Terça-feira, Agosto 11, 2009

THE FLAME JOB 2.0



Como tudo nesta vida, há momentos de renovação. Este blogg vai pro brejo e dá lugar ao THE FLAME JOB 2.0

Mais atualizações e compartilhamento de opiniões com um grupo seleto de amigos. Conto com suas presenças!

VALEU!

Quinta-feira, Abril 23, 2009

O Rio Assoreado da Internet



A febre do Twitter finalmente está batendo no Brasil. Agora é extremamente demodé perder seu tempo postando em bloggs comuns. O grande lance é se ater aos 160 caracteres máximos permitidos e ter milhares de "seguidores" de seus recadinhos. Mais um instrumento de socialização virtual (mais fantástico ainda para o marketing viral e como fonte de informação superficial e instantânea para o jornalismo) que se propaga tal qual um vírus incontrolável. E, mais uma vez, tenho a sensação de que quanto mais conteúdo você tem disponível ao clique de um mouse, menos gente quer perder seu tempo se aprofundando nesta mesma busca pelo conteúdo. As pessoas têm menos a dizer em seus espaços virtuais. Portanto, veio alguém e disponibilizou um site onde você não precisa se aprofundar em nada com seus "textos". Por isso que este blogg aqui onde escrevo pode estar "fora de linha" daqui uns dois anos, no máximo - já o está para os hipsters de plantão, é bom salientar.

Coisa parecida rola com a forma de buscar música na internet. Foi decretado recentemente que programas como E-mule e Soulseek estão "out". A onda de uns tempos pra cá são os bloggs de downloads. Realmente é mais fácil você clicar no link, baixar o disco e pronto, ao invés de esperar o dono de tal disco se conectar ou depender do humor de vários usuários ao mesmo tempo. Mas em bloggs não dá para baixar vários discos de uma vez (se forem hospedados em servidores diferentes, rola). Tudo bem, ao menos você economiza seu tempo de pesquisa sem perder longos minutos lendo texto, pois raramente estes bloggs disponibilizam mais informações sobre o que você está baixando do que tags ao fim de cada post. Pois é: "economiza seu tempo de pesquisa". Uma das coisas mais fantásticas da internet é a sua teia ("web") de informações interconectadas, onde você vai pesquisando e encontrado novos conteúdos infinitamente. Mas estão querendo "facilitar sua vida" oferecendo menos obstáculos para que uma informação específica esteja diretamente ao seu alcance. A tendência é estes programas tipo Emule caírem em desuso. Eu mesmo não estou conseguindo mais encontrar tanto som obscuro no Soulseek como antes.


Meu programa preferido para downloads está com os dias contatos?

No caso específico da música, dissemina-se nestes bloggs a novidade/hype quase sempre, salvo os óbvios clássicos já manjados. É muito difícil encontrar o que era alternativo datado de pelo menos 10 anos pra trás. E li recentemente que - pasmem! - a taxa de downloads de música na Europa e nos EUA caiu pela primeira vez na história em 2008. O que aumentou foram os streamings - leia-se: rádios virtuais e adjacentes, onde ninguém salva nada no computador. São canais que "pesquisam" para você, encurtando novamente seu tempo perdido com isso sem ter de ocupar seu HD com músicas que você esquecerá após 30 segundos de audição. Parece que quanto maior o conteúdo disponível na internet, mais segmentados estão se tornando os canais mais acessados. Estão criando um mainstream no único meio de comunicação de massa verdadeiramente bilateral (multilateral, eu diria) que o ser humano possui e as pessoas nem estão percebendo isso. A conseqüência disto é que as massas parecem consumir informação com mais superficialidade do que em outros tempos, ainda mais se levarmos em conta a relação proporcional ao conteúdo disponível.

Entenda-se como mainstream o universo unilateral onde a cultura de massas se desenvolveu na era pré-internet. O que as massas consumiam era decidido por grandes corporações que determinavam o que era exibido em rádios, televisão, cinema, etc, financiando um sistema viciado em fórmulas pré-estabelecidas, e excludente em relação ao que fugisse do lugar-comum. A internet, teoricamente, veio para acabar com este sistema, vide a falência da indústria fonográfica dominante de outrora. Agora você escolhe o que vai ver e ouvir. As tais gravadoras falidas tentam coibir isso com processos judiciais e taxando os internautas como criminosos. Burras. Nem se dão conta de que estão fortalecendo os criadores destas mesmas ferramentas de distribuição e escolha de conteúdo pela internet que tanto combatem. Mudam os meios, mas as práticas parecem ser as mesmas. Por conta disso, gerações atuais consomem mais volume de conteúdo que antes, porém com maior segmentação. E nem se dão conta de que estão sendo induzidas a freqüentar determinados caminhos pré-estabelecidos, deixando de lado todo o potencial de informação que a internet lhes propicia.

Espertos são aqueles que ganham dinheiro criando estas ferramentas virtuais. Isto toma proporções mais heróicas ao nos darmos conta de que tais ferramentas são de utilização gratuita. Sábios são aqueles que se beneficiam diretamente com estas mesmas ferramentas sem utilizá-las de forma tão somente para a auto-promoção junto aos seus 175.888 "amigos virtuais". Entendo sim como benefício a ampla gama de conseguir conteúdo na web, baixar músicas específicas de forma mais facilitada, de poder usar as citadas ferramentas gratuitas para o uso profissional e de relacionamento saudável com as pessoas. Ingênuos talvez sejam aqueles que já cresceram tendo a internet em casa como algo tão banal quanto uma TV Globo na sua sala, e que expõem sem critério algum suas vidas em perfis virtuais, baixam muita música somente de determinados canais segmentados e que pouco ou nada fazem para ampliar o conhecimento sobre o mundo em que vivem além de uns cliques no wikipedia. Parece que temos um Rio Amazonas de informação com incontáveis afluentes abastecendo o seu percurso a partir da tela do computador. Porém, cada vez mais gente prefere - ou nem sabe como fazer diferente - nadar neste mesmo rio gigantesco com a água na canela, usufruindo apenas de uma profundidade rasa e assoreada, lotada de bancos de areia surgindo como atalhos para não cansar muito de bater os braços e as pernas.

