou tentat dar um jeito na situação.

Valeu!

domingo, dezembro 04, 2005

NINE INCH NAILS

Ainda estou surpreso com a vinda do Nine Inch Nails ao Brasil. Como já havia escrito num post lá embaixo, a banda de Trent Reznor nunca foi bem assessorada por estas plagas, com os parcos lançamentos tendo sido muito mal divulgados, à exceção óbvia de “With Teeth”, seu mais recente petardo, justo por conta do show no Festival Claro Que É Rock. A julgar pelas palavras de um fã que, desde 1991 ouve com devoção, gasta os tubos com lançamentos importados e/ou edições limitadas de EPs, singles e DVDs (até um box set eu tenho!), é deveras esquisito que esta tal pessoa não tenha ido a este show, certo?. Pois é, são coisas da (minha) vida, que não dizem nada à respeito do assunto em questão, mas que por motivos de força maior fizeram com que este que vos escreve tenha perdido o show de “uma-das-bandas-de-minha-vida-entre-mais-cinco-ou-seis”. Mas me sinto vingado. São 15 anos ouvindo sozinho este (e muitos outros mais) som sem que praticamente ninguém (as poucas exceções sabem que eu sei quem são) desse a devida e merecida atenção. Aos notívagos no universo de Trent Reznor & Cia., as resenhas de toda a sua (econômica, diga-se) discografia, escrita por quem – sem falsa modéstia – sabe do assunto.

*Eu não sou daqueles fãs que sabem a cor da cueca do Reznor, por favor! O que vem a seguir é um relato pessoal, dentro do possível tecendo críticas justas, sem babações desnecessárias.

Os anos 80 e todo os seus exageros estético-visuais estavam com o prazo de validade esgotado, naquele longínquo 1988. Os poucos artistas que produziam algo de bom naqueles tempos procuravam enterrar de vez aquela década o quanto antes. Um deles, porém, era o paradoxo do futuro iminente coagindo com o passado intermitente. Quem era aquele cara que criou uma banda formada tão somente por sua pessoa, que praticava o tipo de música mais futurista que havia no momento, e que ao mesmo tempo absorvia na maior cara-de-pau as melodias daquela década tão abnegada? Trent Reznor surgiu do underground conceitual da música industrial/EBM, tão em voga naqueles tempos. Porém, possuía neurônios muito mais ativos e que o faziam enxergar tocando em grandes palcos e não em pequenos clubes esfumaçados lotados de gente esquisita. O cara tinha visão, mas também era dotado de um talento extraordinário. Sozinho, juntou duas ou três vias já existentes e criou a sua própria estrada.

“Pretty Hate Machine”, à época de seu lançamento, assustava por um estreante apresentar tamanha qualidade de produção sonora que, não por menos, ficou à cargo de gênios de estúdio como Adrian Sherwood e Flood - o primeiro famoso por investidas vanguardistas nos terrenos do dub e do industrial, o outro por seus trabalhos com Depeche Mode e U2, além do próprio Reznor. Mas o senso melódico do dono da banda mostra a sua cara logo na abertura, “Head Like a Hole”, um autêntico clássico cyberpunk, com eletrônica pesada, letra forte e melodias marcantes. “Terrible Lie”, com seu mix improvável de Prince e Skinny Puppy, segue o disco promovendo uma inquisição de sentimentos engasgados na garganta de seu autor. “Down In It” é um cyber-rap pesado, enquanto que “Sanctified” colide uma batida eletrônica reta com um baixo meio disco, climas sombrios (estes permeiam todo o álbum) e letra/melodia de arrepiar. A viagem segue abismo abaixo com a estupenda balada “Something I Can Never Have”, de rara e sinistra beleza. O lado B (estou me baseando na fita K7!) puxa o beat para cima com “Kinda I Want You”, um rock electro-dançante de conteúdo altamente sexual/subversivo. “Sin” possui um doce sabor 80’s, dançante e com timbres típicos, mas a letra e a melodia cáusticas assopram a afetação para longe. “That’s What I Get” e “The Only Time” são duas quase baladas cujas funções melódicas resistem ao tempo, pois seus timbres eletrônicos realmente soam datados. “Ringfinger”, por incrível que pareça, fecha o disco num clima bem dançante e para cima, com direito até a uns scratchezinhos. Após tantas sombras e dor, um pouco de amenidade para aliviar.
*”Pretty Hate Machine” é um álbum essencialmente eletrônico, com os demais elementos aparecendo de forma mais discreta, porém incisiva. Na lista de agradecimentos do encarte, Reznor cita influências díspares como Prince, Clive Barker (sim, o cineasta famoso por filmes de terror), Jane’s Addiction, Public Enemy e This Mortal Coil. Tudo faz sentido.
**Por conta deste disco, o NIN recebeu o convite para participar da primeira edição do festival itinerante Lollapallooza, em 1991. Reznor & Cia.(ele montou uma banda “de verdade” para tal), ao que consta, roubaram a cena com shows eletronicamente subversivos (era o início da quebra de teclados no palco e coisas do tipo), saindo de lá aclamados e fazendo com que o disco de estréia ultrapassasse a barreira do milhão de cópias vendidas.