Terça-feira, Março 03, 2009

Start 2009

Mal o ano começou e já tem muita coisa boa rolando no terreno musical. Alguns sons aí foram lançados no fim de 2008, mas valem ser citados. Eis aqui uma seleção do que anda fazendo minha cabeça no momento:



Revolting Cocks

Axl Rose deveria ter dado uma ouvidinha neste disco antes de lançar o "Chinese Democracy" e sua truncada mistura de hard rock com música eletrônica. Comparação um tanto quanto maluca, mas é por aí mesmo: quer um disco de industrial com pegada totalmente rock and roll, sexista e escrota? Então esqueca do sonho megalômalo do cara do Guns'n'Roses e caia dentro na onda destes aloprados do Revolting Cocks. O que antes era um projeto paralelo de Al Jourgensen (Ministry), Luck Van Acker (Mussolini Headkick) e Richard 23 (Front 242) criado em 1985 e que sempre contou com uma penca de convidados a cada lançamento, agora parece ser a banda principal de Jourgensen após o fim do Ministry. E seus novos companheiros fixos (além do tradicional entra-e-sai de convidados) de esbórnia cyberpunk-hard-rock-industrial-disco-dance Josh Bradford (vocais), Sin Quirin (guitarra)e Clayton Worbeck (programações) cometeram um discaço agora em 2009. "Sex-O-Olympic-O" facilmente se coloca entre os melhores lançamentos com a marca de Jourgensen (inclua aí os discos e EPs do Lard e do Pailhead e também os clássicos do Ministry) e possivelmente também como o melhor disco do RevCo. A fórmula disco-industrial sacana dos álbuns lançados nos anos 80 e 90 ficou pra trás, mantendo-se somente o clima de tiração de sarro de outrora. Senão, o que dizer de faixas com nomes como "I'm Not Gay", "Touch Screen" (eles certamente não estão falando de um iPhone...) e "Lewd Ferrigno" (sim, uma corruptela com o nome daquele ator gigante que fazia o Incrível Hulk da TV) se não uma gozação atrás da outra? Eles ainda pegam pesado nas guitarras roqueiras e refrões memoráveis, daqueles pra cantar numa festa com todo mundo chapado babando cerveja. Manja a versão do T-Rex que o Ministry gravou em "Cover Up"? É nesta onda! Entre os destaques, temos o peso travadão de "Keys To The City", o refrão totalmente glam de "Cousins", o riff hard rock sujão de "Red Parrot" e seu refrão sleaze pra caralho, com direito até uma gaita e pianinho meio Little Richard no fundo. Mas, na boa, o disco inteiro é foda! Nesta onda de misturar putaria com rock and roll, hard, metal e industrial eu não conheço ninguém que ouse nesta mistura além do RevCo. Portanto, baixa essa porra!



O simpatico figura da foto acima é o responsável pela banda de EBM (electronic body music) mais fodona da atualidade. Verdadeira febre entre góticos e cyberpunks, o Combichrist surgiu como um projeto paralelo de Andy LaPlegua, então vocalista do Icon of Coil, um dos grandes nomes do futurepop ao lado de Apoptygma Berzerk e Covenant. Ao invés de melodias neo trance e batidas dançantes estilo rave típicos do futurepop, o pesadelo cibernético do Combichrist parece ter se tornado muito maior do que a então banda principal de Andy, que inclusive deixou o Icon of Coil na geladeira por tempo indeterminado. "Today We Are All Demons" surge como um típico disco do Combichrist: batidas eletrônicas retas e pesadas soando como um martelo batendo numa bigorna, BPM invariavelmente mais travado (raramente passa dos 125), vocais agressivos e aquele clima perfeito para ilustrar as cenas de pancadaria de um filme como "O Clube da Luta". Ou seja: sem aquela frescurada neo gótica melodiosa que tem assolado a EBM nos últimos anos.


Videoclipe oficial de "Sent To Destroy"

O disco em questão exibe pedradas animalescas com refrões prontos para o grito de guerra nas pistas de dança mais obscuras do planeta. "All Pain Is Gone", "I Want Your Blood", "Can't Change The Beat" (esta, com influência certeira de Front 242 fase "Tyrrany For You"), "Sent To Destroy" (o primeiro single, destoando por ser um pouco mais acelerada) e "Get Out Of My Head" se candidatam prontamente a novos hinos ao lado das já mega-clássicas "Get Your Body Beat", "This Shit Will Fuck You Up", "Electroheads" e "Sex, Drogen & Industrial". Longe de sua fórmula demonstrar sinais de desgaste, o Combichrist deixa seus adversários lá pra trás, jogando influências de techno e fazendo referência à EBM clássica a todo momento sem soar datado. Alguns downloads por aí inclusive vêm com um disco-bônus inteiro de faixas instrumentais com uma pegada techno/minimal de primeira, o que reforça o lado evolutivo da banda. Esqueça os rótulos de TBM (terror body music) ou hellectro: o Combichrist está muito acima desta galera que acha que é só colocar um batidão dark trance ao fundo com um mané gritando coisas sem qualquer rastro de melodia ou refrão e achar que vai apavorar por aí.

Caramba, mais uma resenha do KMFDM neste blogg? Prometi a mim mesmo que não cairia na repetição, e por isso traço breves comentários: "Blitz" é um discaço! Começa com um supreendente batidão drum'n'bass ("Symbol") pra depois cair na pancadaria movida a riffs de guitarra, passa pelo beat travado do EBM com os vocais cada vez mais presentes da gatíssima Lucia Cifarelli ("Bait and Switch", "Never Say Never"), e acaba revelando mais um possível hit grudento da banda em sua fase mais recente ("Strut", pop pra caralho no refrão, com Lucia dominando tudo de vez, fazendo time com as já clássicas "Proffessional Killer", "Looking For Strange" e "From Here On Out"). Vai fundo que é tiro certo mais uma vez!

Poucas bandas quando promovem mudanças radicais na sonoridade que as consagraram alcançam êxitos maiores ou equivalentes tanto para os fãs quanto comercialmente. Este parece ser o caso do Apoptygma Berzerk, que saiu do típico futurepop ao qual eram tão comumente associados e mergulharam num mix de synthpop com bateria e guitarras de verdade e muita, mas muita melodia grudenta no disco "You And Me Against The World". É fato que os caras exageraram um tanto na sacarose naquele disco, mas mantêm-se firmes e fortes nesta nova fase, conquistando novos fãs a todo momento e vendendo muito mais. Dito isso, "Rocket Science" evolui nesta fórmula e apresenta faixas excelentes como "Weight Of World" (bem synthpop), "Asleep or Awake" (bem goth rock), "Green Queen" (bem rock) "Incompatible" (bem dark) e "Shadow" (bem... Depeche Mode!), todas boas pa cantar junto. Já nas demais, cuidado: franjas emo podem simpatizar com a banda e aí fudeu...