Quisera o Trent Reznor não ter caído na lorota do selo TVT Records, pois os tais impuseram um contrato falcatrua ao cara, deixando-o quase como um escravo que não podia usufruir da fama e da grana obtidas com seu álbum de estréia. Foram mais de três anos de batalhas judiciais e um quase assassinato - o cara invadiu o escritório da gravadora com uma faca na mão!, o que influiu no processo de composição do EP “Broken”, em 1992. O som do disco é pesadíssimo, lotado de guitarras raivosas e eletronicamente alteradas. Foi bastante comparado ao Ministry na época, mas estava mais mesmo era para o noise-industrial de raiz roqueira (e não metaleira, como a banda de Al Jourgensen) dos suíços Young Gods, com tudo, obviamente, sendo direcionado pela marca registrada de Reznor e que surgia cada vez mais forte. São seis faixas matadoras, com outros dois interlúdios instrumentais postos a dar um freio na locomotiva para que esta pudesse voltar atropelando tudo pela frente. “Pinion” precede o esporro dançante de “Wish”, que é sucedida pela quase heavy metal “Last”. “Help Me, I’m In Hell”, instrumental sinistra e de nome sugestivo, abre caminho para a pancadaria industrial de “Happiness In Slavery”, cujo videoclipe mostra toda a sorte de mutilações e sadomasoquismo. “Gave Up” é quase um hard rock - quase, pois Reznor jogou tudo no caldeirão e dali saíram uma bateria eletrônica nervosa, um refrão poderoso, e um solo de sintetizador! Como bônus, o EP, em sua versão original, apresenta num mini-CD a redhotchillipepperiana “Suck” (tudo bem, o refrão explode tudo...) e a pesada e arrastada “Physical”, com camadas e mais camadas de guitarras e sintetizadores. “Broken”, até o momento, é o disco mais pesado de Reznor.

“The Downward Spiral” é o auge da criatividade de Trent Reznor, deixando por definitivo sua marca na música pop. Pop?!? Pois é, acreditem, mas a sonoridade nem um pouco comum deste álbum fez a banda galgar altas posições nas paradas e chover convites para trilhas sonoras e participações nos maiores festivais da época (1994/95). A fórmula NIN definitiva é composta de muita, mas muita barulheira industrial, riffs de guitarras pesados, computadorizados e alterados, e melodias marcantes, indo do mais sombrio ao mais doce e palatável. É difícil apontar destaques neste disco, pois praticamente todas as suas faixas viraram hits. Fãs de “Broken” se identificarão com as pancadarias de “Mr Self Destruct” (e seu final inaudível), “March of The Pigs” (batida quase hardcore e pianos a lá Faith No More), “I Do Not Want This” (batida abafada, refrão explosivo) e “Big Man With a Gun” (num crescente de guitarras e synths). O beat se torna mais dançante nas excepcionais “Heresy” (EBM com vocais em falsete), “The Becoming” (festa de synths, violões e melodias grudentas) e no mega-hit “Closer” (de melodia doce e letra subversiva). As estranhezas surgem ainda mais fortes no peso arrastado de “Reptile”, nos instrumentais quase ambient de “Downward Spiral” e “Warm Place”, e na jazzy “Piggy”. “Hurt”, uma balada de letra e melodia fantásticas, fecha o caos de “The Downward Spiral” da forma mais inusitada possível.
*Depois deste disco, tudo o que levava o rótulo de “industrial” acabou sugando até a alma do NIN. A lista é extensa, pois até mesmo medalhões pop buscavam por algo parecido.