Electro-rock-e-outras-esquisitices



Os bons tempos de "Smack My Bitch Up" e "Poison" estão de volta? Não sei bem ao certo... A verdade é que o tão aguardado novo disco do Prodigy, "Invaders Must Die", aposta nas glórias já conquistadas em mega-clássicos como "The Prodigy Experience", "Music For Jilted Generation" e "Fat Of The Land" (um dos discos que mais ouvi na vida) e lança mão de clichê atrás de clichê do que se espera do combo liderado por Liam Howlett. Ele inclusive chamou de volta o rastafari dos infernos (Maxim) e o Bozo-malaco-pilhado (Keith Flint) para não ter erro: é aquele breakbeat hardcore com pegada roqueira, visceral pra caralho, do tipo que incita uma pancadaria na pista de dança, toneladas de programações sujas e muita palavra de ordem para gritar junto. Me transportei para 1998! Porra, mexer com nostalgia é foda, ainda mais para uma época que, para mim pelo menos, foi muito marcante pra minha vida. Mas depois de botar Take Me To The Hospital no talo, foda-se o resto: meu sangue ferveu nas veias! Só que nada tira da minha mente que o Prodigy virou os Stones da música eletrônica, deixando de tentar reinventar a roda e lançando discos que, daqui pra frente, vão somente remeter aos tempos áureos.

Ano passado eu quase não ouvi rock. Meu cérebro parece ter sido formatado tal qual o HD de um robô em curto-circuito. Não nego minha total predileção por este universo musical em particular, mas a verdade é que, pelo menos para meu gosto pessoal, o ano de 2008 foi excepcionalmente bom na música eletrônica. E particularmente mergulhei fundo no som de bandas de electro-rock, maximal e neo-synthpop de gente como The Presets, The Whip, The Faint, Friendly Fires, entre muitos outros que, por falta de tempo e de fôlego, não resenhei por aqui, mas que sobre estes você pode ler fartamente em bloggs indies diversos por aí. Entre um dos destaques saídos do forno no finzinho de 2008 está o ótimo disco "Hot Robot", do Golden Bug. Electro-rock, breaks, neo-disco, electro e muito groove com BPMs médios (entre 120 e 130), bom para sacudir qualquer festinha bacana. Um dos melhores discos do gênero dos últimos anos e pouco ou nada hypado por aí.


Amigos do Jason: MSTRKRFT

É impressionante como todo equalquer artista da música eletrônica vindo da França paga pedágio ao Daft Punk! A sonoridade que mescla electro do fim dos 70' e começo dos 80', grooves robóticos, climas vintage, vocoders e BPM moderado ecoa em praticamente todas as produções vindas da terra da baguete e do roquenford. Este é o caso do Yuksek, que lançou o ótimo "Away From The Sea" no começo deste ano. Um tanto quanto mais pop, é verdade, mas igualmente irresistível o som deste moleque francês. Agora, se você curte uma pedrada maximal lotada de barulhinhos que parecem ter vindo de um Atari dando pau, "Mad Kit", novo álbum do DAT Politics é a sua trilha sonora! E tome aqueles sintetizadores rasgados, quase como som de guitarra, acompanhando uma batida seca e pesada, tudo isso com muitos barulhinhos eletrônicos malucos acompanhando. Coisa para robô dar pau na pista de dança - divertido pra caramba! Tão divertido quanto carregado em aura hype é o que você sempre pode esperar do som do MSTRKRFT. Eles sim fazem os sintetizadores rugir como guitarras raivosas, são meio que os pais desta mistura maximalista da música eletrônica nem um pouco afeita a sutilezas e ainda jogam nela climinhas de seriado de TV americano dos anos 70/80 (tipo "Os Gatões", "Duro Na Queda" ou "o Incrível Hulk"). O disco novo, "Fist of God", vai fundo na repetição desta fórmula que os consagrou, e já demonstra sinais de cansaço. Óbvio que sobra diversão numa pista de dança ao som da músicas novas. Mas, tanta badalação em cima de algo que eles próprios ajudaram a criar e massificar - a junção do universo indie com a música eletrônica como algo viável para uma dancefloor, parece ter minado a vontade de inovar destes caras. Divertido, mas com gosto de requentado.

Se é para requentar, que o faça bem feito! É o caso do We Are Standard, que lançou o disco homônimo no fim do ano passado, emulando o som que o Franz Ferdinand (e um tantinho também de LCD Soundsysntem) hypou ao mundo. Só que estes caras pegaram a fórmula prontinha (até refrões de parecem) e o fizeram de maneira mais divertida, eletrônica e dançante. Algo que parece ter sido a intenção do próprio Franz Ferdinand com o excelente "Tonight...", mas que eles acabaram mantendo um dos pés no chão antes de assumirem a balada-bombação de pista de dança de vez. Na boa, músicas fantásticas como "Bye Bye", "The First Girl Whow Got a Kiss Wthout a Kiss" (esta lembra as melhores músicas do ótimo VHS or Beta), "Don't Give Up" (com ótimo groove de baixo e percussão e um refrão leve e divertido que fica na mente por dias), "Other Lips, Other Kisses"... na verdade, teria de enumerar todas as faixas. É um daqueles cada vez mais raros álbuns bons do início ao fim, com oito faixas (mais um remix), enxuto e divertido pra cacete, tal qual devem ser os bons discos de música pop.

Para finalizar, uma banda indie esquisitona: Mt. Sims. Imagine o encontro das vozes de Lux Interior (The Cramps) e Nick Cave com o espectro soturno do Joy Division e uns climinhas noir produzidos por algum sintetizador vagabundo. O disco "Happy Ever After" é surpreendente, capaz de agradar góticos, electro-rockers, rockabillies e indies afeitos a estranhezas afins. Ótimo para ouvir numa garagem lotada de goteiras e morcegos no teto, bebendo vinho barato e, de preferência, sem este calor absurdo que anda fazendo nestes dias de março. Bom pra preparar o clima da sexta-feira 13 que se aproxima...

Se quer conferir estes sons electro-rock-e-não-sei-mais-o-quê, vá direto à fonte do Kalunga!

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Boa Viagem


foto by Kalunga

Eu sou da teoria de que a música eletrônica produzida para as pistas de dança - a dance music propriamente dita - deva ser reproduzida para as massas ao vivo em ambiente propício: numa pista de dança, seja ela um inferninho apertado com um globo girando, seja ela uma arena gigantesca com mil luzes e telões que produzam efeito entorpecente à mente para que esta deixe o corpo embarcar na viagem. Tais momentos não são feitos para refletir ou contemplar algo num palco, acredito eu. Por isso penso que a maior besteira do mundo que produtores de grandes eventos vez ou outra cometem é postar DJs em palcos enormes como se fossem uma banda. Eu já exprimi este ponto de vista em 2004 em outro blogg meu e minha opinião não mudou. A forma de comunicação de um DJ com seu público é completamente diferente de uma banda de rock, por exemplo. Ou o cara vai solar numa pick up de vinil ou agitar a galera falando ao microfone?

Dito isso, resolvi postar aqui alguns videoclipes de verdadeiros artesões do ritmo eletrônico dançante. Estes caras revolucionaram não só a música eletrônica, mas também transformaram seus videos em pequenas obras-primas audiovisuais. Como não há o formato tradicional da música pop a ser explorado (letras, refrão, solos, etc.), a criatividade é utilizada de forma extrema para contar suas histórias. Aproveite a viagem!

The Chemical Brothers - "Believe"



*A música, um electrão fodaço, dá o clima tenso necessário às imagens. Aliás, está pra nascer um video fraco desses caras...

Leftfield - "Afrika Shox"



*Este video chegou até a provocar polêmica na época por causa da "exploração" visual em cima da história do mendigo (Seu Jorge? Tricky? quem é este cara??).

Aphex Twin - "Come to Daddy"



*"Perturbador": rótulo comum à música e aos vídeos de Rchard D. James.

Underworld - "Dinossaur Adventure"



*Vídeos viajantes com imagens lúdicas viraram clichê na música eletrônica. Mas este aqui se supera em cima desta fórmula!


Fatboy Slim - "Push The Tempo"



*Sim, ele mesmo, o DJ mega-star gente fina e festeiro, que toca em Big Brother e até já deu o ar de sua graça aqui no Espírito Santo! Isso não desqualifica seu talento. Que o diga este breakbeat arrasa-quarteirão e seu vídeo absurdamente hilário!

Obviamente existem vários outros vídeos fantásticos, mas acho que deu para dar uma geral no que eu quis dizer neste post.

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

A Dicotomia Capixaba

Uma das definições da palavra “dicotomia”:

4. Lóg. Divisão lógica de um conceito em dois outros conceitos, em geral contrários, que lhe esgotam a extensão. Ex.: animal = vertebrado e invertebrado.


Esta foto que fiz, em preto e branco, para mim demonstra bem as dicotomias capixabas descritas a seguir

Escolhi esta definição para ilustrar a condição do capixaba diante do que ele próprio se abastece, consome, regurgita e volta para si mesmo num processo contínuo e, aparentemente (até quando?), interminável e do qual parece que nunca se livrará disso. Algo como um cachorro correndo atrás do próprio rabo, mordendo-o, se machucando, mas ainda assim continuando a fazer a mesma coisa, sempre. Eis aqui alguns aspectos que qualquer ser minimamente pensante nesta terra um dia já parou para avaliar na hora de pagar a conta por algum serviço prestado.

O Turismo

Em 2006, trabalhei como assessor de imprensa de um evento de turismo de nível nacional realizado no SESC de Guarapari. Além do triste fato de que os universitários capixabas eram os que mais queimavam o filme no congresso (chegavam bêbados nas palestras, eram os menos interessados em aprender alguma coisa, arrumavam brigas dentro do hotel, depredação de banheiros e quartos, etc.), travei contato com algumas autoridades nacionais do setor que tiveram o desprazer de perder seus fracionados minutos de sobra prestigiando o evento. Um dos diretores de uma das maiores redes hoteleiras do Brasil me confidenciou em off que o ES continha, até então, a maior taxa de ocupação de seus hotéis no País, só que durante os dias úteis. Ele também me disse que a média de consumo do “turista de negócios” por aqui era de R$ 360 por dia, dez vezes mais que o “turista comum”, de fim de semana e em alta temporada, que consumia R$ 35 diariamente, em média. O mesmo diretor da rede justificou o fato de não divulgar publicamente estes dados para não “desvalorizar o evento” (haviam outros motivos mais sérios dos quais não consegui arrancar do cara), ao mesmo tempo em que afirmava, também em off, que o “turista de negócios no ES não tem o que fazer fora do hotel onde se hospeda”. Em suma: ele quis poupar o capixaba de sua mediocridade diante de universitários e coordenadores de faculdades de turismo Brasil afora e também da mídia que cobria o congresso.

Ao ir embora do evento, de carona numa van fretada pela organização, fui conversando com um dos palestrantes mais qualificados do congresso (paulista, 12 livros lançados, fala cinco idiomas, etc.), que descreveu polidamente o capixaba como ligeiramente selvagem (ele chegou a interromper uma de suas palestras para reclamar do som alto que vinha de um carro com capixabas entornando vodka às 3h da tarde). Já a coordenadora de uma faculdade de turismo de Itabuna (BA, mas com o grosso do trabalho desenvolvido em Porto Seguro e vizinhança), que também estava na mesma van a caminho do aeroporto (nosso terminal aeroviário mereceria um post à parte) não se conteve e abriu o verbo: “eu nunca imaginaria o quanto o capixaba era sem educação, amador e indisciplinado! Vocês estão ferrados nas mãos dessa geração aí que participou do congresso!” – ela falava dos mesmos estudantes do carro com som alto e vodka à luz da tarde. A propósito, o mesmo congresso teve apenas esta edição realizada...

A Solução:

Não basta apenas reclamar, tem que participar!. Esta bravata surte pouquíssimos efeitos após algumas tentativas frustradas de mudar alguma coisa, mas vá lá: O ES precisa se profissionalizar em todos os setores de serviços, do ajudante de cozinha ao proprietário de uma rede de restaurantes. Porém, o turista que realmente gasta dinheiro por aqui raramente é percebido por nossa população, fazendo com que surjam pouquíssimas iniciativas de melhorar nossos serviços. Afinal de contas, este mesmo turista chega na segunda-feira e vai embora na sexta, ficando boa parte do tempo sob os serviços do próprio hotel, pois nem os taxistas sabem orientá-los sobre onde eles podem comer e beber bem, serem bem atendidos ou curtirem uma boa balada noturna. Enquanto isso, nós, capixabas, continuamos a pagar caro por um serviço de merda.