“The Fragile” é um ótimo disco. Mas o inevitável aconteceu: a sonoridade do NIN encontrava-se em franco desgaste. Afinal, foram cinco anos em que deus e o mundo usurparam das fórmulas criadas por Trent Reznor. O disco (duplo) em questão revela-se um beco sem saída para quem procurava por termos como inovador e original, tão comumentemente associados à obra do NIN. Se a sonoridade do disco soa como uma versão domesticada de “The Downward Spiral” (menos sujeira, menos caos, mais coesão na mistura), as letras de Reznor revelam-se mais maduras e introspectivas, o que reflete diretamente nas melodias. Poderia se dizer que “The Fragile” é um disco mais, digamos, bonito de se ouvir, vide os arroubos de agressividade dosados com beleza pura de “The Wretched”, “Where In This Together” (com seu tocante videoclipe) e “The Mark Has Been Made” que, logicamente, não são os únicos destaques. Para o fã convicto do NIN, este álbum duplo soa como uma coletânea de músicas inéditas da banda, que compilam perfeitamente as três fases anteriores – eletrônica, peso e caos. “The Fragile” é o disco mais acessível, o que o torna uma excelente porta de entrada para o universo musical de Trent Reznor.

E o ano de 2005 está aí com disco novo do NIN na praça. E, querem saber de uma coisa? Vão comprar (ou baixar) e tirar suas próprias conclusões, seus bastardos embalistas de última hora! Afinal, a banda tocou num grande festival e agora todo mundo quer ser fã do NIN desde criancinha, né não? Enquanto isso, vou ouvindo sossegado – e sozinho – minha cópia em CD-R (presente daquele indie gordo e peludo do Taylor) de “With Teeth”, pensando em adqüirir logo o disco original para completar o buraco na minha coleção.

Bônus – EPs, Singles, Ao Vivo, Remixes, Bootlegs, Videos, etc.

Dos singles, sempre há coisa boa de sobra de estúdio inédita ou coisa assim. Eu destaco a excepcional versão de “Get Down Make Love”, do Queen entre os remixes de “Sin”, e o cover do Soft Cell, “Memorabilia”, em “Closer to God” – ambas as faixas completamente vertidas ao estilo do NIN. Os discos de remixes do NIN – é tradição eles lançarem as remixagens um tempinho depois após os álbuns “normais” – são um tanto quanto chatos, pois a maioria das versões descamba para a barulheira industrial pura, sobrando um ou outro destaque entre tais tranqueiras – procure que você os acha, vide os remixes de “Happiness In Slavery” (do EP “Fixed”) e “Mr Self Destruct” (de “Further Down The Spiral”), além de sempre conterem algumas faixas inéditas perdidas na bagunça. E nas trilhas sonoras você acaba encontrando algumas das melhores músicas da banda. É o caso de “Burn” (do filme “Natural Born Killers”), “Perfect Drug” (“de “Lost Highway”) e o fantástico cover de “Dead Souls”, dos baluartes pós-punk/gótico do Joy Division.

O álbum/DVD ao vivo “And All That Could Have Been” é excelente, pois capta a banda na sua essência do palco. Ouvir o CD é ficar babando pelo DVD: compre, roube, baixe ou grave de mim! E eu tenho alguns bootlegs em CD original: “Woodstock 94” possui gravação perfeita e diversas faixas que não entraram no ao vivo oficial, como “Down In It”, Happiness in Slavery”, “Burn”, “The Only Time”, “Ruiner”, “Help Me I’m In Hell”, “Dead Souls” e “Something I Can Never Have”, todas elas em versões matadoras. “Children of The Night” é um pirata ao vivo da turnê que o NIN fez com David Bowie em 1995, destacando “Sanctified” e “The Becoming”, além de “Reptilian”, “Hurt” e “Scary Monsters” (de Bowie), todas elas com a canja do ex-Ziggy Stardust nos vocais. O outro pirata que tenho poderia ser o melhor de todos, pois é um disco duplo com o registro completo de um show da tour de “The Downward Spiral”. Mas há um porém: a gravação é uma merda! “Slaugher In The Air”, o disco em questão, só valeu à pena os dólares investidos por conta de uma coisa: no disco 2 há, na íntegra, a primeira demo do NIN, com versões pré-“Pretty Hate Machine” (e bem diferentes) de “Sanctified”, “The Only Time”, “Kinda I Want You”, “That’s What I Get”, “Ringfinger” e “Down In It”, além das totalmente unreleased “Maybe Just Once” e “Purest Feeling”. Fã paga caro para levar apenas um algo mais. Sou uma besta mesmo...
*Não resenhei o VHS (até quando vou ter de esperar pelo lançamento em DVD?!?) duplo “Closure” pelo simples fato de não ter conseguido comprar na época. Segundo fontes seguras, é o melhor vídeo dos caras, disparado!

sexta-feira, novembro 18, 2005

A Indústria não pára – Parte IV: O Future Pop


Este é um dos ícones desta vertente musical conteporânea.
Imagem by: Icon of Coil Official Website


Future Pop? ‘Que merda é essa?’, me perguntei há alguns anos atrás, quando li sobre numa (excelente, diga-se) reportagem em O Globo, num período em que a internet ainda não fazia parte ativamente da minha vida. Eu já não podia mais comprar discos importados como antes (o dólar disparara novamente, além de minhas prioridades serem outras), o selo/loja Cri Du Chat (que fez história no Brasil lançando bandas brazucas e gringas neste segmento com uma regularidade impressionante) havia falido, e tudo acabou por fazer com que minhas fontes de informação no universo da música industrial simplesmente secassem. Tal reportagem retratou um novo estilo que havia tomado forma e cara próprias entre o final dos anos 90 e o início desta década. Já tinha ouvido falar de alguns nomes ali citados, mas nunca havia de fato entrado em contato com aquilo tudo. Deixei o tempo passar.