*PS: Ainda me surpreendo com gente daqui falando que o turismo do ES é “nota 10” e caindo na ilusão de pegar como referência a Praia da Bacutia, em Guarapari, como “turismo que dá certo”. Estar na Praia do Canto (Vitória) ou na Praia da Costa (Vila Velha) é basicamente o mesmo de estar na Bacutia no verão - entenda isso como quiser. O “turista de alto nível” de outros Estados passa longe daqui, vide o que já ouvi da boca de cariocas, belorizontinos e paulistanos sobre a nossa terra. Isso sem falar que para a maioria brasileira o ES é um traço nulo no mapa do Brasil (nem na previsão do tempo dos telejornais somos citados), e comprovei isso nas diversas vezes que tive de explicar aos paulistanos quando morei lá em 2004 que eu era capixaba (“o que é isso?, Índio?”), que era natural de Vitória (“Vitória da Conquista?”) e que o meu Estado também ficava na Região Sudeste (“tem certeza que não é no Nordeste? Não é do lado da Bahia? Então!”) Uma prova desta insignificância nacional pôde ser vista recentemente na “reportagem” da Revista da TAM sobre nossa querida capital e veiculada para todo o território brasileiro.

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O Custo de Vida

Já deu no noticiário: “O ES é o Estado com a maior taxa de crescimento do país atualmente”; “O custo de vida da capital do ES só perde, proporcionalmente ao poder de compra de sua população, à capital do Distrito Federal, Brasília”. Do progresso anunciado, a conta vem logo a seguir... Pois bem: o capixaba está pagando MUITO caro por uma prestação de serviços de merda. Não há como ser menos pragmático nesta afirmação. Nos últimos dois ou três anos, nosso Estado tem vivenciado um boom imobiliário em proporções talvez nunca antes vistas. Por exemplo, o preço do imóvel nos restritos metros quadrados que nossa Ilha-Capital tem disponíveis atingiu picos de valorização inéditos por aqui, fazendo com que grandes redes de imobiliárias de outros Estados como RJ e SP abrissem o olho grande para nossa terra. Isto gerou um efeito cascata, encarecendo o preço de praticamente tudo por aqui. Porém, muitos prédios novos que surgiram por aí contam com menos de 50% de taxa de ocupação por moradores, ficando a maior parte nas mãos de investidores que, de uns tempos pra cá, contam com apartamentos vazios à espera de quem os alugue ou compre por um preço abusivo. Seria o primeiro sintoma visível no setor em relação à tão falada crise econômica mundial?

Com os preços de imóveis e aluguéis em alta, o comércio supõe que há muita gente disposta a pagar caro por seus serviços. Portanto, também nos últimos dois ou três anos, Vitória (em particular) tem experimentado uma explosão de novos bares e restaurantes, todos se sentindo no direito de cobrarem preços abusivos em seus pratos e oferecendo um serviço de merda. O resultado pode ser visto por aí: estabelecimentos que fecham suas portas com nem um ano de vida. Devem existir uns dois ou três locais por aqui onde existe público de fato que se dispõe a pagar muito caro por seus serviços. Nos demais, criou-se a ilusão de que todo morador de Vitória vai querer pagar R$ 45 num prato a la carte (só o prato, sem incluir entrada, bebida, sobremesa e os 10%) ou R$ 40 pelo kg de um self service. O capixaba atualmente está numa moda de adorar se sentir VIP, tirar onda de ver e ser visto em locais caros. Se tivesse tanta gente com grana assim por aqui, os mesmos bares, restaurantes e casas noturnas não amargariam mesas vazias a partir da segunda quinzena do mês, quando o salário de todo mundo começa a rarear – ué, quem tem grana mesmo não vai ficar contando salário no final do mês, certo?

A Solução:

Que a crise econômica mundial bata com força no ES, diminua o poder de compra dos investidores e, finalmente, que faça baixar os preços de produtos e serviços de merda capixabas, deixando aqueles poucos de sempre cobrarem os olhos da cara para quem realmente tem bala na agulha para gastar. Só que com os preços caindo novamente, a prestação dos serviços de merda tende a piorar o que já é péssimo...

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Os Serviços de Merda

Capixaba paga caro para comer mal e beber mal, além de ser pessimamente atendido. Ponto. Aqui é terra de bar (pseudo) chique concorrer – e ganhar! – concurso de “melhor boteco”. Aqui é terra de beber cerveja quente (só os botecões de verdade - e que não concorrem a premiação alguma - é que servem cerveja no ponto). Aqui é terra de garçons fingirem que não o viram. Aqui é terra de donos de bares/restaurantes desqualificarem a reclamação justa de um consumidor feita num jornal de grande circulação ao invés de seguirem regras básicas de mercado (admitir o erro, convidar o reclamante a voltar ao estabelecimento para desfazer a má impressão, treinar melhor seus funcionários, etc.), pois sabem que o mesmo cidadão voltará ao local “por falta de opção”. Aqui é terra de chegar na melhor parte de uma saída à noite, quando a cerveja começa a bater e a conversa fica animada, e o garçon chegar a você com aquela infame e onipresente pergunta: “Vocês vão querer algo da cozinha? É porque em 10 minutos nós fecharemos a cozinha” - eles perguntam isso faltando 10 minutos sabendo que ninguém vai pedir algo que fique pronto em tão pouco tempo. Isso por volta de meia-noite, 1h da manhã, no máximo. Aqui todos os bares procuram se concentrar num só trecho de uma só rua de um só bairro de uma só cidade – atrever-se a sair do miolo de sempre é fracasso na certa, mesmo sendo na esquina ao lado. Aqui os bares ficam às moscas a partir de 1h30, sendo que depois desse horário é difícil até de pegar táxi pra voltar pra casa. Aqui a conta é cara, mas o serviço é de merda. Ponto novamente.

A Solução:

Eliminar toda a população capixaba atual e fazer renascer uma nova geração livre de vícios provincianos e dotada de um senso crítico minimamente exigente.

PS: Todos nós somos culpados, pois continuamos a pagar pelo serviço de merda, dando sustento a isso. Eu sou culpado, você é culpado. “Não há opção e temos que nos contentar com o que temos em mãos ou vazemos daqui!” – este é um bom argumento. Eu já vazei e já voltei. Sobre o atendimento, minha casa e as dos meus amigos possuem o melhor acolhimento para uma boa conversa regada a boa bebida e boa comida. Se optar por sair de casa, tenho de me preparar psicologicamente para engolir o serviço de merda. É triste. É real.