Quando caí nas graças dos downloads via internet, fui procurar pelos principais nomes do tal do future pop: Apoptygma Berzerk e Covenant. Disparadamente estes dois grupos são a melhor e a principal porta de entrada neste segmento. A tal reportagem atentava para uma drástica atualização da música industrial e da electronic body music por meio de batidas dançantes mais em dia com as tendências das pistas, e de vocais limpos, sem distorção e totalmente pop, com algumas quedas para as melodias de bandas góticas contemporâneas. E o future pop é isso mesmo, pois se trata da vertente do universo industrial/ebm com claras tendências populares, passível de ser ouvida em rádio e de ser tocada sem o menor pudor em festas de techno e trance. Mas é aí que o caldo pode entornar.

É notória a predileção dos europeus por melodias um tanto quanto bregas empregadas em trance e afins. São aquelas notas de sintetizador jogadas em cascatas melódicas em excesso, que podem tanto ser utilizadas em faixas techno radicais quanto em babas como aqueles dances de aeróbica. O future pop é um gênero europeu por natureza, e mesmo as bandas mais conceituadas insistem algumas vezes neste tipo de melodia. Pelo visto o público de lá gosta muito disso pois, em alguns casos, surgem até faixas grotescas onde melodias bregas de sintetizador são colocadas junto a vocais guturais estilo death metal - cruz-credo! É preciso separar o joio do trigo e é isto que tentarei fazer a seguir.

O Apoptygma Berzerk é o mais melódico de todos, mas sua música é muito bem trabalhada, e sua discografia é impecável, tendo começado praticando uma ebm rápida, gótica e apocalíptica, e que com o tempo acabou por definir o estilo primordial do future pop (também ficaram ainda mais famosos pelo cover de “Nothing Else Matters”, do Metallica). Pioneiro também é o Covenant (não confundir com o black metal Kovenant), que produz bases próximas às do psy trance, mas investindo também em beats mais quebrados estilo breakbeat/electro, além de investir em melodias mais melancólicas. Um nível ligeiramente abaixo vêm: Icon of Coil (perfeita fusão entre o Apoptygma Berzerk e o Covenant), Razed in Black (com beats mais quebrados e guitarras heavy metal) e Assemblage 23 (o mais gótico de todos, fazendo uso eventual de vocais femininos). Logicamente este é apenas um ponto de partida. Selos underground e prolíficos em produções a todo momento como Metropolis Records e Zoth Ommog são uma excelente fonte de pesquisa.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Dando pista


Foto by: Kalunga

Existem sons de pista de dança que são atemporais, cujas batidas e melodias nunca ficam velhas. Pois é, tal proeza é raríssima, principalmente pelo fato de que a dance music propriamente dita (techno, house, trance, etc.) depende tanto de recursos tecnológicos que o prazo de validade de suas produções expira rapidamente – o recurso da “atualidade” é de uma constante meio doentia. Por exemplo: você, que tenha um mínimo de interação com a “cena eletrônica”, consegue imaginar algo mais datado hoje do que aquelas misturas de drum’n’bass com bossa nova/mpb estilo Kaleidoscópio? Ao mesmo tempo, o que era considerado o supra-sumo do ultrapassado, a acid house, de uns dois anos para cá, vem experimentando um hype fervoroso, com direito às velhas linhas ácidas da TB-303 (sintetizador de baixo pré-histórico da Roland - ouça o álbum “20 to 20”, do mega DJ Josh Wink). O que dirá, então, do electro, que atualmente infesta todas as sub-divisões da música eletrônica com seus timbres deliciosamente retrô?

No final das contas, o que fica para trás neste segmento acaba por interessar somente àqueles que se preocupam em fazer dançar e não àqueles que apenas dançam numa pista. Justamente são os DJs que lançam as tendências, promovem revisões do passado e modernizam-no. É um processo contínuo, que a cada dois anos, em média, determina que um ou dois gêneros musicais sejam os mais “modernos e atuais”. O que será das pistas de dança em 2008, por exemplo? Disco music a lá anos 70 infestando house, tecnho e adjacências? Ou teríamos misturas improváveis de minimal techno com trance dominando as tendências daqui a três anos? Sei lá! Vou apenas escrever sobre algo que está sendo e sugerir algo que poderia ser.