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A Cultura Capixaba

Não discutirei mais sobre isso enquanto tudo o que for produzido aqui levar a pecha provinciana de “capixaba” a tiracolo (“música capixaba”, “bodyboarder capixaba”, “atleta capixaba”, “economista capixaba”, “ator capixaba”, "assassino capixaba" – a lista é infinita). Alguém aí já ouviu um paulista se auto denominar “músico paulista”? O que seria um "ator carioca"??? Quando você lê sobre "música mineira", fala-se sobre algo bem regional e restrito às tradições de um lugar, certo? Aqui é "música capixaba" para banda de reggae, forró, rock, metal, jazz, idem para a cultura, os atletas, os profissionais, as tragédias, os assassinos... Como se fosse uma etiqueta para denominar algo que só é feito (desta forma) no ES. Ou seja: mal feito? Quem daqui que realmente faz algo que presta certamente não sai Brasil afora bradando a bandeira azul e rosa capixaba como se fosse a única muleta para se apoiar. Se um povo continua se inebriando com tal rótulo pra tudo e ainda tem a necessidade de se auto afirmar pra tudo é porque tudo está errado, penso eu.

A Solução:

Hein?!?

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O mesmo momento registrado no início do texto, desta vez com a foto colorida. Pouca coisa muda...

Considerações finais:

Um desavisado que não me conheça pessoalmente pode ficar ofendido com o meu texto. Vai pensar: “se esse babaca reclama tanto, porque ele não vaza daqui ou faz algo para mudar?”. Já fiz as duas coisas. Cansei. Estou prestes a fazer 33 anos, estou bem comigo mesmo e não quero levantar bandeira contra o conformismo e a inércia capixabas e tentar mudar alguma coisa para, no final, acabar sendo crucificado tal qual (olha a idade que estou chegando!) um Jesus Cristo pregado na Cruz do Papa. Me tornei uma pessoa mais fechada e egoísta, admito. A propósito, alguém aí já viu um espaço tão grande quanto mal aproveitado como aquele onde a famigerada "cruz do Papa" está fincada?!? Aquela cruz está mais para caveira de burro!

*Extras: Como num DVD que você alugou e se arrependeu amargamente de ter perdido seu tempo assistindo-o e, mais masoquista impossível, foi conferir os extras assim mesmo, este texto ainda traz mais um bônus sobre mais um capítulo de nossa triste história de prestação de serviços vs. crescimento econômico. Por favor, acesse a página do OI Velox do Rio de Janeiro e compare os preços de conexão de internet banda larga com os cobrados para o capixaba. Eu pago R$ 69,90 por uma conexão de 300 kbps (minha promoção de R$ 39,90 acabou há meses). Na capital carioca, este mesmo valor cobre uma conexão de 1 mega - se eu quiser esta velocidade aqui no ES terei de desembolsar absurdos R$ 159,00 por mês! Quase três vezes mais. Para nos deixar ainda mais tristes, é bom lembrar que os serviços de conexão de 300, 600 e 800 kpbs inexistem para os cariocas, que contam apenas com velocidades de 1 mega pra cima. Tais discrepâncias dizem muito sobre a verdadeira evolução econômica de nosso Estado.

Quinta-feira, Dezembro 18, 2008

Pay Per View

Eu bem que tento baixar tudo o que desejo ter. Porém, existem alguns itens que simplesmente não consegui achar na rede. Então, recorri ao velho expediente de encomendar tais DVDs numa loja virtual. Sou fã destas três bandas que falarei logo a seguir, e me permiti ao luxo de desembolsar um dinheirinho para ter o produto original em casa e passar por aquela gostosa expectativa de conferir o andamento do pedido no site, ficar ligado nas Kombis ou motos amarelinhas do Sedex, para depois abrir a caixa da encomenda, estourar as bolinhas daquele plástico utilizado para proteger o produto... e me deleitar no sofá de casa assistindo os tais vídeos.

KMFDM – “World War III Tour



O divertido e original combo metal-industrial-techno criado e comandado pelo alemão Sacha Konietzko há 25 anos apareceu na mídia nos últimos tempos pelos motivos errados: aqueles dois garotos idiotas cuja história foi retratada no documentário “Tiros em Columbine” praticaram seus assassinatos em série, segundo a mídia sensacionalista, influenciados pelas letras do KMFDM, banda da qual eram fãs (na verdade, a mídia marrom da época deve ter achado a banda underground demais e escolheu primeiramente Marylin Manson como bode espiatório, pois o mesmo artista citava o KMFDM como influência). Outros imbecis resolveram se inspirar no episódio de Columbine e andaram executando pessoas em colégios/faculdades mundo afora. Muito se falou das letras do KMFDM, que eram violentas ou belicistas, ou pior, que os caras eram nazistas! O próprio Sacha Konietzko teve de vir a público para explicar-se, com se algo tivesse de ser esclarecido por causa da demência alheia, pois tais acusações eram completamente infundadas. Dito isso, talvez a energia do álbum “WWIII”, lançado em 2003, tivesse sido contagiada por estes episódios, pois a banda nunca soou tão política, crítica e pesada em seu som.



Pois é a turnê deste disco marcante que “WWIII Tour” retrata. Antes que se pense em caras sisudos e mal humorados, vociferando contra George Bush e revoltados pela associação com serial killers adolescentes e nazistas, os integrantes do KMFDM são pessoas “normais”, brincalhonas e bem humoradas, em contraste com a pancadaria fenomenal que eles provocam em cima do palco. Portanto, este DVD é um presente para os fãs, com muitas cenas de bastidores, videoclipes exclusivos e um monte de coisas mais (links p/ internet, fotos, press kit, credenciais, etc.). Ou seja: Sacha e cia. apenas mostraram-se como o são de verdade, calando a boca de embalistas preconceituosos e deleitando os admiradores de uma das mais bacanas misturas de rock pesado com eletrônica que se tem notícia.


A vocalista Lucia Cifarelli em foto atual

Sobre o que mais interessa, o show ao vivo, o KMFDM destrói! A sonoridade é executada à perfeição no palco, incluindo efeitos de voz, samples, sintetizadores e a tradicional rifferama de guitarras. A abertura do show, com a faixa título do disco que dá nome ao DVD, é simplesmente animal! “From Here On Out” vem na seqüência, com a vocalista Lucia Cifarelli largando os backing vocals e sintetizadores e assumindo a linha de frente com muita sensualidade e presença de palco. Ela realmente rouba o show quando comanda a situação. O visual de Lucia e sua roupa colante de látex, além dela ser uma tremenda gata e cantar muito, parece ter saído de algum HQ dos X-Men – tudo a ver com a banda, pois as capas de todos os seus discos possuem temática de quadrinhos. Aliás, o visual atípico dos caras em relação ao que se espera de uma formação vinda do cenário industrial (um dos guitarristas usa até um infame boné!) talvez possa decepcionar os neófitos de plantão, tão acostumados com bandas maquiadas e de figurinos impecáveis. Com exceção de Lucia, do moicano de Sacha Konietzko e o estilo glam-cowboy do convidado e membro honorário Raymond Watts (da banda-irmã PIG), os outros caras parecem mesmo que tocam no Social Distortion! Voltando ao show, o repertório obviamente é centrado no (ótimo) disco lançado em 2003, mas alguns clássicos como “Light”, “A Drug Against War” e “Juke Joint Jezebel” (esta, encerrando de forma apoteótica a apresentação) são tocados com fúria e perfeição. Se você é fã, vale cada centavo investido. Se você apenas gosta de uma música ou outra da banda, vai acabar virando fã ao ver o show.

My Life With The Thrill Kill Kult – “Kult Kollection”



Se o papo é de fã para fã, este DVD do My Life With The Thrill Kill Kult é para amantes hardcore da banda! Grupo underground formado em Chigago ( EUA), berço do rock industrial yankee, o Kill Kult reuniu todos os seus vídeos (com exceção do material produzido de seu disco mais recente , lançado ano passado) num só DVD, recheando o espaço que sobrou (muito, diga-se) com uma apresentação ao vivo. O mix de rock industrial com vozes femininas lascivas e climas noir está muito bem representado nos clássicos videoclipes de “Sex On Wheelz” (com aquele clima cabaré estilo puteiro de Sin City), “Sexplosion” (em preto-e-branco, noir total) e “Kooler Than Jesus” (ótima colagem de imagens de santos católicos e putaria, dando efeito de stop motion) – produções simples com idéias idem, porém com resultados bem interessantes. Mas o resto dos vídeos, meu deus... Manja estudantes de comunicação filmando um videoclipe após muita fumaça na cabeça? É daí pra pior! Tudo bem que o Kill Kult nunca foi uma banda grande ao ponto de possuir verbas gordas para seus clipes. Mas vídeos como os de “Dope Doll Jungle”, “Blue Buddha” e “Hard, Fast & Beautiful” parecem ter sido feitos de gozação, tamanho o amadorismo e o nonsense das cenas! É trash mesmo e escrevo isso sem pestanejar! São alguns dos piores videoclipes que eu já vi, e talvez por isso mesmo possa ser divertido de assisti-los após litros de cerveja... “O DVD então é uma porcaria?”, alguém poderia perguntar. Não mesmo! Na verdade, as nove músicas gravadas ao vivo redimem o vexame provocado pela maioria dos videoclipes. O show foi registrado durante a turnê do excelente “Hit, Run & Hollyday” (o disco mais The B-52’s da banda), e a apresentação é ótima, com todo aquele clima noir e sensual realçado pelas vocalistas convidadas. Se você curte a banda mesmo vai tomar um susto com a tosqueira de boa parte dos videoclipes. Mas o material ao vivo compensa o choque. Se você não curte ou pouco se interessa pelo Kill Kult, passe longe.

*Este DVD não contém extra algum...

Meat Beat Manifesto – “In Dub: 5.1 Surround”



O inovador projeto eletrônico encabeçado pelo produtor musical Jack Dangers ganhou um registro audio-visual à altura da relevância de sua música. “In Dub: 5.1 Surround” é uma experiência única de assistir/ouvir. Trata-se de um ambicioso projeto desenvolvido junto com o respeitado videomaker Ben Stokes, onde áudio e vídeo estão conectados perfeitamente, numa mistura de sensações marcantes para quem puder usufruir deste produto em sua amplitude. As colagens visuais interagem-se com o som, com versões ainda mais pesadas e voltadas para o dub de várias faixas da banda (a maioria de “RUOK”), tudo produzido para rodar em sistemas de áudio 5.1 surround (daí o subtítulo do DVD). O sub-grave do som é de tremer o chão de sua sala, sendo que em vários momentos a própria imagem do DVD treme nas batidas mais pesadas (acredito que isto tenha sido intencional ou minha TV já está dando defeito, rsrsrsrs...). Como se trata de um produto incomum, não teremos aqui cenas de apresentações ao vivo (isto já foi muito bem registrado no DVD “Travelogue Live 05” – vi alguns trechos no You Tube e em breve vou encomendar este também), mas sim muita piração audiovisual, daquelas perfeitas para um dono de bar metido a moderno colocar em TVs de LCD e tirar onda de que comprou “um DVD muito louco na Europa”. Mas podemos esperar tudo, menos clichezões batidos quanto ao som – e também aos videos – do Meat Beat Manifesto. O máximo que o grupo chegou ao mainstream foi a inclusão do breakbeat animal de “Prime Audio Soup” na trilha sonora de “Matrix” (inclusive aparecendo em algumas das cenas mais marcantes do filme), e este DVD definitivamente não os colocará em vala-comum alguma. Vale ver e ouvir com a mente devidamente preparada e nas melhores condições possíveis, ou seja: com uma bela de uma TV e um bom sistema de som. Impressiona!

Terça-feira, Outubro 28, 2008

Don’t Mess With Texas!



Patrimônio histórico do Texas e uma das bandas mais singulares, divertidas e sacanas da história do rock and roll, o trio de barbudos ZZ Top finalmente lançou neste ano seu primeiro DVD contendo uma apresentação ao vivo. “Live From Texas” obviamente foi registrado em seu estado natal, na cidade de Dallas, com um show simplesmente sensacional. É impressionante a interação do trio com sua platéia, com a banda tocando como se estivesse num boteco de beira de estrada típico de filme americano, com garçonetes peitudas, caminhoneiros bêbados falando alto, hell’s angels arrumando confusão e chicanos de prontidão para lhes oferecer uma parada. Vendo o DVD, parece que a qualquer momento vão surgir da platéia Burt Reynolds e seus amigos – e amigas também – do filme “Agarre-me se Puderes”. Preste a atenção na platéia e verá que estes tipos ainda existem e urram de felicidade a cada canção tocada pelo trio - inclusive há até uns figuras portando barbas postiças! Mas não se engane com a comparação. O show é super produzido, com um trabalho irrepreensível no palco, algo como um Texas futurista, meio Galaxy Rangers, se é que você me entende... E o som! Puta que pariu! Se você tem um home theater (eu ainda não tenho), deve ser uma experiência áudio-visual alucinante. Mas nada disso seria relevante se a banda não for legal. Legal?!? Meu amigo, estamos falando de ZZ Top!