Psicodelia eterna

Conheci o tal do trance psicodélico numa época em que este se encontrava em plena fase de transição, entre o primal goa trance, de fortes linhas melódicas e criado por alemães que piravam a cabeça nas praias de Goa (Índia) desde o começo dos anos 90, e o então eminente israeli trance, produzido por jovens de Israel e de características mais frias e pesadas. Meu primeiro contato com este universo se deu em Trancoso, no carnaval de 1998, numa rave realizada na beira da praia (eu já descrevi a ocasião no post “Rave on U – parte I”, nos arquivos do mês de março). Eu e meus amigos Tourco e Mentor vimos, sem saber direito o que estava acontecendo, um live PA do projeto francês Total Eclipse. Logo depois, o Tourco foi caçar na internet sons daquele trio (formado pelos exímios produtores Stephen Howleck, Serge Souque e Loic Van Pocke) e acabamos por eleger a música do TE como o topo em qualidade no quesito “trance”.

Ouvindo hoje o álbum duplo “Violent Relaxation” (de 1999) e comparando-o com o padrão vigente na produção de psy trance dos últimos três anos, fica evidente que o Total Eclipse se tornou impróprio para rivalizar com os nomes mais atuais do gênero - o principal motivo é a (falta de) pressão nas bass lines se comparada com o padrão atual. Mas o som deste trio francês vai muito além dos limites restritos de um gênero específico. Os tradicionais climas estilo invasão alienígena do goa trance se fundem com sacadas melódicas referenciais que vão de samples de gritos e sirenes do big beat de Chemical Brothers e Prodigy, a batidas minimalistas vindas direto do Kraftwerk. A pegada dos caras muitas vezes era puramente roqueira, com direito a viradas de bateria e solos de synth dignos de uma guitarra elétrica (vide a faixa “Can’t do That”). As músicas puramente dançantes não se prendiam a BPMs rígidos – variavam de 130 a 148 batidas por minuto, pois cada faixa possuía vida própria. Nas faixas destinadas ao chill out, a criatividade destes caras aflorava ainda mais, com os tradicionais cânticos orientais e cascatas de notas melódicas podendo se transformar num breakbeat poderoso ou dar lugar a um violento solo de guitarra de verdade. O som do Total Eclipse é discoteca básica em música eletrônica!
*O psy trance, na minha opinião, está totalmente estagnado musicalmente, e entregue a um público que perpetua uma mentalidade (ou seria a falta dela?) cabeça-de-bagre de só depender de melodias óbvias e com a garantia certa de bombar a pista. Não há mais inovação nem renovação que me façam perder o tempo com este universo. Eu apostaria na fusão do peso atual com as melodias do antigo goa trance. Alguém aí se dispõe?
**O Total Eclipse acabou. Alguns projetos surgiram, como o Antidote e outros. O nível de qualidade diluiu-se quando cada um dos três foi para o seu canto, mas ainda vale à pena procurar as produções que envolvam os nomes de Stephen Howleck, Serge Souque e Loic Van Pocke.

Na quebrada

O termo breakbeat surgiu do hip-hop, por conta de cortes e quebradas de ritmo feitos ali, na hora, nos toca-discos, dando origem a novas músicas. No final dos anos 80/início dos 90’s, era sinônimo de anarquia sonora, dando cria ao jungle (pré-drum’n’bass) e ao hardcore techno (pré-gabba), com suas violentas e rápidas rajadas rítmicas. No meio da década passada desmembrou-se no big beat, com batidas mais lentas e grooveadas, e uma estreita relação com o rock – a era de grandes álbuns eletrônicos (antes só haviam singles) de Prodigy, Chemical Brothers, Leftfield, Crystal Method, entre outros. No começo desta década o breakbeat voltou com força, por conta de batidas mais organizadas (menos barulhentas e quebradas que o big beat) e fundindo-se com electro, house, techno e o que mais vier à cabeça. Transformou-se em um gênero forte, sólido e irresistivelmente dançante, englobando tudo o que veio antes, criando novas formas a todo momento.

Plump DJs, Drumattic Twins, Lee Coombs, Soul of Man e Meat Kattie estão na linha de frente do breakbeat, e o selo Finger Lickin é a principal matriz destes abalos sísmicos sonoros. O gênero atualmente encontra-se numa maturidade impressionante, mesmo sendo considerado o estilo que mais engloba referências diversas. Batidões electro-funk podem ser acompanhados por synths psicodélicos e vozeirões de soul music numa mesma faixa, por exemplo. Às vezes parece que James Brown e Funkadelic foram robotizados (Soul of Man); noutras o Prodigy surge ainda mais bombástico que antes (Plump DJs - definitivamente o maior nome da cena – no single “Get Kinky”); em certos momentos uma avalanche de percussão africana se sobrepõe a pesados beats digitais (Lee Coombs); a house music é estuprada com bass lines cavalares e quebradas de ritmo perfeitas (Meat Kattie); e os anos 80 são postos no caldeirão dos breaks atuais (Drumattic Twins). E esta galera toda acaba se cruzando (ops!), se remixando e produzindo juntos a torto e a rodo. Os breaks voltaram para ficar!
*Logicamente o breakbeat não se restringe a estes artistas/selo. Há muitos outros afluentes por aí, produzindo boa música para as pistas. Tal gênero musical, em termos de downloads na internet, ainda é bastante restrito a singles em vinil, portanto, meio chatinho de achar.
**Segundo o Marcel, que recentemente fez uma gig pela Europa com sua banda Zémaria, o breakbeat já se encontra num estágio em que o hype no clubes underground já o vem descartando entre os mais antenados, dando vazão a fusões de breaks, electro e house como os italianos do Pressalaboys. Olha aí a música eletrônica e sua fome doentia de se atualizar constantemente – para o nosso bem!

quarta-feira, outubro 19, 2005

A Indústria não pára – Parte III: Os Góticos


Esta é galera que gosta de vestir um pretinho básico!
Imagem by: Diary of Dreams Official Website


O universo da música gótica sempre possuiu relações estreitíssimas com a galera do industrial, ao ponto de seus públicos se misturarem e se confundirem entre si. Vou abordar aqui algumas bandas que trafegam nesta linha estreita, onde os climas lúgubres se encontram com as máquinas pesadas. Como o verão está chegando, nada melhor do que ouvir sons gélidos e darkosos para espantar o suor!

Steve Albini é considerado o Mestre da Sujeira, aquele cara que faz as bandas mais selvagens soarem ainda mais primitivas, ao mesmo tempo em que todos os instrumentos são captados na sua mais pura beleza barulhenta e de forma incrivelmente nítida. Fez parte de combos radicais (nos anos 80) como Big Black e Rapeman, onde baterias eletrônicas toscas serviam de base para verdadeiros estupros sonoros. Como produtor, é sempre requisitadíssimo, tanto por bandas underground que queiram dar um tapa mais profissa na sua sujeira, quanto por bandas pop que queiram garantir uma moral para com a turminha alternativa – exceção honrosa ao Nirvana e o seu maravilhoso “In Utero”. Pois onde estava com a cabeça o Albini quando pegou para produzir uma banda gótica?!? O Userhouse, banda californiana por azar do destino (a californication teria produzido sua cria mais bizarra de todos os tempos?!?), é soturna, triste e sorumbática, querendo fazer nevar nas areias de Venice Beach. Pratica um mix excepcional de rock gótico tradicional (Bauhaus é a sua maior referência) com climas e sintetizadores sombrios (a face industrial), tudo isso misturado a guitarras sujas e pesadas – cortesia do humor de Mr. Albini na mesa de som. Ótimas canções estão registradas neste “Molting” (1994). É para bater a cabeça e se deprimir – e nada a ver com aquela xaropada do tal do gothic metal, por favor!

Existem bandas que são tão influentes em seus segmentos, que geram crias baseadas tão somente em algumas músicas específicas suas. É o caso do Sisters of Mercy, talvez a maior referência em termos de “som gótico” que vemos atualmente. O dinamarqueses do Diary of Dreams, por exemplo, se basearam única e exclusivamente na música “Flood” (ao meu ver, é claro), do clássico álbum “Floodland” (1987), da turma morcegóvia de Andrew Eldritch. A faixa citada criou um mix de electro/EBM/industrial bem pesado, junto ao seu estilo único de gothic rock, com os vocais de Andrew mais graves e fantasmagóricos do que nunca, e recheando tudo ainda com camadas de guitarras assombrando os canais de som. O Diary of Dreams, logicamente, não é uma repetição de uma nota só. Mas deve a sua alma sofrida a esta música. Edward Mãos de Tesoura iria cortar sua própria cabeça de alegria/tristeza com esta banda.

Outra banda mais do que influente ao pessoal das catacumbas é o Depeche Mode, que gera clones a cada esquina escura. Uma destas cópias começa a criar vida própria e a produzir um tipo de música cada vez mais especial: o Mesh. Mais guitarras, mais peso, mais melancolia - a banda adiciona também influências do Nine Inch Nails nesta mistura, tornando-os ídolos entre os guetos mais sombrios da Europa (seus discos nem são lançados nos EUA). Lembrando: eles fazem canções para cantar – e chorar – junto. Chega a ser pop – para os padrões de “O Corvo”, é claro.