É impressionante a precisão, o feeling e a total interação entre Billy Gibbons (guitarra e vocal), Dusty Hill (baixo e vocal) e Frank Beard (bateria – curiosamente, o “Frank Barbudo” é o único que carrega a palavra “barba” no nome e ostenta apenas um discreto bigode, vai entender...). Também, são quase 40 anos tocando juntos sem mudanças na formação. E os caras se divertem pra caramba no palco, tocando apenas os três, sem backing vocals, teclados ou metais – essas coisas que tanto embregalham o rock and roll. O show do ZZ Top é como se eles estivessem se apresentando para seus amigos mais chegados – sendo a apresentação no Texas, nada mais natural, ainda que seja para umas 20 mil pessoas! Vendo o DVD – inclusive os extras, com um impagável jogo de pôquer entre os três (falo sobre isso mais à frente...) - dá para deduzir que Dusty Hill seria o cara sacana da banda (se bem que Gibbons não fica atrás neste quesito...), daqueles que te convidariam para tomar uma cerveja na sua mesa, apresentaria umas gostosas, enfim, te levaria pro mal caminho e para a diversão sem hora nem dia para acabar. E o barbudão ainda segura a onda com peso e groove nos momentos em que Billy Gibbons larga a base e parte para os solos. Dusty Hill é o quietão da banda, sério e compenetrado no palco, que vez ou outra dispara os dois bumbos ou algum efeito na batera. Mas dêem umas cervas pro cara que ele começa a te sacanear (vejam os extras...). E Billy Gibbons... bom, sou suspeito para falar de um dos meus guitarristas preferidos de todos os tempos. Cada riff, cada arpejo, cada deslizada no slide vindos das mãos calejadas deste texano gente fina são carregados do mais puro feeling e sem nenhuma embromação. É o rock and roll/boogie/blues/southern rock personificado num só ser humano. O timbre de suas guitarras (quase sempre uma Gibson customizada) e a sua forma de tocar são únicos e inacreditavelmente agradáveis de ouvir.



O repertório de “Live From Texas” é excelente, pois privilegia tanto os clássicos dos anos 70 quanto algumas músicas mais recentes, como a sensacional “Pin Cushion” (do quase industrial “Antenna”, 1993). O show começa quebrando tudo com a fantástica “Got Me Under Pressure” (de “Eliminator”, 1983, que foi o disco mais vendido da história da banda). “Waitin’ For The Bus” e “Jesus Left Chicago” vêm em seguida, fazendo a alegria deste que vos escreve, pois elas são do “Tres Hombres” (1973), o melhor disco da banda, na minha humilde opinião. Os clássicos vão sendo tocados com feeling e bom humor ao longo do show. Em “Just Got Paid” (de “Rio Grande Mud”, 1972), Billy Gibbons troca sua Gibson customizada por um modelo surradão da mesma marca. É um dos pontos altos do DVD, pois o guitarrista encaixa um slide no dedo e simplesmente destrói ao introduzir o riff animal desta música! E ele ainda improvisa novamente um slide malvadão no meio da canção, levando a platéia à exaustão. Falar dos destaques do resto do repertório é entrar na redundância do quanto ele é fantástico, mas não há como não chamar à atenção para a paulada de “Heard It On The X” (de “Fandango”, 1975 – sempre me vem à cabeça o Motorhead tocando esta música, não sei porquê...), a impagável “Legs” (novamente de “Eliminator”), quando Billy Gibbons e Dusty Hill tocam com instrumentos de pelúcia (só vendo para acreditar!), e o grand finale com as espetaculares “La Grange” e “Tush”, dois mega-clássicos de “Tres Hombres” e “Fandango”, respectivamente. “Live From Texas” vale cada centavo investido (saiu no Brasil!) e merece ser visto na companhia de seus melhores amigos regado a cerveja gelada e wisky de qualidade – um clichezão, mas absolutamente autêntico em se tratando de ZZ Top. Portanto, não mexa com o Texas!


Foto do ZZ Top da época do "Eliminator" (1983), que é o nome deste hot rod customizado do trio

EXTRAS:

Jogo de Pôquer: Eis que Billy Gibbons, Dusty Hill e Frank Beard resolvem contar a história da banda numa partida de pôquer regada a cerveja, cigarros, charutos e uma boa grana apostada. Em tempos de aquecimento global e outras empulhações caretas atuais, nada mais politicamente incorreto – contudo, nada mais autêntico vindo destes caras. O trio vai apostando e bebendo cerveja à medida que passagens marcantes e divertidas do ZZ Top vão sendo contadas por quem viveu aquilo na primeira pessoa. Lá pelas tantas, os caras meio que tiram um sarro dos Rolling Stones, com quem excursionaram nos anos 70 e, segundo diz a lenda, foram engolidos pela força do power trio texano. Em outro momento divertido, Dusty Hill sacanaeia a si próprios afirmando que “naqueles tempos o ZZ Top estava na moda”, ao comentar os altíssimos níveis de popularidade que o trio alcançou nos anos 80 sem abrir mão do seu visual atípico. Mas não vá esperando que Billy Gibbons dê pistas sobre a história da Fender rosa que ele ganhou de Jimi Hendrix, porque o cara não abre o jogo nem a pau!

*Não há legendas em português, apesar de o DVD ser nacional (pra variar, o pouco caso das gravadoras brasileiras...). Mas dá para entender o que os caras falam se você não manja de inglês ao optar por legendar em espanhol.


Foto dos primórdios, no começo dos 70's

O Dia do Show: apenas um making off do espetáculo, nada de mais.

Foxy Lady: Ah, isso sim é um presente! O ZZ Top tocando o clássico de Jimi Hendrix (O Deus e o Diabo encarnados juntos num músico!) com a pegada característica do trio. A versão ficou fodaça!

Observações:

Obviamente, com uma banda de quase 40 anos de carreira, ainda na ativa e que lança bons discos até hoje (“Recycler”, de 1990, talvez seja o único mais fraquinho), sempre haverá omissões sentidas no repertório de seus shows. Pois eu gostaria apenas que pelo menos uma do sensacional “Rythmeen” (1996) tivesse sido tocada, como as fantásticas “Bang Bang”, “Hairdresser”, “Hummbucking PT 2” ou mesmo a faixa-título. Eles também não tocaram nenhuma do "First Album" (1970), que é o meu segundo disco preferido. E bem que eles poderiam ter mandado “Beers, Drinkers & Hellraisers” (de “Tres Hombres”), uma das músicas que melhor definem o ZZ Top! Enfim, satisfazer fã deve ser um saco, rs...

O download de “Live From Texas” via torrent é até fácil de achar por aí. Eu, inclusive, estava baixando, até que descobri que o DVD havia sido lançado no Brasil. Uma preciosidade dessas eu fiz questão de ter o original!