A Alemanha é prolífica em matéria de música gótica. A quantidade de bandas apostando no lado negro da força que brotam de lá é absurda, com o termômetro de qualidade sempre batendo lá em cima. O Wolfsheim começa a se tornar grande entre os cemitérios alemães. Eles praticam uma mistura de rock gótico com elementos eletrônicos – peraí! Eu já vi este filme antes! Ok, tudo bem, eles não fazem nada de novo. Mas o som deles é lindo, porra! Percebe-se uma finesse, um bom gosto absurdo em suas melodias e arranjos. É belo, é encantador, é poeticamente triste e contemplativo. “Casting Shadows” (2003), com suas canções em alemão e inglês, é o disco perfeito para ouvir ao lado de sua musa gótica, bebendo vinho com sangue, chorando e sorrindo juntos ao mesmo tempo, observando a chuva cair pela janela.

Vomito Negro dá medo, a começar pelo próprio nome desta banda belga. Há uns oito anos atrás, encomendei o maravilhoso álbum “A New Drug” (1990), através de uma difícil conexão européia (o cd veio escrito “made in Austria”). Paguei caro para me assustar! O estilo desta banda remete diretamente à EBM clássica pois, afinal, este gênero musical partiu dos conterrâneos do Front 242 que, em 1981, criaram uma cena local fortíssima. Pois bem, o Vomito Negro (o nome é esse mesmo!) partiu da citada “EBM clássica” para costurá-la com alguns dos climas mais soturnos que se têm notícia - usei até em trilha de história de terror na faculdade! Já o álbum “Wake Up!” (1992 – tenho em mp3), é mais voltado à EBM, mas igualmente poderoso. Ouça e vomite negro!

*Ainda poderia falar de nomes excelentes nesta linha como Clan of Xymox, Alien Sex Fiend, Kovenant (um ex-black metal) e Mortiis (idem). Muita escuridão acabou por me dar vontade de ir à praia tomar um sol e ouvir ons mais alegres!

**Eu ODEIO esta praga atual chamada de gothic metal. Nesta linha, fico só com os clássicos de Type O’Negative (“Bloddy Kisses” e “October Rust”) e Paradise Lost (todos os discos, inclusive os mais atuais!). Estou ficando velho e resistente a estes modismos dos dias de hoje, hehehehehehe...

segunda-feira, outubro 17, 2005

Terror flúor em Guaçuí


Este é o único registro fotográfico que restou desta roubada monstro!
Foto by Kalunga


A idéia era mirabolante (e suspeita...), mas a secura para botar um som sempre falou mais alto. Afinal de contas, era só levar os discos. Não éramos uma banda, não tínhamos que botar e carregar equipamento – esse negócio de “DJ” é bem menos cachorro na prática do que ser “músico”. Para mim e para o Tourco, bastavam uma cervejinha di grátis na mão e um som potente para acharmos tudo de bom. Grana nem vinha ao caso, pois o lance era botar som mesmo e foda-se. Mas o cara tinha planos mais ambiciosos: ele queria fazer uma grande festa itinerante, com uma equipe de som, DJs, segurança e decoração fixos. E iria rolar uma graninha! O único porém – o maior! – era que o tal queria invadir o Interior do nosso Estado, com a promessa de receber apoio de “políticos locais”. Isso não tinha como dar certo...

Na noite de uma sexta-feira qualquer de 2001, rolou a primeira festinha de trance na Fazenda Camping Barra do Jucu, com o homem-rave Pablo trazendo tudo de Arraial d’Ajuda. Foi bacana, umas cento e poucas cabeças dançando animadamente. Já às 10 da manhã de sábado, ainda na Barra, não daria tempo para dormirmos, pois o busão-com-ar-condicionado, prometido pelo cara das festas do Interior, estaria de prontidão naquele horário para levar a trupe toda ao primeiro destino desta Thrash Mistery Tour: a cidade de Guaçuí! Teria público lá para ouvir nosso som? O cara falou que a divulgação estava bombando por lá há semanas, e que todo mundo da cidade iria à festa, pois se tratava da única opção daquela noite (Vitória muitas vezes age como se também fosse assim...). A caranga atrasou pra caralho e, quando adentrou às nossas vistas, revelou-se uma enorme charrete motorizada, de cadeiras todas fodidas e arriadas, com aquele cheiro maravilhoso de cachorro molhado impregnado pelo ar. Foram cinco horas tomando sol na moleira e sacudindo dentro daquela fedentina. Lindo!

O tal cara da festa já foi segurança noturno e, como “dono” do evento em questão, colocou na fita seus chapas de terno-e-gravata para trabalharem com ele. Deveriam ter uns 20 no ônibus. “Será que o povo de Guaçuí é tão selvagem assim, para necessitar de tantos armários?”, pensei com meus botões. Estragados da noite anterior, eu e o Tourco ainda tínhamos que respirar o cheiro constante daquele baseado prensado (em mijo???) que a galera da decoração fumava o tempo inteiro. Conversa vai, conversa vem, e o Tourco lembrou de uma bela noite em que ele viajara como técnico de som da banda Símios para a mesma cidade. As lembranças dele eram terríveis! Para piorar os nossos presságios, o sol forte e incessante deu espaço a um dilúvio/ciclone na última parte da viagem (entre Alegre e Guaçuí), que quase jogou nossa lata-de-lixo-ambulante ribanceira abaixo. Depois do susto, finalmente chegamos ao nosso destino!

A cidade de Guaçuí parecia ter recebido a visita de um furacão: árvores partidas, postes dependurados, poças, lama, enfim, estava era uma merda total. O pessoal que chegou antes à cidade, para montar e divulgar a festa, estava aos prantos, pois havia caído água sobre a mesa de som e toda a decoração pré-montada tinha voado com o vento. Haviam nos prometido também um hotel e, de fato, havia um (péssimo) para nós, naquele esquema de uns cinco dentro de um quarto para uma pessoa – a intenção de descansar um pouco foi eliminada sem dó. E existia um grave impasse instalado: rolaria ou não a festa? O dono da coisa toda tentava a todo custo tomar uma solução, até que voltou com a notícia de que conseguira um local ótimo e que o evento rolaria de qualquer jeito. Vamos botar som, porra!!!

O local ótimo ficava num galpão quente, fechado e horroroso (com paredes pretas?!?), no alto do morro onde existe um Cristo Redentor capixabasso. O som de lá era horrível, e parecia que não era ligado há séculos. Eis que entraram em cena o Técnico de Som (Tourco) e o dono do barraco, um coroa cabeludão com cara de Hell’s Angel: o auto intitulado DJ Vovô. Ele era muito gente fina e ofereceu o possível para ajudar o Tourco a fazer milagre naquela aparelhagem cheia de teias de aranha e de outros insetos de procedência desconhecida. O som saía meio distorcido, mas dava pro gasto. A galera da decoração começou a esticar os cordões fluorescentes, e os 20 seguranças já estavam a postos. Mas havia algo muito de errado pairando no ar.

O primeiro sinal de que aquilo tudo estava muito esquisito foi quando vi um dos caras da decoração negociando pó com um figura no bar externo. “Porra, aqui deve ser o único lugar que vende cocaína nesta cidade!”, pensei. Depois, as peças começaram a se encaixar. Imaginem um bando de malucos de dreadlocks, tatuagens e piercings cuspindo fogo e praticando malabares no meio da rua de uma cidade do Interior, com uma peruinha tocando um trance pesadão na maior altura, e com a arte dos flyers e cartazes estampando a imagem de uma mulher semi-nua e de cinta-liga, com os seguintes dizeres: “Sucubus: Uma Noite de Prazer e Sedução”. Esta era a divulgação que fizeram semanas antes. Não sei como não foram presos... E, para piorar, o tal do galpão onde a festa foi improvisada tratava-se de um puteiro - o único - da cidade de Guaçuí!

A praça central da cidade estava lotada, mas ninguém ali se atreveria a subir o morro para a nossa festa. Nem o Cristo Redentor (aquele, o capixabasso...) salvaria a nossa roubada! Acabou que tocamos assim mesmo, para algumas putas, uns traficantes, a galera da decoração (que fumava o bagulho mais fedorento que já vi, e cheirava o tempo inteiro uma parada marrom – eu hein!), e os indefectíveis 20 seguranças. Não rolou hotel para descansarmos, fomos embora virados de dois dias, com o sol batendo forte na cabeça novamente, com o cheiro do bagulho mais horroroso da história, com as cadeiras-cachorro-molhado balançando horrores, e com os 20 seguranças comentando em voz alta coisas tipo “a festa estava uma merda, mas os DJs eram piores ainda!”. Os planos do dono da bagaça incluíam invasões posteriores a cidades como Linhares, São Mateus, Ecoporanga, Barra de São Francisco, entre outras improváveis opções. Pergunte se rolou mais alguma festa dessas?!? Grana no nosso bolso, então, só em sonho... ou pesadelo! E tome roubada!